“Nada tenhas medo, pequeno rebanho” (Lc 12,32)

“Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena”
(Ferreira Goulart)

Final de ano e, como é de praxe, o calendário nos convida a uma retrospectiva do caminho. É bom que seja assim. Os dias não devem passar ligeiros, sempre iguais, sem a possibilidade de nomeá-los e celebrá-los. Findado o frenesi do natal, que infelizmente se transformou em troca de presentes e comilança, a gente cai em si de novo. Mais um ano: mais longe da juventude e mais a gente se avizinha da irmã morte. Sabemos que ela pode chegar a qualquer hora, sem aviso prévio, mas, em tempos de celebrações, de fechamento de ciclos, de começos e recomeços, costumamos pensar melhor e com mais profundidade no que temos feito de nossa vida. Realmente, devo concordar com Roberto Pompeu de Toledo: “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial”.

Ao encerrar o ano, quase que automaticamente, a gente faz uma lista de perdas e danos, assim como de esperanças e vitórias. 2019 começou sangrando com um miliciano tomando posse da presidência da república. Seguiu deixando o rastro da morte com o crime humano, cultural e ambiental de Brumadinho; fez o país chorar com diversos assassinatos de líderes indígenas e com a matança de negros, mulheres e LGBTs. Como se não bastasse, presenciamos o apocalipse com o dia do fogo e centenas de queimadas na Amazônia. Como se não bastasse, o óleo contaminou nossos mares e nossas praias paradisíacas. E a tantos outros absurdos assistimos! Que pessoa sensata não se escandalizou com os 80 tiros? Quem de bom senso não ficou chocado de ver Paulo Freire chamado de energúmeno? Que amante da ciência não ficou boquiaberto ao ouvir dizer que peixes são inteligentes e fogem do óleo? Que ecologista não corou a cara de vergonha ao ouvir o presidente da república responsabilizar Leonardo DiCaprio pelas queimadas da Amazônia? Que trabalhador consciente não ficou desesperado ao ver a reforma da previdência aprovada? Que patriota de verdade não ficou estarrecido ao ver o país leiloado a preço de banana para os estrangeiros? E pior, que pessoa de bem não se sentiu humilhado, pisado, maltratado com a milícia no poder? Que justo não se revoltou com o abafamento de todas as evidências contra essa gente inescrupulosa, com a eliminação de provas de crimes horrendos como o caso Marielle Franco? Que pessoa de fé não se revoltou ao saber dos Terreiros queimados e dos ataques a líderes religiosos? Que mulher não morreu um pouco com tanto feminicídio, estupro e violência doméstica? Que pessoa sensata não se indignou com a impunidade que se instalou com a anuência do judiciário brasileiro? Que cristão autêntico não ficou estarrecido com a tal Marcha pra Jesus, com a destruição do estado laico e com a instrumentalização da fé cristã em prol de interesses próprios? Quem minimamente sensível não observou o crescimento do trabalho informal, o aumento do número de desempregados e da população de rua? São tantas e tão grandes derrotas que experimentamos, que não é possível – e nem vale a pena – elencá-las.

Se, porém, temos muito a chorar, temos também pequenas vitórias a celebrar. Nem tudosão dores. É hora, em nome da fé, de fazer memória das esperanças. Pequenos vaga-lumes em meio à escuridão, se não alumiam o caminho, pelo menos alimentam a alma com sua beleza. Façamos memória! A gente viu Lula livre, o povo do MST e do MTST na luta, a oposição se organizando, a arte florescente contra todo ataque, a criatividade de nossa gente mostrando nossos talentos, o sínodo da Amazônia acontecendo, o papa Francisco resistindo bravamente aos ataques e seus inimigos, Greta Tumber animando a pirralhada em prol do Planeta, Jane Fonda sendo presa aos 80 anos por uma causa nobilíssima, algumas vitórias da esquerda em países como a Argentina e Portugal etc.

Para resistir em tempos tão difíceis, pois 2020 promete vir como um tsunami de novos ataques aos direitos humanos, será preciso contabilizar cada suspiro de fé e esperança. Cada gesto de resistência deve ser lembrado, cada instante de comunhão deve ser revivido, cada olhar de ternura deve ser arquivado nas entranhas do coração. Sem isso, não poderemos resistir. Aquelas poesias que trocamos, aquele forró que dançamos, aqueles telefonemas que recebemos, aquelas mensagens de incentivo que vieram de longe, aquela contação de história que escutamos, aquelas mãos que tocaram nas nossas dizendo “estamos juntos”, aquelas lágrimas choradas não solitariamente, aquela palavra de lucidez em meio ao caos e aqueles passos dados na mesma direção, tudo deve ser criteriosamente selecionado e guardado “no lado esquerdo do peito”, como canta Milton Nascimento.

A memória curta é inimiga da esperança e forte aliada dos poderosos. É preciso fazer anamnese de tudo que tocou o coração desde dentro, mesmo que sejam fiapos, farrapos, resquícios, vestígios apenas. Não importa. Do que nos foi dado como insulto e ultraje, como agressão e dor, como censura e violência, faremos esterco de novas esperanças. Essa é a grandeza da fé. Quem crê sabe que toda merda serve para adubar. Um grão de fé pode nos animar em 2020. Parafraseando Elisa Lucinda, “só de sacanagem seremos mais esperançosos e crentes ainda”. Mais música, mais arte, mais poesia, mais dança, mais caminhadas, mais ciência, mais liberdade religiosa, mais direitos humanos, mais amizade, mais criatividade, mais mãos estendidas, mais gente nas ruas e mais vozes gritando: “Ele não!”. Nenhum tirano dura para sempre. A esperança permanece. Não podemos nos dar ao luxo de desesperar. Repitamos com Ferreira Goulart:

“Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

Sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.”


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