“Até os jovens se afadigam e se cansam, e mesmo os guerreiros às vezes tropeçam.”  (Is 40,30)

 

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar?

Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
(Osvaldo Montenegro)

 

O que mais ouvimos atualmente são lamentos e expressões de desalento. Andamos todos meio desesperançados. O cenário mundial não é bom. Por todo canto, políticos oportunistas, com discursos de moralização, fecham os cercos da liberdade, tentam unificar as expressões do amor e da religião, constroem muros e aumentam as cercas. No Brasil, não é diferente. Nossos governantes são verdadeiros “democracidas”; assassinam sem piedade a democracia e nos fazem acreditar que tudo está perdido.

Aos olhos desavisados, ser otimista pode parecer ingenuidade. Mas não. Bem ao contrário, como disse o filósofo Cortella, otimismo é coisa para fortes. Ao ser acusado de otimismo diante do cenário político brasileiro, Cortella disse: “Eles já levaram o dinheiro que era de natureza pública, já levaram parte da integridade política, eles não vão levar minha esperança. Eles não vão nos vencer duas vezes. Já derrotaram nossa capacidade financeira, derrotaram nossa capacidade de ter mais recursos para o que é necessário, derrotaram o emprego de muita gente. Eles não vão me derrotar tirando e matando minha esperança. Esses “democracidas” não vão nos vencer”.  

É preciso muita ousadia para continuar crendo. É preciso conhecimento histórico para compreender que a vida tem altos e baixos. É preciso sabedoria para lidar com as profundas vagas que tentam nos submergir. Dá muito trabalho ser otimista. Manter abastecidos os níveis de serotonina não é trabalho simples e muitas vezes é até inglório. Quem vive acometido pela depressão sabe como o êxodo dessa terra exige atravessar um Mar de Juncos a pé enxuto, depois de invectivas de dez pragas sobre os faraós do Egito. É matar dez leões para conquistar uma agulha. É muito custoso manter a alegria quando tudo nos diz: “A tristeza é o caminho mais certeiro”.

Não nos faltam exemplos na bíblia de quem tenha desistido de seus sonhos e se entregado à depressão. O pobre Jó cansou-se de seguir sozinho crendo que Deus não castiga nem pune ninguém. Então suspirou pedindo a morte. Elias, cansado de perseguições da rainha Jezebeu, fez a mesma coisa. Jeremias, o profeta melancólico, vendo o mundo desmoronar-se à sua volta, também deu o grito. E Jonas, quando não teve mais a sombra do mamoneiro para protegê-lo do sol causticante, exasperou-se com Deus e achou que a morte era um caminho seguro.

Como podemos ver não é incomum no campo da fé, a desistência dos projetos. Se a gente seguir os conselhos de Osvaldo Montenegro e fizer uma lista dos sonhos, vai sobrar pouca coisa. A maioria deles ficou esquecida no trajeto, não porque não fossem críveis, mas porque demandavam esforço demais. Manter os amigos é tarefa árdua. Como dizem os franceses, “L’amitié est une trace qui disparait dans le sable si on ne la refait sans cesse” (a amizade é um traço que desaparece na areia se a gente não a refaz sem cessar”. Manter os amores jurados também exige fidelidade, renúncias, entregas dolorosas. Manter a esperança exige ousadia corajosa, e até mesmo atrevida. Quando todos já desistiram, lá estamos nós crendo, confiando ainda, esperando ainda…  Somos como aquele velho pregador que todos dias anunciava a esperança na mesma praça, ainda que os passantes não lhe dessem atenção. Criticado por manter sua postura, mesmo sem nenhum resultado, ele respondeu: “Não consegui convencer ninguém a me seguir, mas também ninguém me convenceu a desistir de minhas esperanças”. Na atual, conjuntura, manter as esperanças já é muito.

Na manutenção das esperanças, é muito importante ter gente boa a nosso lado para nos ajudar a reabaster as lâmpadas. O papa Francisco tem sido um repositor desse óleo iluminador, como o acendedor de lampiões de O pequeno príncipe. Em sua Exortação Apostólica, Evangelli Gaudium (A alegria do Evangelho), Francisco nos adverte: “Não deixemos que nos roubem a esperança”. Sua voz tem reacendido em nós o desejo de continuar. Seus gestos têm nos encorajado a assumir posturas proféticas, para não trair o evangelho que abraçamos. Assim, manter a esperança não é uma questão de ingenuidade acerca da história; é resistência profética  e manutenção da nossa identidade cristã em meio a esse mundo caótico.


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