Saber que Deus é amor e experimentar esse amor em nossa vida é algo que alivia o coração e dá força pra viver. No entanto, a teologia do medo não cai de moda. Vai e volta, a gente escuta uma mãe dizer pra seu filho: “Faz isso não que Deus castiga!”, “Deus vai mandar uma coisa ruim pra você porque você não foi bom menino!”, ou ainda, “Papai do Céu não gosta de menino mal-criado!”. Mas, se é tão maravilhoso sentir o infinito amor de Deus por nós, por que insistimos tanto em torturar nossas crianças com essa teologia? Por que não lhes ajudamos desde cedo a confiar no amor misericordioso de Deus? Acontece que o deus-torturador e vingativo da teologia do medo tornou-se instrumento disciplinar usado por muitos pais e sem esta imagem eles não saberiam mais criar seus filhos. Parece brincadeira, mas ainda há quem precise deste recurso pedagógico às avessas para colocar limites em seus filhos.

Alguns dirão: “Que exagero, isso não existe mais!”. Mas não faz muito tempo, quando eu ainda coordenava a catequese de certa diocese, esse assunto deu pano pra manga. A coleção Catequese Permanente trabalha no Módulo 1 (crianças de 8 a 11 anos) o tema Deus é amor. São aproximadamente 16 encontros cujo tema central é este: Deus é amor e só sabe amar. Ora, se Deus é amor, como disse São João (cf. 1Jo 4,16-19), a relação com ele não pode admitir o medo. Insistimos neste assunto com crianças e adultos na catequese diocesana. Refletimos, cantamos, rezamos, partilhamos, brincamos, sempre guiados pelos textos da Escritura Sagrada, procurando fazer a experiência desse amor. Foi aí que caímos num belo texto da Carta de Tiago (cf. Tg 1,12-18) que afirma que, de Deus, só pode vir coisa boa, pois ele é o Pai das luzes e não tem fases como a lua: uma hora manda bênçãos, outra hora manda castigos. Tiago insiste: “Ninguém diga quando for tentado ou provado: é Deus quem me tenta ou prova!”. Os catequistas ficaram surpresos com tal teologia. As turmas adoraram a boa-nova. Os adultos ficaram espantados; as crianças ficaram vibrantes de entusiasmo. Para que a família acompanhasse o processo, por ocasião de um encontro festivo onde seriam apresentadas as atividades desenvolvidas nos encontros, enviamos aos pais um cartãozinho com uma formiguinha bem serelepe e feliz dizendo: “Ôba! Deus não castiga ninguém!”. E logo em seguida, o convite: “Venha celebrar o amor de Deus conosco na festa da catequese!”. Pra quê, meu Deus? Foi um Deus nos acuda.

No dia seguinte, o telefone não parava de tocar; pais e mães desesperados queriam explicações. Não contente em resolver tal polêmica ao telefone, uma mãe extremosa, cheia de cuidados com seus filhos, procurou-me pessoalmente, possuída de cólera e convencida de suas razões: “Como você me desautoriza diante de meus filhos?”. “Mas como assim?”, perguntei eu sem saber o que se passava. “Você disse que Deus não castiga ninguém. Se é assim, como vou fazer para corrigir meus filhos? Definitivamente, esta catequese não me serve!”. Foi uma longa conversa… Espero ter convencido a mãe de que aquele instrumento de correção não era o melhor.

Amedrontar os filhos em nome de Deus não só tem conseqüências psicológicas funestas, mas tem conseqüências religiosas terríveis. Este tipo de teologia forma o ateu de amanhã. Afinal, por que eu deveria ser amigo de um Deus que me tortura, me castiga, vinga e pune os erros sem nenhuma misericórdia? Que vantagens há em seguir seus ensinamentos e por que eu deveria ser seu discípulo? Além de conseqüências psicológicas e religiosas – perdoem-me os adeptos da teologia do medo! – esta é uma grande inverdade. Deus é amor e as Escrituras não se cansam de mostrar isso. Se nos textos sagrados aparece também a imagem de um Deus colérico e castigador não é porque Deus assim o é. Este é um recurso literário, um antropomorfismo, para dizer que Deus – que é amor – não compactua com o mal, não tolera o pecado. Mas o que é antropomorfismo? É dar forma e sentimentos humanos a algo que não é humano, por exemplo, aos animais, como vemos nas fábulas. Este é um recurso comum na Bíblia, sempre utilizado pelos escritores sagrados, especialmente do Antigo Testamento. Os escritores projetam em Deus seus sentimentos; eles escrevem sobre Deus a partir de suas experiências. Quem escreveu os livros bíblicos projeta em Deus sua indignação, sua raiva, sua cólera… Mas quem conhece um pouco da linguagem bíblica e, principalmente, quem conhece Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, sabe que Deus só pode ser amor. Esta verdade ficou muito clara em cada gesto de Jesus, relatado nos Evangelhos. Que o povo que escreveu a bíblia precisasse deste recurso para falar de Deus é totalmente compreensível. Mas que a gente continue torturando nossas crianças com tal absurdo, aí já é demais. Já se passaram mais de 20 séculos desde que a bíblia foi escrita. Já é hora de repensar nossa teologia e de mostrar na catequese a face amorosa de Deus. Não fez bem para nós cultivar medo de Deus e não foi sem sacrifício e dor que conseguimos superar tal equívoco. Não vamos repetir na catequese hoje um uma teologia do passado que a história já mostrou seus limites. Não vale a pena!


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