“Lembra-te de quão breves são os meus dias;
por que criarias pois todos os filhos dos homens?” (Sl 89,47)

“Acordei bemol, tudo estava sustenido
sol fazia, só não fazia sentido”
(Paulo Leminsk)

Uma das marcas mais profundas das religiões sempre foi a reserva de sentido que elas carregam. A fé, normalmente advinda da transmissão de um grupo, garante esperança ao crente e o arranca da absurdidade da vida cotidiana, tantas vezes esvaziada de qualquer significado. Eis a vida: nascer, crescer e morrer, quando se tem a bem-aventurança de não ser ceifado cedo pela pobreza, pela doença, por um acidente qualquer ou simplesmente pelo abandono.

No hiato entre vir a à luz e vê-la definitivamente se apagar, experimentamos um calvário de labutas e dores: doença, pobreza, exploração, violência e solidão são alguns desses martírios cotidianos. E ainda o desafio da subsistência: casa para morar, comida para alimentar, roupa para proteger o corpo, remédio para combater os males que ameaçam a saúde, escola para estudar, emprego para trabalhar… Do nascer ao pôr do sol, a gente corre atrás da subsistência, sem tempo para o lazer, para a arte, para a convivência fraterna com a família ou com os amigos.

Todos os dias, o sol nasce e morre sem que a gente o note. As árvores nas calçadas dão flores, mas passam despercebidas. Os pássaros migram sobre nossas cabeças, mas nosso olhar permanece encantado pela luminosidade da tela. Vida dura de escravidão, na qual todos os esforços são dispensados somente para pagar contas. “Vendemos o almoço para comprar a janta”, dizia meu pai. E as angústias vão se amontoando, sem um sentido maior que ajude a ressignificar a dor de viver.

A dor da existência é coisa antiga. Certamente esse dilaceramento foi agigantado com o sistema capitalista vigente, que faz do dinheiro um deus e de nós seus pobres escravos, mas a dor da finitude é bem anterior a essa escravidão. O livro de Jó relata com muita clareza esse drama da vida. O livro é uma novela, muito bem construída. Seu personagem principal – no fundo do poço – procura um fiapo de sentido para não enlouquecer.

A teologia da retribuição, amplamente difundida na época, não dá conta de lhe dar o que procura. Bênção para os bons; maldição para os maus: pregava tal teologia. Mas Jó era justo, reto, piedoso, imaculado, sem manchas ou rusgas que pudessem comprometê-lo. Mesmo assim sofre a perda de seus bens, sua família, seu prestígio, sua saúde… Jó experimenta dores atrozes, ainda mais quando aqueles que se diziam seus amigos o culpabilizam por suas desgraças.

Jó segue relutante, confiante em sua inocência, redimido por sua consciência. Prefere negar a fé a compactuar com uma religião sem misericórdia com os pequeninos. Não admite crer num deus que pune e vinga em vez de acudir e amparar o fraco. Para ele, não faz sentido seguir crendo numa religião vazia de sentido. Mas, se por um lado, Jó resiste; por outro, os amigos de Jó tiram lucros e privilégios da religião dos interesses. Esvaziam a fé daquilo que lhe é mais próprio: sua tarefa de oferecer sentido e força para os crentes.

Assistimos, há algumas semanas, à famosa Marcha para Jesus, com a presença de milhares de pessoas, onde compareceram também políticos, cantores gospel e pastores midiáticos. Até o presidente da república se deu ao desfrute de mostrar sua cara e fazer “arminha com a mão” em pleno evento evangélico. Muitos interesses estavam em jogo e era preciso marcar presença para garantir a simpatia do eleitorado das igrejas neopentecostais, quando o índice de rejeição do seu governo cresce vertiginosamente.

Houve quem apoiasse esse desfrute. Não faltam amigos de Jó para esvaziar a fé, enquanto seus discursos defendem o nome de Deus e suas camisetas estampam frases bíblicas. Só não sabem eles que – no livro de Jó – os tais amigos foram repreendidos por Deus, enquanto Jó – o rebelde – foi exaltado pelo Altíssimo, sendo inclusive agraciado com uma experiência de fazer inveja: “Eu só te conhecia de ouvir falar. Agora, porém, te vejo com meus próprios olhos” (Jo 42,5).

Como Jó, seguimos resistindo. Estamos convictos de que Deus não compactua com a violência. Na Marcha para Jesus, muitos estavam presentes; faltou, porém, o Deus do Evangelho. Ele fez protesto, não foi. Recusou-se a compactuar com os poderosos e a colocar seu nome no meio da podridão dos opressores. Alguns interesseiros podem instrumentalizar a fé cristã, mas ela permanece plena de sentido para quem sabe que o deus dessa gente é o dinheiro e não o Deus de Jesus Cristo. Permanecer crente depois da Marcha para Jesus é um ato de resistência, pois a tentação é apostatar. Mas não vamos entregar a esses falsos profetas o tesouro da fé. Vamos seguir resistindo.


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