Resumo

Este trabalho, que consta de três artigos sucessivos, faz uma leitura do Evangelho de Marcos a partir da chave-hermenêutica fornecida por Wilhem Wrede no seu célebre livro “O Segredo Messiânico” (1901). Com os ajustes necessários, a perspectiva de Wrede possibilita uma percepção mais clara e abrangente da poderosa – e misteriosa – mensagem de Marcos, expandindo os horizontes do leitor para além de uma abordagem superficial. Aliás, permite visualizar a intrínseca relação existente entre o messianismo e o discipulado na teologia do Segundo Evangelista. De fato, a tese da qual parte o presente trabalho é que, para Marcos, uma adequada percepção do messianismo assumido por Jesus não é tão somente uma exigência cristológica, mas é também condição essencial para uma apropriada compreensão do discipulado. No primeiro artigo,foram apresentadas as linhas mestras do Evangelho de Marcos; neste segundo se aprofundará sua concepção messiânica e, no terceiro, seu modo de compreender o discipulado.

Palavras-chave: Evangelho de Marcos. Messianismo. Messias inesperado. Segredo messiânico. Wilhem Wrede. Discipulado. Seguimento de Jesus.

A concepção messiânica do Segundo Evangelho é, basicamente, a de um messias às avessas de toda expectativa puramente humana e triunfalista. Por isso, para todo aquele que abrigar a esperança de um messias político, um novo Davi investido de glória e majestade, o messias sofredor de Marcos é, nesse sentido, inesperado. Ele alcançará, de fato, a glória, mas não sem antes passar pela cruz. Entretanto, o messianismo de Jesus deverá ser revelado aos poucos, discretamente; não abertamente, mas na dinâmica do silêncio.

Dando continuidade ao assunto do segredo messiânico – intrinsecamente vinculado à concepção de Jesus como “messias inesperado” –, aprofundaremos as seguintes questões: Qual é a gênese da teoria do segredo messiânico? Que papel desempenha o segredo na perspectiva marcana? Qual é a função, em Marcos, das narrações de milagres e de exorcismos? Qual é a função das parábolas? Num relato marcado pela obscuridade acerca da messianidade de Jesus – que Marcos insiste em esconder por meio do segredo messiânico – qual o papel das cristofanias? Como elas iluminam o Evangelho de Marcos, sem se opor à escolha metodológica do evangelista de manter a messianidade de Cristo escondida?

1 AS ORIGENS DA TEORIA DO SEGREDO MESSIÂNICO

Antes do século XIX, ninguém teria pensado em estudar os Evangelhos “cientificamente”. Eles eram abordados a partir de uma perspectiva de fé, como portadores de uma história de salvação passiva e mecanicamente acolhida pelo escritor inspirado. O autor humano acabava assim diluído no autor divino e, junto com aquele, todo seu labor redacional.

Esse tranquilo cenário foi seriamente abalado no século das luzes pela crítica racionalista. Esta declarou a soberania da razão e desvinculou o estudo das Escrituras do prisma da fé, despojando milagres, portentos e a própria pessoa de Jesus de todo elemento sobrenatural. Tal processo, iniciado por Reimarus no século XVII, alcançou seu ápice com Frederico Strauss, que, na sua “História de Jesus” (1835), introduziu a célebre distinção entre os elementos históricos e as lendas que a Igreja primitiva teria construído em torno de Jesus(TILLESSE, 1968, p. 9-11).

Posteriormente, a teoria das duas fontes, elaborada no âmbito protestante, estabeleceu que, na base da tradição sinóptica, há duas fontes ou documentos: Marcos e uma coleção (hipotética) de sentenças denominada “Q” (letra inicial da palavra “Quelle”, “fonte” em alemão). A pretensão subjacente era que Marcos representava a fonte pura, ingênua, que, à diferença de Mateus e de Lucas, ainda não tinha sido adulterada pela releitura eclesial. Marcos passou assim a ser considerado a testemunha privilegiada e quase imediata do Jesus histórico. Simultaneamente, deixou o plano secundário ao qual tinha sido relegado por seu estilo simples e por sua aparente incompletude – pois carecia dos relatos da infância e de vários ensinamentos presentes em Mateus e em Lucas –, passando a ocupar o primeiro lugar na consideração da crítica literária e histórica(TILLESSE, 1968, p. 9-11; THEISSEN; MERZ, 1999, p. 17-30).

Paradoxalmente, no intuito de superar a ingenuidade com que tinham sido lidas as Escrituras, caiu-se numa análoga ingenuidade na abordagem de Marcos. O primeiro a advertir acerca desse perigofoi o teólogo alemão Wilhelm Wrede, cujo livro “O Segredo Messiânico” (1901) pulverizou o pressuposto dos teólogos liberais, ao demonstrar que também Marcos possuía uma reinterpretação eclesial.

O objetivo de Wrede foi o de dar uma explicação global das múltiplas situações desconcertantes – e de certo modo “esquisitas” – que caracterizam o Segundo Evangelho, conferindo-lhe seu singular suspense. Antes de Wrede, muitos tinham percebido essa chocante particularidade de Marcos: ordens de silêncio ineficazes (por chegarem tarde demais), ordens de impossível execução (por pretenderem ocultar algo evidente) ou sistematicamente incumpridas (por desobediência dos destinatários da ordem), que Jesus dirige a demônios (cf. Mc 1,25; 1,34; 3,12) e a beneficiários de milagres (cf. Mc 1,44-45; 5,43; 7,36; 8,26); mandatos de silêncio destinados aos próprios discípulos (cf. Mc 8,30; 9,9); parábolas aparentemente incompreensíveis, contadas “de modo que, por mais que olhem, não enxerguem, e por mais que escutem, não entendam” (Mc 4,10-12). No entanto, ninguém tinha articulado ainda esses elementos entre si. Os exegetas, de fato, propunham soluções diversas e pouco convincentes para cada caso particular, perguntando-se, em cada ocasião, “por que Jesus tinha agido assim”. Diferentemente, Wrede foi o primeiro a oferecer uma explicação única, global e abrangente de todas essas situações desconcertantes, vislumbrando também seu caráter artificial (TILLESSE, 1992, p. 108).

Segundo Wrede, Marcos dispunha de duas séries contraditórias de textos: alguns mais antigos, que falavam de Jesus de Nazaré (o Jesus “histórico”), o qual não tinha consciência de ser o messias nem o disse; e outros mais tardios, já “messianizados”, que continham a fé da Igreja primitiva, mas num estágio posterior. Num terceiro momento, pouco antes de Marcos, alguém teve – sempre segundo Wrede – uma brilhante ideia para harmonizar ambas as séries de textos: Jesus sabia, ao final das contas, da sua realidade messiânica, mas tinha proibido falar a respeito. Finalmente, o “truque” do segredo teria sido transmitido a Marcos, que, por sua vez, o teria conservado no seu Evangelho. (WRIGHT apud DEPOE).

Por essa via, Wrede afirmava que a obra marcana é uma releitura pós-pascal da Igreja primitiva, portanto, um relato de fé, em não menor medida do que Lucas, Mateus e João. Sendo assim, a ideia de que o segundo Evangelho é um documento histórico “puro” e incontaminado pela fé da Igreja resultava ilusória.

Certamente, a explicação de Wrede possuía limites, pois reduzia a raiz do segredo à mera suspeita sobre a tradição eclesiástica pré-marcana. Deste modo, caía num ceticismo histórico exacerbado a respeito de Marcos, ou seja, no mesmo exagero cometido pelos exegetas liberais com relação a Mateus e a Lucas. Contudo, ele teve o mérito de demonstrar magistralmente que as narrações de milagres e de exorcismos, junto com as respectivas injunções ao silêncio, não são simples compilações de fatos históricos – muitas vezes contraditórios e difíceis de harmonizar – a serem interpretadas ao pé da letra.

A origem do segredo messiânico, no entanto, não deve ser localizada no âmbito da tradição pré-marcana, como Wrede fez, mas no próprio labor literário do evangelista. (TILLESSE, 1992, p. 105-145). De fato, ele não é um mero compilador de tradições pré-existentes, mas um verdadeiro autor que reúne, seleciona, reelabora e organiza as tradições segundo um propósito teológico que lhe é próprio e lhe concede originalidade[1].

2 FUNÇÕES DO SEGREDO MESSIÂNICO

Uma vez situado o segredo messiânico no âmbito redacional, estamos em condições de retomar a pergunta pela finalidade do segredo no esquema do Segundo Evangelho. Em outras palavras, qual é o propósito que Marcos persegue ao rodear de mistério a identidade e a missão de Jesus?

1) O segredo messiânico desempenha, na compreensão marcana do discipulado, uma função catequética fundamental. Como foi indicado, para Marcos, Jesus é,efetivamente, o messias, mas não segundo as expectativas da comunidade para a qual ele escreve. Nesse sentido, o Jesus de Marcos é o “messias inesperado”, já que a sua incumbência não é a restauração gloriosa do Reino davídico[2], mas a instauração do Reino de Deus na derrota aparente que se dá na cruz[3](SMITH, 1996, p. 523). Nesse contexto, o evangelista quer mostrar o perigo de uma profissão de fé prematura, incapaz de permanecer firme no tempo da tribulação (cf. Mc 4,17), pois, ainda que chegue o dia da glória, antes é preciso passar pela crucifixão. Sendo assim, e diante da tentação de um messianismo fácil, a natureza do messianismo de Jesus precisa ser antes esclarecida(CAMPOS, 1997,p. 136). Entretanto, Jesus – ou melhor, Marcos – exige silêncio, até que “o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos” (Mc 9,9), pois só então o discípulo poderá compreender plenamente e anunciar ao mundo que Jesus ressuscitou(SANTOS, 1997, p. 106; LIGHTFOOT apud TILLESSE, 1992, p. 80).

Por outro lado, o evangelista utiliza o segredo como recurso pedagógico, pois, suscitando admiração, interrogações e até incompreensões em torno da pessoa de Jesus, de sua práxis e de seus ensinamentos (cf. Mc 1,22.27; 2,12; 5,20), geram-se as disposições apropriadas para aproximar-se dele e se iniciar no caminho do discipulado. O fino senso catequético de Marcos lhe previne assim de dar fórmulas de fé prontas e desencarnadas, pois a descoberta de quem é Jesus só pode ser feita no seguimento.

            2) Finalmente, o segredo messiânico desempenha uma função lógico-redacional na trama do relato, regulando o ritmo da narração, pois, se a identidade de Jesus fosse anunciada abertamente desde cedo, a sua morte ver-se-ia adiantada. Consequentemente, Marcos faz o relato da vida de Jesus acontecer de modo paulatino, desvendando sua identidade com clareza somente no final, quando morre na cruz.

            Clarificada a finalidade do segredo messiânico, veremos sua articulação nos milagres, nos exorcismos, nas parábolas e nas cristofanias.

3 MILAGRES E INJUNÇÕES AO SILÊNCIO

As narrações de milagres ocupam 209 dos 666 versículos do Segundo Evangelho, o que representa 31 % da obra. Sendo tão extenso o espaço que Marcos dedica aos relatos de milagres, pode-se deduzir qual seja a sua relevância no esquema redacional(TILLESSE, 1968,p. 39).

De fato, os milagres constituem manifestações privilegiadas do poder messiânico de Jesus, pois neles se antecipa o que foi anunciado pelo profeta Isaías: “os olhos dos cegos vão se abrir e abrem-se também os ouvidos dos surdos, […] os aleijados vão pular como cabritos e a língua dos mudos entoará um cântico” (Is 35,5-6). Justamente porque os relatos de milagresrevelam implicitamente quem Jesus é, Marcos insere estrategicamente ordens de silêncio, que fazem parte da dinâmica do segredo messiânico. Deste modo, o evangelista deixa transparecer indiretamente a identidade de Jesus, mas, ao mesmo tempo, está nos dizendo que o momento de um anúncio aberto ainda não chegou: ainda é tempo de guardar silêncio. Na expressão de Martim Dibelius (1843-1947), os milagres constituem, paradoxalmente, uma “epifania secreta” (TILLESSE, 1992, p. 105-145; TILLESSE, 1968, p. 41).

Sem contar os sumários redacionais nem os exorcismos, encontram-se em Marcos quatorze narrações de milagres, a saber: 1- cura da sogra de Pedro (cf. Mc 1,29-31); 2- cura do leproso e injunção ao silêncio (cf. Mc 1,40-45); 3- cura do paralítico (cf. Mc 2,1-12); 4- cura do homem da mão ressequida (cf. Mc 3,1-6); 5- a tempestade acalmada (cf. Mc 4,35-41); 6- cura da hemorroísa (cf. Mc 5,25-34); 7- volta à vida da filha de Jairo e injunção ao silêncio (cf. Mc 5,21-24.35-43); 8- primeira multiplicação dos pães (cf. Mc 6,34-44); 9- Jesus anda sobre as águas (cf. Mc 6,45-52); 10- cura do surdo-mudo e injunção ao silêncio (cf. Mc 7,31-37);11- segunda multiplicação dos pães (cf. Mc 8,1-10); 12- cego de Betsaida e injunção ao silêncio (cf. Mc 8,22-26); 13- cura do cego de Jericó (cf. Mc 10,46-52); 14- maldição da figueira estéril (cf. Mc 11,12-23)(TILLESSE, 1992, p. 119).

            Desses relatos, doze se localizam na primeira parte do Evangelho, dominada pelo segredo messiânico. Os outros dois localizam-se na segunda parte (cf. Mc 10,46-52; 11,12-23), após a confissão de Pedro (cf. Mc 8,29), a partir da qual o segredo começa a perder força. Por isso, para o nosso propósito, só interessam os da primeira parte.

Como podemos observar, dos milagres da primeira parte, somente quatro possuem injunção de silêncio ou equivalente[4]: a cura do leproso (cf. Mc 1,44); a reanimação da filha de Jairo (cf. Mc 5,43); a cura do surdo-mudo (cf. Mc 7,36); a cura do cego de Betsaida (cf. Mc 8,26). No entanto, projetam seu influxo durante toda a primeira parte e sobre o restante dos milagres, que ficam enquadrados na dinâmica do silêncio, como em uma espécie de grande inclusão (TILLESSE, 1992, p. 120).

Ora, essas quatro ordens de silêncio mencionadas se caracterizam por sua estranheza, pois as duas primeiras são imediatamente desobedecidas e as duas seguintes são de impossível ou difícil cumprimento. Assim, em Mc 1,43-44, o evangelista faz questão de destacar, tanto a “severidade” da ordem de silêncio dirigida ao leproso quanto a imediata divulgação do acontecido. Também em Mc 7,36 destaca-se a “insistência” do mandato, acrescentando-se que, “quanto mais ele insistia, mais eles o anunciavam”. Por sua vez, a reanimação da filha de Jairo não tem como ser ocultada e, no entanto, Marcos coloca Jesus insistindo para que ninguém soubesse do caso (cf. Mc 5,43). Algo semelhante sucede na cura do cego de Betsaida, onde o silenciamento é implícito e virtualmente impraticável: Jesus lhe proíbe entrar no povoado (cf. Mc 8,26).

Salta à vista, assim, o caráter artificial das injunções de silêncio, pelo que devem ser situadas – conforme já dissemos – no âmbito redacional. O fato de serem sistematicamente infringidas ou impraticáveis não se dá, pois, devido a um descuido do evangelista; é intencional. Mediante este recurso, Marcos visa incomodar o leitor, suscitando nele a pergunta pela significação teológica de um silêncio irrealizável.

4 EXORCISMOS E INJUNÇÕES AO SILÊNCIO

Se os milagres sugerem, de modo implícito, o segredo messiânico (Jesus realiza as obras do messias e, por isso, estas devem permanecer ocultas), já os exorcismos indicam expressamente, através da alocução dos demônios, o conteúdo do segredo. Em outras palavras, enquanto os milagres apontam na direção da identidade messiânica de Jesus, mas sem revelá-la abertamente, os exorcismos vão além, revelando,aos quatro ventos, quem ele é –“o Santo de Deus” (Mc 1,24), “o Filho de Deus” (Mc 3,11),o “Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5,7)[5] – e a sua missão – “Vieste para nos destruir?” (Mc 1,24) (TILLESSE, 1992 , p. 126).

Como nos relatos de milagres, também nas narrativas de exorcismos Marcos insere, estrategicamente,injunções ao silêncio (cf. Mc 1,25; 1,34; 3,12). Novamente, a artificialidade é a nota característica, pois os demônios e espíritos impuros são chamados ao silêncio tarde demais, após terem anunciado – aliás, aos gritos – o conteúdo do segredo.

Os relatos de Mc 5,1-20 (o possesso de Gerasa) e de Mc 7,24-30 (a filha da sírio-fenícia) parecem exceções por carecerem de injunção. No entanto, no primeiro caso, a ordem de comunicar o sucedido aos familiares (cf. Mc 5, 19) se converte, implicitamente, numa forma particular do mandato de guardar silêncio, pois o fato de que só os que partilham a casa sejam os destinatários da notícia introduz certa delimitação com relação ao resto dos gerasenos(GNILKA, 1986, v. 1, p. 240). Algo semelhante pode se dizer da mulher sírio-fenícia, cuja petição é atendida no segredo da casa onde Jesus se esconde – sem menção de testemunhas –, sendo convidada, como o geraseno,a voltar para a própria morada, onde espera a sua filha, já liberada[6].Por sua vez, o exorcismo de Mc 9,14-29 também carece de ordem de silêncio; afinal, trata-se de um espírito mudo (TILLESSE, 1992, p. 124-127).

As narrações de exorcismos apresentam uma importância fundamental na teologia de Marcos, pois, além de revelarem pelo grito dos demônios a identidade e a missão de Jesus,evidenciam a derrota do Reino de Satanás, o que, indiretamente, insinua a presença invisível do Reino de Deus. Assim, como a lua reflete de noite a luz do sol, a expulsão dos demônios reflete a presença do Reino de Deus, pois a causa da derrota pode ser inferida: o “mais forte” que João anunciava já chegou (cf. Mc 1,7; 3,27; Is 9,5) (TILLESSE, 1992, p. 124).

5 O SEGREDO NAS PARÁBOLAS

            Segundo Marcos, o messianismo de Jesus é um fato, mas um fato que não pode ser proclamado abertamente, pelo menos por enquanto. Por essa razão, aos “de fora” Jesus se dirige exclusivamente em parábolas (cf. Mc 4,11b), já que no Evangelho segundo Marcos       as parábolas não são para simplificar a mensagem, mas para obscurecê-la, ou seja, para intrigar, incomodar, despertar curiosidade, gerar estranheza(BURKILL, 1956, p. 249).

A dinâmica das parábolas, porém, não acaba aí, pois os interlocutores podem reagir de modo diverso diante da estranheza que gera o relato. Em alguns, esta suscita perguntas, tornando-se o pontapé inicial que põe o discípulo a caminho. São “os de dentro”, os “com Jesus”(Mc 4,10); a eles “é confiado o mistério do Reino de Deus” (cf. Mc 4,11a), ou seja, a chave do segredo messiânico(TILLESSE, 1992, p. 137).

Em outros, ao contrário, percebe-se um entusiasmo superficial, motivado mais pelos prodígios que Jesus realiza do que pela sua pessoa. Para esses, a parábola é um enigma indecifrável sem nenhum efeito transformador. São aqueles que permanecem na multidão, sem fazer o movimento de aproximação de Jesus que leva ao discipulado. São os “de fora”, aos quais “tudo é apresentado em parábolas” (Mc 4,11b). Em algumas ocasiões, as parábolas também geram adversários, como a parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mc 12,12), que a princípio é entendida, mas gera aborrecimento e oposição. Também esses opositores ficam do lado “de fora”. Trata-se, não propriamente de incompreensão da parábola, nem de incapacidade de pôr-se em movimento em direção a Jesus, mas de não aceitação do que ele diz e propõe. De fato, a palavra e a práxis de Jesus em defesa da vida se apresentam como subversivas dos esquemas da autoridade judaica, pois colocam o homem acima da Lei e, não poucas vezes, contra ela (SILVA, 1989, p. 15-16).

            As parábolas são também o meio utilizado por Jesus para indicar publicamente e pela primeira vez sua condição de Filho, o que acontece na parábola que acabamos de mencionar, dos vinhateiros homicidas (cf. Mc 12,1-12). Contudo, essa autoproclamação, embora pública, não é realizada abertamente, mas de modo escondido. O próprio evangelista, que já antes advertiu do efeito escurecedor das parábolas para os “de fora” (cf. Mc 4,12), adverte agora, expressamente, da natureza parabólica do relato (cf. Mc 12,1). Trata-se, portanto, da linguagem velada que Jesus utiliza para aqueles que estão fora, de modo que, por mais que olhem, não enxerguem, e por mais que escutem, não entendam (cf. Mc 4,12) (GNILKA, 1986, v. 2, p. 170).

De fato, a autoproclamação como o Cristo e o Filho de Deus, de forma expressa, clara e aberta, só é pronunciada perante o Sinédrio, no começo do relato da paixão (cf. Mc 14,61-62), quando o risco de interpretar o messianismo de Jesus de modo triunfalista desaparece (cf. Mc 11,1-10).

As parábolas finalmente nos lembram da provisoriedade do segredo messiânico. Marcos atesta, de fato, que não se acende uma lâmpada para pô-la debaixo de uma cama. Pelo contrário, ela é posta no candelabro (cf. Mc 4,21-23). Mediante essa imagem, o evangelista está nos advertindo que um dia o véu será tirado e o segredo será manifestado ao mundo. Contudo, isso não acontecerá antes que o Filho do Homem ressuscite dos mortos (cf. Mc 9,9). Entretanto, o segredo vai sendo tecido, amadurecido e, ao mesmo tempo, discretamente desvelado a quem – movido pela admiração e às vezes pela incompreensão, ou melhor, pelo desejo de compreender – decide seguir Jesus no caminho.

6 DESENVOLVIMENTO ESTRUTURAL DO SEGREDO MESSIÂNICO

            A confissão de fé petrina,“Tu és o Cristo”, provocada pela pergunta de Jesus aos discípulos, “E vós, quem dizeis que eu sou?”(Mc 8,29), constitui o centro, o miolo de Marcos. Imediatamente depois, o evangelista coloca uma injunção ao silêncio (cf. Mc 8,30), situando o relato na perspectiva do segredo messiânico. Desse modo, a proclamação é reconhecida como válida, mas necessitada de uma ulterior explicação (GNILKA, 1986, v. 2, p. 15). O esclarecimento é oferecido no versículo seguinte: “e começou a ensinar-lhes que era necessário o Filho do Homem sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8,31). A esse primeiro anúncio da paixão, seguem-se outros dois (cf. Mc 9,30-32; 10,32-34), o que caracteriza a segunda parte do Evangelho como caminho de explicitação e realização de um “messianismo às avessas” que conduz Jesus e seus discípulos à Jerusalém. Ora, uma vez que Jesus foi confessado como messias (cf. Mc 8,29), resta confessá-lo como Filho de Deus, o que para Marcos só pode realizar-se na plena consumação da cruz (cf. Mc 15,39). Confirma-se assim a estrutura bipartida antecipada em Mc 1,1.

Sugestivamente, após utilizar o título “messias” no versículo introdutório (cf. Mc 1,1), Marcos o abandona durante toda a segunda parte e, em seu lugar, usa outros – antes mencionados: “o Santo de Deus” (Mc 1,24), “o Filho do Deus Altíssimo” (Mc 5,7) (TERRA, 1997, p. 9). Na confissão petrina, o título messias sai desse cone de sombras, mas isso só acontece por uma única vez, pois, daí em diante, o título não será mais retomado. No lugar de “messias”, Marcos utiliza a expressão apocalíptica “Filho do Homem” vinda de Dn 7,13 (cf. Mc 8,31), com que Jesus se designa a si mesmo, evitando toda conotação político-davídica (cf. Mc 2,10.28; 8,31.38; 9,9.31; 10,33.45; 13,26; 14,21.41; 14,62).

Ora, se a primeira parte de Marcos se caracteriza pelo silenciamento, o segredo messiânico permanece na segunda parte na forma de uma incompreensão exacerbada da parte dos discípulos (cf. Mc 8,31-33; 9,6; 9,10; 9,18; 9,33-34; 9,38; 10,13; 10,23-27; 10,32; 10,35-40)[7]. De fato, a rejeição do sofrimento por parte de Pedro (cf. Mc 8,32) fundamenta-se na incapacidade de entender o proclamado em Mc 8,29. Aliás, denota a incapacidade dos Doze – assim como da comunidade marcana – para compreender a verdadeira índole da missão messiânica. A dura reprimenda de Jesus permite entrever a gravidade da questão, o que explica que Pedro seja equiparado a Satanás, o opositor do plano divino, o anti-Reino.

Enquanto desdobramento do segredo messiânico, a insistência na incompreensão dos seguidores constitui também ela um artifício literário. Marcos quer advertir sobre a importância de uma instrução que os discípulos pré-pascais não conseguem entender (cf. Mc 9,9), mas que a Igreja de Marcos, ou seja, o leitor primário, deveria entender. É uma maneira de chamar a atenção, de dizer que há algo muito importante a ser compreendido (TILLESSE, 1992, p. 129).

Entretanto, o caminho que leva à paixão já está iniciado, pois, embora Pedro não enxergue o sentido da profissão que acaba de fazer, tal profissão inclui veladamente tudo quanto as Escrituras diziam a respeito do Cristo. Desse modo, a necessidade da paixão já se encontra implícita na confissão de Pedro. Jesus apenas explicita todas as consequências da sua missão e, “como se trata da Palavra de Deus, uma vez pronunciada, acontece” (TILLESSE, 1992, p. 84). Consequentemente, a partir do momento em que Pedro – e com ele a Igreja de Marcos – proclama Jesus como Cristo, o destino messiânico arrasta todos para Jerusalém até a consumação da profecia de Mc 8,31 (TILLESSE, 1992, p. 84).

7 CRISTOFANIAS: A GRANDE ILUMINAÇÃO DO SEGREDO MESSIÂNICO

            Em sintonia com a estrutura bipartida resenhada, que prepara, conduz e possibilita a revelação da identidade messiânica de Jesus, Marcos coloca uma tríade de cristofanias que enquadram a obra toda: no começo, no meio e no final. Se os milagres, os exorcismos e as parábolas oferecem manifestações veladas de um messianismo que deve ser guardado com sigilo, já as cristofanias constituem a grande iluminação do segredo messiânico (TILLESSE, 1992, p. 91-102). Na linha da tradição apocalíptica, elas revelam ao próprio Jesus, às testemunhas privilegiadas e, finalmente, ao mundo inteiro, que Jesus é o “Filho de Deus” (GNILKA, 1986, v. 1, p. 59).

1) O batismo (cf. Mc 1,9-11). O relato, integrado no prólogo, é a primeira cristofania do Evangelho. O rasgamento do véu, o oráculo divino e a unção do Espírito – elementos próprios da literatura apocalíptica –, sugerem uma verdadeira entronização messiânica. Desse modo, Marcos antecipa a entronização definitiva de Jesus, o Filho amado de Deus (cf. Sl 2,7), que acontecerá no trono real da cruz. Aliás, no Novo Testamento (cf. Rm 6,3; Cl 2,12) e especialmente em Marcos (cf. Mc 10,38), o batismo é símbolo da morte. O fato de Jesus ser batizado no ato mesmo da sua apresentação é muito significativo, pois profetiza desde o início seu destino de cruz(TILLESSE, 1992, p. 91-102).Significativamente, o evangelista se vale de uma manifestação gloriosa para explicitar a identidade messiânica do crucificado. Doravante, paixão e ressurreição, humilhação e exaltação, ficarão inseparavelmente vinculadas.

Diferentedos relatos paralelos de Mateus e Lucas (cf. Mt 3,17; Lc 3,22), que colocam a fórmula do oráculo na terceira pessoa do singular – “Este é” –, Marcos se vale da segunda pessoa do singular – “Tu és” –, com a qual a voz do céu se dirige exclusivamente a Jesus (e aos leitores). O batismo é inserido assim na dinâmica do segredo.

2- A transfiguração (cf. Mc 9,2-10). A perícope, também impregnada da simbologia apocalíptica, antecipa a que será a condição do Ressuscitado. Marcos localizou o relato no começo da segunda parte, iluminando o desfecho do Evangelho até a morte e o posterior anúncio do anjo no sepulcro vazio (cf. Mc 16,8). Como no batismo, novamente aqui se manifesta o vínculo indissolúvel entre as duas faces do querigma: morte e ressurreição. Por isso, a cena se insere no contexto do primeiro anúncio da paixão (cf. Mc 8,31-38) que, por sua vez, explica a confissão petrina (cf. Mc 8,29) (TILLESSE, 1992, p. 91-102). Nessa perspectiva, Marcos faz questão de colocar Pedro, Tiago e João como testemunhas da transfiguração. Trata-se, de fato, das mesmas testemunhas qualificadas que estarão presentes no Getsêmani (cf. Mc 14,33).

Ora, uma vez que Pedro (e com ele a Igreja de Marcos) reconheceu Jesus como messias, não há mais necessidade – como na cena do batismo – de excluir os discípulos da alocução divina. Eis por que esta aparece agora na segunda pessoa: “Este é o meu Filho amado” (Mc 9,7). No entanto, o segredo reaparece ao descerem da montanha (cf. Mc 9,9), desta vez para evitar a difusão de uma revelação que, novamente, os discípulos não compreendem. A discussão a respeito do que significaria esse “ressuscitar dos mortos” (Mc 9,10) denota, de fato, que a rejeição da cruz persiste. Por esse motivo, o segredo deverá ser guardado até o Filho do Homem ressuscitar(MATEOS; CAMACHO, 1994,p.172). Então será o fim do segredo messiânico e a lâmpada não ficará mais escondida (cf. Mc 4,21-23).

            3- A crucifixão (cf. Mc 15,33-39). Esta oferece a grande cristofaniamarcana, por cuja luz deve ser lido o Evangelho todo (TILLESSE, 1992, p. 91-102). As trevas que cobrem a terra evocam a nuvem da transfiguração (cf. Mc 9,7), mas, desta vez, Marcos substitui o oráculo divino pelo silêncio impotente de Deus. O silêncio finalmente cede espaço ao grito de Jesus, seguido pela proclamação do centurião romano, na qual é assumida a fé de todos os crentes de origem gentia. Com a morte de Jesus, o acesso a Deus é aberto para a todos os povos, o que Marcos simboliza mediante a imagem do véu rasgado (cf. Mc 15,38). Este já não mais impede o conhecimento de Deus (BARBAGLIO, v. 1, 1990, p. 519). É, por isso, o momento de Jesus ser confessado na sua realidade mais profunda, e isso acontece na boca de alguém sem nenhuma expectativa messiânica.

Na confissão do soldado – precedida pela declaração explícita do próprio Jesus perante o Sinédiro (cf. Mc 14,61-62) –, a cristologia marcana alcança o cume. O uso do imperfeito, “este homem era…” (Mc 15,39), confirma o fato de que, para o evangelista, Jesus foi o Filho de Deus desde o começo (cf. Mc 1,1.11) (GNILKA, 1986, v. 2, p. 381). Diante do Crucificado, some qualquer ambiguidade, pois nele se manifesta a genuína natureza do messianismo de Jesus. A razão de ser do segredo desaparece também. Já não existe mais risco de uma interpretação triunfalista. É, portanto, o momento de confessar abertamente que Jesus é o Filho de Deus; não apesar da cruz, mas com fundamento nela, a partir dessa experiência(TERRA, 1997, p. 22). É como se Marcos estivesse dizendo à sua Igreja: “agora podeis dizer quem é Jesus, porque o vistes morrer”(NASCIMENTO, 1997, p. 127).

8 CONCLUSÃO

A teoria de Wrede sobre o segredo messiânico, ainda que limitada na sua formulação inicial, ajudou a resgatar a dimensão teológico-literária do Evangelho de Marcos. Este não é um simples documento histórico, mas é, antes de tudo, um relato de fé, a releitura pós-pascal da vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. O segredo messiânico estrutura esse relato e pertence, por isso, ao âmbito redacional, no qual desempenha duas funções básicas:

1- função catequética, que visa ao discipulado: evitar uma profissão de fé apressada, formulada com desconhecimento da verdadeira natureza messiânica de Jesus; suscitar admiração, interrogações e busca de respostas em torno de sua pessoa, como primeiro passo do seguimento;

2- função lógico-redacional: resguardar provisoriamente a identidade de Jesus, para evitar, na lógica do relato, o adiantamento da sua condenação à morte.

            Como demonstramos, os milagres e os exorcismos devem ser entendidos no âmbito do segredo messiânico, pois esses são reveladores de uma identidade que, no entanto, deve ser provisoriamente resguardada. Também as parábolas devem ser lidas nessa perspectiva, desempenhando um papel pedagógico essencial em função do discipulado. Ora, se os milagres podem ser entendidos como “epifanias secretas” da identidade e da missão de Jesus, já as revelações do batismo, da transfiguração e da cruz constituem a grande iluminação do segredo messiânico.

            Uma vez estudado o segredo messiânico, que é o pressuposto básico de tudo no Evangelho de Marcos, estamos em condições de considerar mais especificamente o discipulado, que será o objeto do nosso próximo artigo.

REFERÊNCIAS

 

BARBAGLIO, Giuseppe; FABRIS, Rinaldo; MAGGIONI, Bruno. Os Evangelhos (I). São Paulo: Loyola, 1990.

BURKILL, T. A.. The cryptology of parables in St. Mark´s Gospel.NovumTestamentum, Leiden, v. 1, p. 246-262, 1956.

CAMPOS, Dilmo Franco de. Quem é Jesus. Revista de Cultura Bíblica, São Paulo, v. 21, p. 133-138, 1997.

DEPOE, John. The messianic secret in the Gospel of Mark:historical development and value of Wrede’s theory. Disponível em: http://www.johndepoe.com/Messianic_secret.pdf. Acesso dia 9/10/2013.

GNILKA, Joachim. El Evangelho según San Marcos. Mc 1–8,26. Salamanca: Sígueme, 1986, v. 1.

GNILKA, Joachim. El Evangelio según San Marcos. Mc 8,27–16,20. Salamanca: Sígueme, 1986, v. 2.

MATEOS, Juan; CAMACHO, Fernando. Marcos:Texto y comentario. Córdoba: El Almendro, 1994.

NASCIMENTO, Ademar L.. Esquema cristológico de Marcos. Revista de Cultura Bíblica, São Paulo, v. 21, n. 81-82, p. 124-132, 1997.

SANTOS, Gilvan Rodriguez dos. Retalhos da cristologia de Marcos. Revista de Cultura Bíblica, São Paulo, v. 21, n. 81-82, 1997.

SILVA, Airton José da. Ele caminha à vossa frente. O seguimento de Jesus pelo Evangelho de Marcos. Estudos Bíblicos, São Bernardo do Campo, n. 22, p. 11-21, 1989.

SMITH, Stephen H.. The function of the Son of David tradition in Mark´s Gospel. New TestamentStudies, Cambridge, v. 42, p. 523-539, 1996.

TERRA, João Evangelista Martins. Cristo no Evangelho de Marcos. Revista de Cultura Bíblica, São Paulo, v. 21, n. 81-82, p. 3-18, 1997.

TERRA, João Evangelista Martins. O segredo messiânico. Revista de Cultura Bíblica, São Paulo, v. 21, n. 81-82, p. 19-24, 1997.

THEISSEN, Gerd; MERZ, Annette.El Jesús histórico(Biblioteca de Estudios Bíblicos 100).Sígueme: Salamanca, 1999.

TILLESSE, Caetano Minette de.Evangelho segundo Marcos:nova tradução estruturada, análise estrutural e teológica.Fortaleza: Nova Jerusalém, 1992.

TILLESSE, Caetano Minette de. Le SecretMessianiquedansl´Évangile de Marc.Paris: Cerf, 1968.

[1] Por esse motivo, o segredo messiânico não aparece em Mateus nem em Lucas, ao não ser em ocasiões em que dependem de Marcos, como por exemplo, em Mt 9,27-31 e em Lc 4,40-41.

[2] Marcos não nega o messianismo davídico de Jesus, até porque uma seção completa do Evangelho (cf. Mc 10,46–12,44), no mínimo, parece estar caracterizada pelo que poderia ser chamado de “atividade do Filho de Davi”. Mas ele o localiza num sentido diferente da expectativa popular. Jesus é o Filho de Davi espiritualmente, por oposição à politicamente, aliás, ele é mais do que Davi (cf. Mc 12,35-37).

[3] Mais uma vez, lembremos que, para a comunidade marcana, Jesus é o “messias inesperado”, mas sem que isso signifique excluir completamente da tradição judaica a possibilidade de um messias sofredor. De fato, o próprio Marcos se inspira no segundo Isaías.

[4]No relato da cura do cego de Betsaida, de fato, a proibição de entrar no povoado equivale à ordem de silêncio (cf. Mc 8,26).

[5] Embora os demônios revelem abertamente a identidade de Jesus, Marcos evita – coerente com o esquema do segredo messiânico – utilizar nessas revelações o título de “messias”, que só retomará na profissão de fé de Pedro (cf. Mc 8,31). Note-se, por outro lado, que a identidade atribuída pelos demônios a Jesus coincide com as revelações do batismo (Mc 1,9-11) e da transfiguração (9,2-10).

[6] Aliás, ambos os relatos são localizados em território pagão, onde a razão de ser do segredo messiânico perde força. Lembremos que o segredo se justifica para salvaguardar o messianismo de Jesus da expectativa política presente nos círculos judaicos (TILLESSE, 1992, p. 124-127).

[7] Na primeira parte, salienta-se a limitada capacidade de compreensão da multidão, a quem Jesus só fala em parábolas (cf. Mc 4,33-34); a incompreensão dos discípulos também aparece indicada, mas em grau menor que na segunda parte (cf. Mc 6,51-52; 8,17).


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