em Juan Luis Segundo

 “Sabeis, pois, distinguir muito bem os aspectos do céu,
mas não reconheceis os sinais dos tempos” (Mt 16,3).

Um dos temas centrais da teologia de Juan Luís Segundo é a categoria de Sinais dos tempos. O primeiro aspecto a ser ressaltado é o profundo enraizamento evangélico desse tema. A pregação e a práxis de Jesus continuamente priorizam os sinais dos tempos como uma plataforma hermenêutica, a partir da qual é percebida a presença de Deus no mundo e seu apelo é evidenciado. Os Evangelhos chamam a atenção diversas vezes para os sinais que se fazem presentes na história. Os discípulos são convidados a saber ler esses sinais e aqueles que os ignoram são criticados por sua insensatez.Isso porque os sinais dos tempos remetem ao cultivo da sensibilidade histórica diante da realidade. Essa sensibilidade, conforme a experiência humana de Jesus, é mais que mero sentimento. Trata-se de uma postura existencial que nele se manifestou como amor concreto pelos pobres e marginalizados e como luta contra toda forma de desumanização.

Na prática de Jesus, há uma diferença notável entre sinais dos tempos e sinais dos céus. O povo vivia à procura de sinais e Jesus, quase sempre, se recusava a dar a seus seguidores os sinais desejados (Mt 16,4). Acontece que, entretidos com os sinais dos céus, sempre à procura de uma mensagem pronta que pudesse ser dita da parte de Deus, os judeus se descuidavam da vida e da história, que os sinais dos tempos querem fazer ver e compreender. Jesus insiste que Deus se revela na história. É só saber ler esses sinais de sua revelação (Mt 16,2-3).

Concretamente, os sinais dos tempos constituem o eco da Palavra de Deus que ressoa fortemente, esperando que a humanidade a acolha. Eles são o jeito de Deus continuar falando ao mundo. J. L. Segundo dirá: “os sinais dos tempos constituem algo assim como o lugar onde a Palavra de Deus pode ser dita e ouvida”[1]. Deus mesmo fala por meio da história. Ele não se faz indiferente ou alheio ao trajeto humano, ao contrário, se faz presente e deixa suas marcas, sempre convidando seu povo a saber discernir seus sinais.

Estes sinais de Deus, porém, só são percebidos por aqueles que estão imbuídos de seu Espírito. É pela presença e atuação do Espírito que a Igreja perscruta e interpreta os sinais dos tempos. É o Espírito da verdade que capacita para essa compreensão (Jo 16,14) e essa interpretação não se restringe a uma melhor compreensão intelectual do dado da fé, confrontado com os fatos reais, mas é abertura a uma práxis que interage com a realidade em vista da humanização do mundo.

Assim sendo, a partir dos sinais dos tempos, estabelece-se o diálogo entre a Igreja e o mundo. A fé na ação de Deus presente na história desvela os sinais como uma interpelação dirigida não só à Igreja, mas ao mundo. Os sinais dos tempos brotam do dinamismo da própria história e cabe à Igreja a missão de interpretá-los e de oferecer tal interpretação como um serviço de amor à humanidade.

É uma conquista para a teologia e para a práxis eclesial considerar os sinais dos tempos não só como o elemento final a ser iluminado pela reflexão que parte da lógica revelação-fé-Tradição, mas tomá-los também como um ponto de partida invertendo a referida ordem. Cria-se uma abordagem que não é oposta mas complementar à primeira e prenhe de potenciais e novas perspectivas.

É sabido que cada nova geração humana traz consigo o desejo de sentido, realização e felicidade para a sua própria existência. Esse desejo se desenvolve em meio às variações de cada momento histórico e clama não só por imediata satisfação, mas por interlocutores que desejem compreendê-lo sem querer impor suas censuras, receios e manipulações. Assim, a atenção e a reflexão sobre os sinais dos tempos convertemos cristãos em interlocutores entre a Igreja e o mundo, em leitores do momento presente da história que suplica por interpretação.

Diante da reflexão sobre os Sinais dos Tempos de J. L. Segundo, é mister lembrar que coube ao Papa João XXIII o mérito de ter resgatado essa categoria para o discurso atual da Igreja. O contexto desse resgate era o da convocação do Concílio Vaticano II. O Papa, na Bula convocatória, assim se expressou: Apropriando-nos da recomendação de Jesus, de saber identificar os sinais dos tempos, acreditamos descobrir, em meio a tantas trevas, numerosos sinais que nos infundem esperança sobre os destinos da Igreja e da humanidade. (AAS 54/1962). A ênfase assumida por João XXIII era a da abertura da Igreja para o diálogo com a modernidade, o empenho ecumênico e o desejo de apresentar ao mundo atual o Evangelho de forma significativa. Para concretizar esse apelo, a expressão sinais dos tempos, presente na pregação de Jesus (Mt 16,3; Lc 12, 54-56), se encaixou de forma perfeita na motivação para o Concílio.

É interessante notar que essa categoria obteve uma recepção ampla e crescente não só no discurso magisterial, mas também no seio da reflexão teológica. Juan Luís Segundo é um dos teólogos que maior expressão e aprofundamento conferiu ao resgate dos sinais dos tempos como referencial irrenunciável não só da teologia mas de toda a vida eclesial.

Uma primeira abordagem vê os sinais dos tempos como um apelo lançado por Deus, interpretado pela Igreja e proclamado ao mundo de forma profética. Os sinais são eventos históricos por meio dos quais a Palavra de Deus ressoa procurando acolhida no coração humano. Neles, manifesta-se o agir salvífico do Deus libertador na história. À Igreja cabe o serviço de hermeneuta desses sinais. Ela é a voz que traduz o apelo de Deus que traz libertação para os seus. A evangelização parte dessa interpretação dos sinais e culmina no anúncio da Palavra.

J. L. Segundo faz perceber com sua reflexão teológica que os sinais dos tempos são também para a Igreja. Mais do que isso: são principalmente destinados à Igreja. Ela é a primeira destinatária desta comunicação de Deus. Para cumprir sua missão de interpretar os sinais, a Igreja necessita criar aquela disponibilidade aos apelos da Palavra que continuamente a desinstala e a converte em sinal de salvação para a humanidade. Daí já se conclui como a rigidez institucional, o abafamento do carisma e o apego a determinadas configurações históricas dificultam ou impedem a Igreja de cumprir com fidelidade a sua missão de intérprete e anunciadora dos sinais dos tempos.

Num cenário em que a Igreja se configura ao Evangelho, nota-se um incrível dinamismo para distinguir e discernir os sinais dos tempos e, diante deles, se apresentar como uma espécie de vanguarda do processo de humanização querido por Deus. Exatamente o contrário aconteceu (e acontece) nas plagas dominadas por posturas reacionárias e autoritárias. E como tal distorção se deu muitas e repetidas vezes na história, tornou-se comum associar o testemunho eclesial àquilo que de mais atrasado e anti-humano se possa imaginar. Não são poucos os que fazem esse tipo de associação. Atitudes de imprudente condenação, avaliações preconceituosas, decisões autoritárias desfiguraram a Igreja diante do homem contemporâneo que tem dificuldade em crer e confiar na abordagem eclesial da realidade. Recolocar os sinais dos tempos como foco da atenção e sensibilidade cristã e interpretá-los na perspectiva da humanização a partir de Deus é um caminho a ser refeito para que a Igreja cumpra plenamente a sua missão.

Considerando os sinais dos tempos como o lugar onde a Palavra de Deus pode ser dita e ouvida e que estes sinais são a matéria-prima do diálogo entre a Igreja e o mundo, podem ser elencadas algumas realidades que emergem como autênticos sinais dos tempos:

  • O pluralismo cultural: fenômeno típico da pós-modernidade, a globalização relativizou as fronteiras geográficas e colocou povos e expressões culturais em contínua interação. Por cultura, compreende-se uma forma global de expressão da realidade humana, assumida pelo indivíduo e pela coletividade e submetida a um contínuo processo de transformação. É no dinamismo das culturas que o Evangelho é chamado a se encarnar e ser uma proposta significativa para mulheres e homens de hoje.
  • O macroecumenismo: o pluralismo religioso é “irmão gêmeo” do pluralismo cultural. Num contexto de encontro de povos e culturas, também as religiões se encontram. É nesse encontro que todas elas manifestam a sua missão humanizadora. A superação de conflitos, de estreitamento de compreensão e de posturas intolerantes é fundamental nesse processo. O macroecumenismo surge no espaço que clama pela acolhida da Palavra como promoção do diálogo e da reconciliação entre os seres humanos mediante a experiência religiosa.
  • A holística ecológica: a crise gerada pela poluição crescente, a inadequação dos paradigmas tecnocientíficos vigentes e a perplexidade ante o desenraizamento do ser humano em relação ao cosmos marcam os nossos dias. Urge uma resposta de fé que articule um retorno à comunhão com o cosmos que seja humanizante e que revele o ser humano a si mesmo numa ótica global. Autêntico sinal dos tempos é a necessidade de uma virada ecológica.
  • A emergência da mulher: a história humana, na maior parte de suas culturas, pautou-se pela estrutura patriarcal e pela submissão feminina. O próprio cristianismo padece de uma fixação androcêntrica que o asfixia e retira sua virilidade. Recuperar a compreensão do humano como unidade e diversidade manifestada no binômio homem-mulher e resgatar o princípio da complementariedade é outra realidade que pede uma significação à luz da experiência da fé. É um sinal dos tempos o esforço pela redescoberta das figuras femininas na Bíblia, a purificação da imagem de Deus de um exclusivismo masculino, a ênfase na face materna do Deus revelado e a acolhida da percepção feminina na reflexão teológica.
  • O retorno do sagrado: bastaram três dias depois do “amém” das exéquias celebradas em honra a Deus que havia morrido pela boca de alguns filósofos, para que o divino ressurgisse do seio da terra com força total. Num momento em que todos apostavam na máxima secularização da sociedade, o imprevisível acontece. Cansado de tanta racionalidade vazia e desencantado com a imanência desse mundo que passa, o homem pós-moderno busca pelo sagrado. Tem sede de Deus. Anseia por ele. Deseja encontrá-lo. E o grande sinal do tempo presente se faz visível: algumas igrejas estão inchadas,os movimentos religiosos alternativos estão inflacionados, as seitas estão abarrotadas de gente. Todos querem Deus, ainda que não saibam que Deus é esse. Por meio da busca alucinada de algo que console o ser humano e o arranque das cadeias de sua própria insignificância, a palavra de Deus quer ser ouvida: “Vinde a mim todos vós que estais aflitos e eu vos aliviarei” (Mt 11,28).

[1] J. L. SEGUNDO. Teologia aberta para o leigo adulto. v. .3. São Paulo, Loyola, 1977. p. 182.


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