“Depois do terremoto houve um fogo, mas o Senhor não estava nele.
E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave” (1Rs 19,12)

 

“O silêncio está gritando
Pedindo paz, gritando amor.
O silêncio está falando
Põe teu amor, no teu Senhor”
(Pe. Zezinho)

 

Estamos vivendo em uma sociedade marcada pela comunicação. O tempo inteiro, somos tomados por uma avalanche de informações. Os novos meios tecnológicos, o modo pós-moderno de organização do trabalho, do estudo e do lazer se modificou e transformou também a nossa maneira de nos relacionar.

Tenho a impressão de que falamos muito. Estamos cercados de instrumentos de comunicação por todos os cantos. Mas, apesar de todos eles, comunicamo-nos pouco.

O ruído, os sons, os barulhos povoam nosso dia a dia. Quase desconhecemos o silêncio. Preenchemos o nosso tempo com músicas, vídeos, áudios… Se nos damos o direito de realizar alguma atividade física, logo escolhemos uma trilha sonora para ocupar o silêncio desse tempo. Nos estabelecimentos comerciais, raramente não encontramos um som ambiente ou um animador de vendas falando ao microfone. Nas clínicas médicas, consultórios, salas de esperas etc., a TV está sempre ligada nos obrigando a uma programação infernal. O silêncio se tornou coisa rara. Pouquíssimas vezes podemos desfrutar do privilégio do silêncio.

O que será que está por detrás de tanto barulho?Por que temos necessidade de preencher os espaços de silêncio com sons que nos distraem o tempo todo? Por que o silêncio nos incomoda?

Parece que fugimos do encontro sincero com nós mesmos, com o outro e principalmente com Deus. Estamos desaprendendo a arte de ouvir, de falar com reverência, de ser e estar diante do outro.

Se as nossas relações sociais estão marcadas por essa superficialidade, estamos fazendo o mesmo em nosso relacionamento com Deus. Não raramente, nossas liturgias têm se convertido em lugares de barulho, com músicas cada vez mais altas, menos profundas e menos orantes. Nossos grupos de oração estão imbuídos de pregações ruidosas; tornaram-se ambientes de espetáculos e vazios de acolhida e espiritualidade. Como diz a poetisa Adélia Prado: Vamos a Igreja e saímos com vontade de rezar, tamanho é o esvaziamento de nossas liturgias e encontros eclesiais.

Moldados por esse modelo de vida, corremos o risco de buscar o encontro com Deus nos ruídos, nas pregações acaloradas. Esquecemo-nos do que relata a bíblia sobre o encontro de Elias com Deus. Desejoso de encontrar-se com o Senhor, Elias iludiu-se de que ele se faria conhecer nas manifestações grandiosas da natureza: fogo, vento impetuoso etc. Mas, para surpresa do profeta, Deus se revelou na brisa suave e mansa. Foi aí que Elias entendeu que para encontrar o Deus verdadeiro, é preciso mãos vazias, coração aberto e ouvidos atentos à sua Palavra, pois é na sutileza da vida que ele se mostra, é no interior do coração que ele se dá a conhecer, é nas pequeninas coisas que sua graça se manifesta.

Um olhar apurado vai saber distinguir os sinais silenciosos de Deus. Ele se manifesta e nos fala nas coisas simples e singelas, na brisa da manhã e no encontro despretensioso com aqueles que conosco partilham o caminho da existência, no sorriso verdadeiro e no abraço acolhedor. Nosso Deus é Palavra poética de vida, mas também é silêncio fecundo.


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