O Livro de Baruc faz parte daquela famosa coleção deuterocanônica, ou seja, aquele grupo de livros que entrou um pouco mais tarde para o cânon (lista de livros considerados inspirados), a saber: Eclesiástico, Sabedoria, Tobias, Judite, Primeiro e Segundo Livros dos Macabeus e Baruc, além de trechos de Daniel e Ester. Tal coleção, apesar de amplamente lida pela comunidade primitiva, foi retirada do cânon por Lutero por ocasião da Reforma Protestante. Em controvérsia com a Igreja Católica, pareceu por bem a Lutero, que traduziu a bíblia para o alemão, colocar tais livros como anexo, pois o Segundo Livro dos Macabeus dava margens para justificar as indulgências, ponto nevrálgico de sua discórdia com a Igreja. Mas, na bíblia cristã (advinda da Septuaginta – traduzida do hebraico para o grego), os deuterocanônicos sempre foram lidos, caíram no gosto popular e se firmaram no cânon sem maiores problemas.

Pois bem! O Livro de Baruc faz parte dessa coleção. É, provavelmente, do século II a.C. e, apesar de tão tardio, achou lugar cativo junto ao livro do profeta Jeremias (profeta que atuou no século VI a.C.), por causa de sua identificação como secretário do grande profeta. O autor do Livro de Baruc remete sua obra a tempos bem anteriores ao de sua escrita, tempo da deportação na Babilônia (597 a.C.), depois da tomada e incêndio de Jerusalém (cf. Br 1,1-2). Certamente, esse é um recurso literário – não incomum na Escritura (pseudoepigrafia) – por meio do qual o autor real vincula sua obra a uma corrente teológica, garante sua entrada no cânon e dá credibilidade ao texto. Apesar de atrelado a Jeremias, o texto não tem características proféticas, mas sim sapienciais, aproximando-se mais de um midraxe (cf. Estudo 6 – Livro de Judite) que de uma profecia.

O Livro pode ser esquematizado em quatro patres:

A primeira é uma breve apresentação do cenário histórico, não sem erros ou confusões (cf. Br 1,1-12), como no livro de Judite (cf. Livros Bíblicos – estudo 6).

Na segunda parte, Baruc convida a uma celebração penitencial, mostrando ao leitor o comportamento nada reto do povo eleito ao longo de sua história (cf. Br 1,13–3,8). Toda recordação da vida passada não tem outro fim senão o de advertir, admoestar e corrigir o povo. A liturgia penitencial que o relato sugere se mescla de beleza e dor, quando apresenta os deportados reunidos na presença de Baruc, ouvindo as palavras do profeta acerca de Jerusalém. “Todos começaram a chorar, a jejuar e a fazer preces ao Senhor” (Br 1,5). A comunidade, sensibilizada com tal relato, faz uma coleta e envia-a a Jerusalém junto com alguns vasos sagrados, outrora tirados do Templo e recuperados por Baruc (cf. Br 1,6-9). Oportunamente, Baruc pede a oração de seus compatriotas pela vida longa do rei Nabucodonosor e de seu filho Baltazar (cf. Br 1,11). A oração pelos líderes opressores é entendida a partir da compreensão de que Deus está usando da Babilônia para corrigir seu povo. Para o povo exilado, Baruc também pede preces, na certeza que a Babilônia é instrumento de Deus para sua correção, pois tendo rompido a Aliança com seu Senhor, sofria com justiça os castigos de Deus (cf. Br 1,13–2,10). Reconhecida a infidelidade, o povo suplica a clemência do Deus libertador, recordando seus grandes feitos na história (cf. Br 2,11-15). Não apela para sua própria justiça nem para os grandes feitos de seus antepassados; confia unicamente na misericórdia divina, capaz de socorrê-lo (cf. Br 2,19). E, tomando por base a Lei (Lv 26,14-44)[1], o autor recorda a cabeça dura de sua gente, que insiste em desobedecer ao Senhor, desde tempos mais antigos (cf. Br 2,27–3,8).

Segue-se uma terceira parte, composta por uma meditação sobre a Lei, complementando a recordação penitencial e reforçando a fidelidade de Deus, fidelidade nem sempre encontrada em seus parceiros de Aliança (cf. Br 3,9–5,9). Ao exaltar o valor das Escrituras (Lei e Profetas), Baruc recupera a necessidade da renovação da Aliança perdida, convidando o leitor a refazer suas promessas ao Deus da Aliança.

Ao final, agregada ao texto de Baruc, encontra-se a Carta aos exilados (cf. Br 6), um texto que Jeremias supostamente teria escrito a seus irmãos deportados (ao modo de Jr 29), advertindo contra o perigo da idolatria. Fica bem claro nos escritos que as referências aos ídolos e ao culto idolátrico ultrapassa os deuses da Babilônia, levando o leitor mais experimentado a desconfiar da datação da carta, situando-a devidamente no século II a.C., tempo da guerra macabaica, quando a família de Matatias enfrentou o tirano Antíoco IV (170 a.C.).

O Livro de Baruc, pouco lido e meditado nos meios populares, tem muito a nos oferecer, apesar de sua compreensão teológica se alicerçar nas bases da retribuição. Baruc nos convida à conversão, a voltar para o Senhor de coração sincero e a repensar o valor das Escrituras Sagradas (ditas como Lei e Profetas) na nossa vida. Ainda ecoa insistente a voz do profeta: “Escuta, Israel, os mandamentos; presta atenção, aprende a viver” (Br 3,9).

[1] Tal citação explícita do Livro do Levítico aproxima ainda mais o Livro de Baruc do gênero midraxe.


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