“Se eu te esquecer, Jerusalém, fique paralisada a minha mão direita” (Sl 137,5)

Foi a minha fé pequena mas sincera,
Foi a minha fé que me levou
Ao teu coração sereno, à minha espera
Foi a minha fé que me levou.
(Pe. Zezinho)

A minha teologia brota daqueles que são os maiores teólogos. Sou discípulo das pessoas que, com as mãos calejadas dos trabalhos, me falavam da importância de partilhar. Creio nos olhos cansados daqueles que me ensinavam a olhar para uma pequena capelinha e a rezar pelas pessoas. Só entendi o que é sacrifício depois que vi a vida de tantos homens e mulheres que abandonaram seus sonhos, para se dedicarem ao sonho de seus filhos.
Em meio a prédios tão altos, a pessoas tão inteligentes, a livros tão grandes, quando bate a saudade, é para o meu interior que eu volto. E não volto de lá de mãos vazias. Às vezes, são coisas simples, mas doadas com um coração sincero. Lá do meu interior, eu trago a fé do meu povo, eu trago a esperança de dias melhores, eu trago olhares, eu trago preces, eu trago virtudes…
Que ousadia a minha, aquele interior não me pertence; aquele interior foi construído antes de mim por uma comunidade. Muitos vieram antes de mim, prepararam os caminhos, aplainaram as montanhas, construíram casas, prepararam os campos para o tempo certo; antes de mim já eram Igreja.
Hoje, de cima de altos e bonitos prédios, olho a pequenez lá da minha comunidade. Hoje, a partir dos grandes tratados teóricos, olho para a catequese e a prática da minha comunidade. Hoje, tenho diante de mim teses de áreas diversas falando sobre formação, história, cultura de tantos povos e comunidades, e eu me lembro lá do meu interior. Quando a altura dos prédios me assusta, quando as teorias parecem conduzir ao deserto, quando as teorias históricas e sociais não têm calor humano, é para minha comunidade que eu quero voltar, lá para o meu interior.
Busquei a segurança saindo do meu interior, que erro; tive que ir longe para enxergar que eu já possuía o que precisava. Por isso, por meio das minhas raízes, no chão lá do meu interior, ressurge um broto novo. Eu não plantei nada; a semente já estava lá, agora brota aquela planta que eu não havia valorizado.
O terreno lá do meu interior para mim é sagrado. Às vezes, eu acho que estou limpando o canteiro e arranco sementinhas pequenas como grão de mostardas que estavam prestes a brotar. Eu não tenho esse direito. Aquele terreno precisa muito mais de cuidados amorosos do que técnicos. Por tanto tempo meu povo soube regá-lo, dia após dia, com suor do trabalho, ou então com as lágrimas. Os livros me dizem que mangueiras e água podem fazer a mesma coisa.
O dia que eu pensar que existem trabalhos que não são apropriados para mim, ou que a técnica pode substituir o cuidado, ou então, o dia que eu acreditar que o meu povo fazia errado; que resseque a minha mão, mas se isso acontecer não vai fazer diferença, porque meu coração já estará seco há muito tempo.
Meus pais conheciam o tempo da terra para plantar, eles conversavam com os céus sobre o tempo, sobre as plantações. Hoje, eu olho apenas para os livros e, muitas vezes, eles não dizem coisas do meu interior.
Uma coisa que aprendi lá no meu interior é que, quando a gente não sabe mais o que fazer, o melhor é ser como a água, se derramar diante daquele que nos abriga. Assim faço agora, Senhor. Me derramo como água diante de ti, no solo do meu interior, que tu mesmo preparaste para mim.
Lá no interior sempre existe uma semente escondida, só esperando o momento certo para nascer. Quando lá no meu interior, meu coração se desmancha, aí então brota uma semente que pertence à comunidade, mas que Deus confiou a mim.
Que o Senhor, que criou tudo, não permita que eu esqueça do meu interior; que eu não deixe de cuidar dele com amor.


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