“Qualquer que seja o grau a que tenhamos chegado, continuemos…” (Fl 3,16)

 

“O real não está na saída nem na chegada:
ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”
(Guimarães Rosa)

 

Todo nós fazemos projetos, temos expectativas e sonhos. É verdade que alguns são mais banais, enquanto outros implicam uma vida inteira. Os desejos nos movem; são como que espaços vazios que pretendemos preencher, embora mais cedo ou mais tarde percebamos que tais vazios são impreenchíveis. Também eles podem dizer respeito a necessidades mais básicas, como comer e beber, mas apontam outrossim para necessidades mais elaboradas, como a autorrealização.

A fé cristã não nega o desejo, como acreditam e dizem alguns. Ao contrário, ela parte do desejo. Diante do cego, cujo problema estava literalmente na cara, Jesus pergunta: “Que queres?”. (Mc 10,51). Jesus lhe dá o direito de expressar seu desejo mais profundo. Desejar não é pecado, não é problema; ao contrário, é uma senda que abre em nós um caminho. A fé, antes de ser profissão, é desejo.

O problema é que, às vezes, por meio do desejo, todos nós idealizamos um paraíso. Faz parte de nossas fantasias a cessação completa de todos os vazios, chegar à saciedade plena de todas as “fomes”. A idealização do desejado impõe o risco de perdê-lo. E, quanto mais idealizamos algo, mais corremos o risco da frustração, pois a realidade quase nunca corresponde às nossas expectativas. Fica sempre uma lacuna, uma falta, um quê de incompletude…

Como já é sabido, a falta faz falta. Somos seres faltantes e, por isso, “procurantes”. A permanência da falta é indício de que continuamos vivos, de que continuamos em busca de novas possibilidades, de novos projetos. No fundo, os lugares aos quais chegamos, as realizações que conquistamos, não são pontos definitivos de chegada, mas lugares de passagem, pontos no caminho; marcantes sim, mas nunca o fim. Alguns deles terão de ser ressignificados e só serão realmente importantes, depois de passarem por essa reavaliação. Outros talvez devam mesmo ser deixados para trás até que tenhamos condições de nos perdoar e seguir em frente, sem culpas. Mas, mesmo os mais significativos, os mais lindos, aqueles que assentam uma bandeira no terreno do nosso coração e dizem que fomos “colonizados”, mesmo esses, enfim, abrirão outros sonhos possíveis, outros projetos, outros caminhos.

Foi o que nos aconteceu quando empreendemos uma aventura trilhando em busca do paraíso. O caminho levava a uma certa janela, lugar procurado e até mesmo disputado pelos viajantes. A estrada que conduzia ao tal paraíso era repleta de flores diversas, permitia vistas panorâmicas e, quanto mais se subia pela estrada, mais se podia ver o horizonte, as montanhas longínquas encontrando as nuvens, o céu azulado… O vento era frio, a subida era extenuante, mas o caminho de modo algum podia ser desprezado. Aquela estradinha tinha uma série de revelações. Em cada parada, havia uma epifania, uma história partilhada, uma risada esganiçada, um escândalo com um fato contado, com um segredo dessegredado. Mas parece que nem todos os passantes aproveitavam o caminho; alguns demonstravam querer apenas o destino. Pela estrada, levavam aparelhos sonoros com som estridente rompendo a fecundidade do silêncio. Enquanto apreciávamos cada detalhe, passavam apressados com os olhos fixos na tal janela do paraíso. As formosuras do caminho passavam incógnitas. Desconheciam o conselho de Jesus: “Olhai os pássaros do céu… Olhai como crescem os lírios do campo” (Mt 6,26-28).

Quando chegamos ao final da trilha, eis nossa decepção: o paraíso foi desmontado. Não havia nenhum encantamento no lugar. Nossos desejos viraram decepção. O espaço estava superlotado; havia até fila para uma foto! Não tinha como fazer um piquenique nem como sentar direito para refazer as forças. As pessoas entravam e saíam, indiferentes umas às outras, porque o foco era a foto ideal que deveria ser postada em outras janelas, as virtuais.

Nós também fizemos um projeto, idealizamos um destino; sonhamos com uma chegada. Queríamos a janela. Nossa expectativa foi decepcionada. O paraíso se tornou inóspito; não nos abraçou.

O que fizemos? Choramos e lamentamos? Não. Esbravejamos ou amaldiçoamos a hora em que pusemos o pé no caminho? Jamais. Praguejamos os irreverentes viajantes que povoaram o lugar em busca da foto perfeita? Longe disso. Consideramos o dia perdido por causa do ponto de chegada? Óbvio que não. Ao contrário, como resistentes, sentamos num lugar à parte e comemos para revigorar as forças. Admiramos a alegria de alguns outros trilheiros e seus intentos. Fizemos algumas considerações sobre humanidades e pegamos a trilha de volta. Se o caminho de volta foi uma decepção? Nunca! Já tínhamos ressignificado a frustração. Descemos pela estradinha vislumbrando as belezas da jornada, aproveitando o retorno ainda mais que a ida. Rimos de histórias diversas, aventuramo-nos em grutas escuras e até tomamos banho em uma pequena cachoeira cujas águas gélidas eram capazes de exorcizar qualquer decepção.

Parece ser assim: quando um paraíso se desmonta, a vida recomeça. No desmoronamento de alguns projetos outras possibilidades começam a fazer sentido. Quando percebemos que a tal janela não se abriu, abriu-se a possibilidade aproveitar cada detalhe do caminho, de reler o trajeto e de perceber que a alegria estava em percorrê-lo, mais do que em chegar ao destino. Continuemos firmes, mesmo depois da decepção. Como disse o apóstolo Paulo, independente do grau a que chegamos, importa mesmo é prosseguir decididamente.


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