“Ao declinar da tarde, pôs-se Jesus à mesa com os doze discípulos.” (Mt 26,20)

 

“Daqui do meu lugar, eu olho teu altar,
E fico a imaginar aquele pão, aquela refeição.
Partiste aquele pão e o deste aos teus irmãos,
Criaste a religião do pão do céu, do pão que vem do céu.”
(Padre Zezinho)

 

As melhores lembranças da minha existência estão instaladas ao redor da mesa. Fazem parte da memória afetiva aqueles almoços especiais de domingo, que na verdade não tinham nada de tão grandiosos a não ser o carinho, a singeleza e o cuidado. Almoços e jantares singelos, aquecidos de afetos junto à trempe do fogão a lenha, ganhavam forma, cor e sabor.

Se nas situações mais difíceis economicamente a comida era simples e, em algumas vezes, escassa, a ausência do pão era suprida pela fraternidade e pelo afeto vividos e celebrados ao redor da mesa. Ali a vida passava sem pressa, Na vida partilhada, a dor da existência, a tristeza, as preocupações, as mágoas e as ofensas cediam lugar ao riso, ao perdão e à festa.

O tempo passou, muita coisa mudou, mas a mesa da refeição ainda é um lugar privilegiado de encontro em minha vida. Agora, ganhou sentido mais amplo, novo e iluminado, pois compreendi que Jesus, o Deus encarnado, se faz presente em cada refeição, seja na mesa da eucaristia, seja em outras mesas, de tantas refeições. Numa ceia derradeira, na noite de despedida, Jesus celebrou a vida e fez comunhão com seus amigos. A mesa é lugar de partilha, de consolo, de buscar a força necessária para enfrentar os desafios. Assim fez Jesus. Antes de partir, ceou com os seus para se nutrir de comunhão e amizade mais que de comida.

E, como naquela refeição, todas as vezes que nos reunimos para comer juntos, Ele se faz presente, revelando-se a nós como pão partido. Com ele, aprendemos a ter o coração aberto para eternizar o que há de mais importante na vida: o amor, a partilha e a fraternidade. Pois se o alimento nutre o nosso corpo e dá forças, o amor revigora  e nutre o coração e a alma para prosseguirmos decididamente.


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