“Então Isaías andou nu e descalço por três anos” (Is 20,3)

 

Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida.
E uivar até me secarem os ossos.
Que queres que eu faça Deus?”
(
Adélia Prado)

 

Não é de hoje que sabemos que os textos bíblicos não correspondem à realidade histórica dos fatos ali relatados. Os estudos bíblicos nos ensinaram a distinguir entre o que é relato factual e relato teológico, ou entre fato e verdade. Que o texto fala de uma verdade humana profunda e visceral, isso é fato. Mas que a história é verídica, acontecida tal e qual, isso é boato.

Apesar de não relatarem fatos reais com fidedignidade, os livros bíblicos são preciosos. Muito preciosos. São sagrados, pois falam da relação de Deus com os humanos e dos humanos com Deus. Falam de experiências de fé, mas nem por isso estão isentas de bizarrices, anedotas, causos novelísticos e extravagâncias de todo tipo. Desde Sansão, cuja força estava na sua cabeleira, até uma louvável mulher – Débora – que matou o inimigo Sisara com um prego na cabeça, pululam nos escritos sagrados personagens curiosos e muito bem caracterizados. O que falar de Jonas na barriga do cetáceo ou de Tamar, que seduziu o sogro? Da piedosa Ana, mãe de Samuel, até a rebelde Judite, que pôs os guerreiros “no chinelo”, exibindo sua coragem, o texto tem dramas, tragédias, comédias, novelas, sagas e odisseias fascinantes.

Uma fascinante e curiosa história é a do profeta Isaías andando nu e descalço pelas ruas, a saber, por ordem divina.“Vai, tira a roupa do corpo e o calçado dos pés!”. E assim fez Isaías, que passou a andar nu e descalço. Sem preocupação com o decoro, que obriga a cobrir o corpo, o autor sagrado descreve Isaías obedecendo a ordem de Deus. Trata-se de um gesto profético, não incomum nas Escrituras. Em vez de dizer com palavras, o profeta diz com uma performance. Ele faz um gesto inusitado para significar algo, nesse caso, que “o rei da Assíria levará os cativos do Egito, os exilados da Etiópia, jovens ou velhos, todos nus e descalços, com as nádegas de fora, vergonha para o Egito”.

Parêntese um. Há algumas semanas atrás, uma distinta senhora, ministra do atual governo e que se arroga o título de mestre conforme a bíblia, teria feito algo parecido. Em coletiva, ensaiou umas palavras, mas estas foram engolidas e sufocadas, sem deixar escapar sequer um sussurro. Os jornalistas – que não são especialistas em bizarrices e nem em bíblia – ficaram a ver navios. Muito se especulou se a ministra teria tido uma espécie de síncope ou apagão, mas mais tarde ela explicou tratar-se de uma performance para significar a mudez das mulheres na sociedade. Poderia se tratar de um gesto profético, é verdade, não fosse a ignorância da ministra e sua incapacidade de compreender o que isso significa. Fim.

Ministra à parte, voltemos à nudez de Isaías. A nudez do profeta antecipa a vergonha do Egito e da Etiópia, que eram apoiadores dos filisteus, frente às ameaças da Assíria. “Os filisteus ficarão consternados e envergonhados por causa da Etiópia, seu apoio; por causa do Egito, sua soberba” (Is 20,5). E os filisteus dirão: “Vede como ficou o nosso apoio, aquele que a gente procurava em busca de ajuda para livrar-nos da ameaça da Assíria! E nós, como vamos escapar?”.

Estar com as nádegas de fora, ou em bom português, ser pego com as calças abaixadas, é expressão para falar da vergonha exposta, do vexame final, da falta de recursos para se defender, do abandono total etc. As nádegas de fora mostram a desproteção e o desamparo, a fragilidade e a vulnerabilidade humanas. Já conhecemos o famoso relato de Adão e Eva, nus no Éden, tentando tapar sua vergonha com folhas de figueira. Essa coisa de gente pelada não é incomum na Escritura. Até no Novo Testamento, no relato da Paixão segundo Marcos,aparece um jovem coberto com um lençol que teria saído correndo nu (Mc 14,52), tal o aperto da hora derradeira em que Jesus é tomado por seus inimigos.

Parêntese dois. Trata-se de um recurso literário. Marcos remete seu leitor a Amós 2,16: “E o mais corajoso entre os valentes fugirá nu naquele dia”, para falar do abandono dos discípulos na hora final de Jesus. Explicando: Não haverá valentia suficiente que garantirá a permanência junto a Jesus, cuja vida está entregue nas mãos das autoridades. Até o mais jovem, aparentemente o mais valente, sairá correndo com as nádegas de fora, tal a gravidade da situação. Fim.

Tenho pensado muito sobre isso, a nudez. Não aquela que os moralistas de plantão condenam, mas essa da qual falou Isaías e também o evangelista Marcos. Dessa desproteção que sentimos, desse estado de abandono no qual nos encontramos, dessa vergonha à qual somos submetidos sem cessar, especialmente com o governo atual. É vergonha sobre vergonha, humilhação sobre humilhação. É afronta sobre afronta, acinte sobre acinte. É vexame sobre vexame, desonra sobre desonra.

Coitado dos que buscaram apoio e cobertura na ilusão vendida através de fakenews por este atual governo! Coitados dos que acreditaram no conto da carochinha e fizeram arminha com a mão! Sua vergonha está exposta, juntamente com a incompetência da elite podre deste país. Seus líderes não conseguem – ou não querem – gerar empregos, não são capazes de fazer a economia crescer, não são capazes de dar um mínimo de esperança àqueles que os elegeram. Tem muita gente com a bunda de fora: puxam daqui, tapam dali e a vergonha continua exposta. O preço da carne e da gasolina revelam essa desfaçatez. Temos passado vergonha: vergonha internacional destacada em todos os jornais importantes do mundo. Vergonha que vai desde a acusação de que Leonardo Dicaprio teria apoiado as queimadas na Amazônia, até o presidente de nosso país ser chamado de “o pequeno Hitler tropical” ou de ter ganhado o título mundial de imbecil do ano.

Fosse só isso, a gente superava. Mas não. Sempre tem uma vergonha pior, um horror maior que o outro: o de ver nossa gente sofrendo, caída na miséria, sem seus direitos garantidos, sem previdência social, sem direitos trabalhistas, sem casa, sem emprego, sem saúde, sem medicamentos e sem esperança de que o pesadelo acabe.

Tenho vontade de fazer como Isaías: tirar a roupa e os sapatos e andar nua e descalça pelo centro de Brasília, por todas as capitais e em cada canto do país. Quem sabe assim os apoiadores desse desgoverno começariam a se perguntar do que se trata tal gesto inusitado. Diante dos descalabros desse governo, se uma pessoa de bom senso nunca teve vontade de raspar a cabeça, arrancar a roupa e se pôr nua no centro da vida, que atire a primeira pedra! Ah! E de uivar até secarem os ossos! Adélia Prado traduziu bem o que a gente sente em tempos de agonia com seu poema Ex-voto. Só não me arrisco a tal performance para não dar ideia à ministra. Melhor evitar tal vexame.


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