Conta o Livro dos Atos dos Apóstolos que, tendo recebido o dom do Espírito Santo, os seguidores de Jesus se encheram de coragem e se puseram a testemunhar o Ressuscitado (cf. At 2,14-36). Como Moisés que, tendo recebido a Torah, entregou-a ao povo como dom maravilhoso de Deus, assim os apóstolos entenderam que o Espírito recebido era comunicação e precisava ser comunicado. A Palavra de Deus não podia ficar encarcerada em seu coração. É exatamente por isso que Lucas – que escreveu os Atos dos Apóstolos – narra o dom do Espírito em forma de línguas. Cheios da força de Deus, os seguidores de Jesus se põem a anunciar que Jesus de Nazaré está vivo e que ele dá a todos seu Espírito com prodigalidade.

A festa de Pentecostes era ocasião de ajuntar muita gente: judeus piedosos vinham de todo canto para rezar em Jerusalém, além de gentios que temiam a Deus e muitos outros curiosos. Lucas escolhe exatamente esta festa para falar da descida do Espírito Santo, pois quer garantir que o Espírito é para todos e não para um grupinho de privilegiados. Diz o texto que, cheio do Espírito Santo, Pedro começa a pregar. O povo fica de boca aberta, estarrecido com tanta sabedoria. Todo mundo entende o que ele diz, pois a Palavra penetra os corações e faz viver: Deus ressuscitou Jesus e ele é Senhor de tudo e de todos; essa notícia é boa nova! (cf. At 2,32-36). Tendo feito bela pregação, conta ainda o texto que as pessoas ficaram tocadas em seu coração e desejaram também viver a proposta que os discípulos anunciavam. Então perguntaram a Pedro e aos demais irmãos o que eles deveriam fazer. A resposta é clara: “Convertei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus para remissão dos pecados. E recebereis o dom do Espírito Santo, pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que estão longe, todos aqueles que o Senhor nosso Deus chamar” (At 2,38-39).

Notemos que, desde o começo da Igreja, há uma consciência de que a promessa do Espírito é para todos. Ninguém fica fora dessa promessa maravilhosa de Deus. Lucas é tão insistente nisso que, ao longo dos Atos dos Apóstolos, relata vários outros “pentecostes”, ou melhor, várias outras efusões do Espírito Santo. Ele quer reafirmar a ideia da universalidade do dom de Deus: o Espírito. Ele sabe que muita gente poderia pensar que o Espírito Santo era só para os apóstolos, ou só para os judeus piedosos de Jerusalém. Não! Lucas faz questão de mostrar que o Espírito Santo é para todos, todos mesmo, até para aqueles que estão longe, no caso os gentios ou não-judeus.

Repare que em Atos 8,14-17 há um pequeno relato da descida do Espírito Santo. É o “pentecostes” em Samaria, região de uns parentes dos judeus, nada bem vistos por eles. Mais à frente, novo relato da descida do Espírito, em Cesareia, desta vez na casa de um gentio ou estrangeiro, Cornélio. O Espírito Santo nem deixou Pedro terminar seu discurso; foi logo batizando Cornélio e sua gente com sua presença transformadora. É o “pentecostes”dos gentios, mas ainda daqueles que temiam ao Deus dos judeus (cf. At 9,1–10,48). Em At 19,1-9, de novo, outro “pentecostes”, desta vez em Éfeso, bem longe de Jerusalém, na Ásia. Lucas nem se dá o trabalho de dizer que os gentios são piedosos como Cornélio. Todo mundo vai receber o Espírito Santo e ponto final. Acontece que Lucas está convencido daquilo que pôs na boca de Pedro em At 2,39: A promessa do Espírito é para todos.

Também hoje, muitas vezes, corremos o risco de achar, como os leitores de Lucas, que o Espírito Santo é para alguns privilegiados: para o papa, os bispos, os padres… Ou para algum santo, uma pessoa especial, uma pessoa que reza muito, que lê a Bíblia etc. Não, de jeito nenhum! A promessa de Deus continua valendo: seu Espírito é para todos. Basta a gente abrir o coração e acolher o dom de Deus. O Espírito habita em nós, nos fortalece, nos capacita para seguir Jesus. É ele quem nos dá força no discipulado, pois sozinhos somos fracos e vacilamos. É ele quem nos faz verdadeiros discípulos. Essa boa-nova tem que ser anunciada; todo mundo precisa saber que pode contar com a força de Deus sem eu coração, ou seja, seu Espírito que habita o íntimo de nós.

É tarefa da Igreja, e é claro da catequese, ajudar os catequizandos a se abrirem para essa presença capacitadora de Deus. Na catequese, o clima de oração, partilha e meditação da Palavra de Deus favorece a acolhida do Espírito. Cada catequizando precisa também fazer a experiência do Pentecostes; precisa acolher a presença de Deus como o maior de todos os dons e se dispor a caminhar atrás de Jesus pela força de seu Espírito. A todos os catequistas, coragem e boa sorte nessa missão!


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