Dona Roberta teve seis filhos. Ela é daquele tempo em que não se fazia muito planejamento familiar e os filhos iam chegando um após outro. Dona Roberta amou a todos que Deus lhe deu, dizia ela. Cuidou de cada um com carinho; protegeu cada um como uma águia protege seus filhotes.

Dona Roberta, seu marido e seus filhos saíram da roça e foram morar na cidade, para seus filhos estudarem. Um dia, voltando à casa materna, seus filhos, juntamente com os primos da região, foram todos tomar um banho de cachoeira. A correnteza estava forte neste dia e os jovens – na alegria do passeio – nem perceberam o perigo. A água, sempre boa, mas traiçoeira, puxou o primeiro filho de Dona Roberta. Os irmãos, vendo-o pedir socorro, correram para ajudá-lo. Mas a água foi mais forte e levou três filhos de Dona Roberta de uma só vez.

Não é preciso nem dizer que a cidade ficou de luto. Não só Dona Roberta adoeceu de dor, mas toda a família ficou desmantelada. O marido dela procurou consolo na cachaça. Saía todos os dias para beber e voltava tonto, chorando, xingando e batendo nos filhos que restaram. Os filhos choravam a saudade dos irmãos e procuravam entender a tragédia, mas tragédia não tem mesmo explicação.

Passado o tempo do luto, daquela dor pungente que destrói a gente por dentro, Dona Roberta foi voltando ao normal. Arranjou forças para cuidar dos filhos que ainda tinha e nem sequer maldizia a Deus pela fatalidade. Muita gente boa ajudou; ela procurou psicólogo, médico… E qual não foi o susto de sua família, quando numa noite Dona Roberta se aprontou e foi com as amigas ao baile da comunidade. Todos convidavam, mas ela nunca tinha se arriscado a ir. Quando jovem, dançava muito nos bailes da roça e a dança era sua alegria. Era hora de redescobrir a alegria de dançar e, com a dança, a alegria de viver.

Desde aquela noite, Dona Roberta renasceu das cinzas de seus filhos. Dançou e dançou e dançou mais ainda. A alegria foi voltando ao seu coração. Toda sexta-feira, pra espanto de muitos, lá estava dona Roberta prontinha para o baile. Até entrou na academia para fazer dança de salão. E se tornou a maior pé de valsa da cidade, conhecida por todos por sua leveza e sua alegria. Seus filhos estranharam no começo, mas depois entenderam que a vida continua apesar da dor. Seu marido ficou em casa bebendo e chorando. Enquanto isso, Dona Roberta ganhou concursos de dança; tornou-se dama disputada entre os cavalheiros. Dona Roberta desabrochou para a vida no prazer de dançar, como uma bailarina.


Testemunho anterior:   18. Um motivo para viver
Próximo testemunho:    20. Decidido a vencer
Print Friendly
Print this pageShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Email this to someoneShare on Tumblr0