“Senhor, ensina-nos a contar os nossos dias” (Sl 90,12)

 

“Os covardes morrem várias vezes antes da sua morte,
mas o homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez”.
(William Shakespeare)

 

Nesses últimos dias, indo à casa de minha mãe, uma árvore me chamou atenção. Sinto-a me provocando sempre que passo por ela, como se me pedisse um poema. É que tudo está tão prenhe de vida que constantemente passam inadvertidos os sinais que no-lo provam.
Acontece, porém, que aquela árvore não transparecia vitalidade; ao contrário, o inverno derrubou toda sua folhagem, desnudando-a sem pudor. Talvez fosse esse seu pedido, portanto: que cobrissem suas vergonhas. Talvez pedisse socorro de sua tristeza e de sua situação de morte, não sei dizer. Parei o carro dessa vez e atendi a seu pedido inaudito; admirei-a em sua majestosa miséria e tentei escutar sua provocação. Suas palavras até agora me atordoam. Tento traduzi-las: “Menino, há anos cresço nesse lugar. Vi muitos passarem por essa vizinhança e tantos transeuntes se abrigarem sob minha copa para trocarem confidências, ainda que maliciosas… Os amantes já se esconderam à minha sombra, ainda mesmo aqueles tão jovens que não tiveram tempo para ouvir minhas palavras… As crianças já escreveram em meu tronco e me fizeram cócegas com suas molecagens… Mas dar ouvidos a árvores, essa loucura rapaz, só a vejo agora.
Pois saiba que percebi seu olhar enamorado. Diga-me, pois, se toda a vida que sente pulsar em mim, não é antes a sua. Diga-me se não é um pouco árvore também você, raiz e copa, enraizamento e abertura… Se todo homem não o seria, afinal… Caso pretenda as minhas respostas garoto, só lhe poderei oferecer perguntas, pois a vida é questão irrespondida… O que nos une agora e a todos os seres é a questão. Há todas as coisas e isso deveria nos bastar… Deveria nos bastar existir e findar, mas inventamos de pensar e tudo pensa. Porque tudo é pensamento, você e eu somos tudo o que pensam de nós e, por isso, haverá sempre algo de não dito a nosso respeito.
Rapaz, numa imensidão como a do cosmos, somos menos que poeira, mas de algum modo a vida nos habitou… O respiro habitou essa microparcela de existir que somos. A vida é lapsária, em cada queda fez surgir uma galáxia, um planeta, um sol, uma árvore e uma pessoa… Somos a fragilidade da vida. Respiro humano é suspiro do mistério…
Veja-me agora; inverno é dentro da gente: sacode os galhos, derruba as folhas, mostra a verdade. As folhagens escondem a veracidade de meus galhos… Tudo é escondido hoje em dia atrás de folhas e flores que falta tempo para a honestidade com o nosso próprio coração.
Tempo é estação e viver também o é; ora florida, ora dolorida… Mas, garoto, é possível não ver beleza nisso? Nessa transitoriedade, nessa inconstância… Não há beleza também no não-florido?
Que seguridade, que desempenho, que alegria falsa ostentam alguns, pois não sabem dos galhos secos, não sabem desfrutar e saborear os encantos da renovação de todo ciclo, de aprender a morrer, pois é assim que se renasce… Não suportam a dor dos galhos secos e por causa disso não encontrarão a festa de rebrotar.
Tão intolerantes ao nu de tudo, tão fugidios da ‘peladez’ da vida que nunca a encontram em suas propostas obscenas e em sua eroticidade.
Que beleza, que estética pra negar o inverno que vem… O definitivo… Que amedrontamento diante da tristeza de despencar, de ver folha a folha desprender-se e deixar-nos… Apegam-se a elas e folhas são vontades. Folhas são pessoas, os minutos…
Tenho pena menino, de quem não sabe morrer… De quem não suporta que a vida é árvore… Que o tempo é alternância de vidas e mortes… E que eu e você somos a vida des-acontecendo…”


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