Em tempos de cristandade, quando toda a sociedade respirava ares de cristianismo, o anúncio primeiro da fé parecia dispensável. Mas não mais agora, em mundo pós-cristão, quando a secularização da sociedade tirou as evidências da fé de debaixo de nossos olhos, trazendo consequentemente a perda da memória cristã. Para nossos contemporâneos, o Deus cristão não é mais conhecido; a fé cristã se tornou artigo de luxo e a lista dos não-apresentados pode ser maior que se mostra à primeira vista. Esse quadro atual desafia a catequese a dar aos processos de transmissão do evangelho uma orientação mais querigmática que antropológica. Mas o que é isso? Vejamos!

Na modernidade, enquanto a sociedade passava pelo processo de secularização, o homem moderno ainda conservava as raízes da fé cristã no seu interior. Ainda fossem negadas, elas estavam lá como memória, como recurso disponível para orientar a vida. Ora, quando a razão ocupava o centro de tudo, era urgente mostrar a razoabilidade da fé, dar as razões do crer. Por isso a catequese ganhou uma orientação antropológica. Partindo da realidade do catequizando, buscava-se chegar a Deus. Ganhou espaço uma catequese mais indutiva, mais humanista, mais baseada nas verdades universais que transcendem a fé cristã.

Hoje, desconfiados da razão e já sem a memória cristã de outrora, nossos contemporâneos querem mais que muitas razões para crer: querem fazer a experiência cristã de Deus, desde o coração, pois não buscam razões para crer, mas força para viver. Daí a necessidade de anunciar Jesus Cristo, ou seja, sua vida, morte e ressurreição, para nossos contemporâneos.

A catequese hoje se vê desafiada a apresentar Jesus Cristo a nossos contemporâneos. Não cabe mais a ela a tarefa de burilar a fé, de dar-lhe acabamento, pois a fé cristã não é mais um pressuposto no nosso meio. Ela desapareceu do horizonte de nossos catequizandos. Jesus para eles não é ninguém mais que um super-herói, ou um humanista, ou um líder religioso de peso. Ele é alguém que ficou no passado. Para a maioria de nossos contemporâneos, a fé cristã se tornou lenga-lenga que não fala ao coração, um blá-blá-blá moralista que não tem nada a ver com nossa vida, um conjunto de doutrinas caducas sem pertinência. Anunciar Jesus Cristo, morto e ressuscitado, como aquele que dá sentido às nossas vidas é mais que urgente. A essa tarefa damos o nome de desafio querigmático. E, a esse desafio, a catequese não pode mais se furtar ou não cumprirá sua função primeira: propor a fé cristã, dar condições para que cada catequizando faça seu encontro pessoal com Jesus Cristo vivo.


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