O que vos mando é que vos ameis uns aos outros como eu vos amei. (Jo 15,17)

O amor tem feito coisas,
que até mesmo Deus duvida.
Já curou desenganados.
Já fechou tanta ferida.
(Ivan Lins)

Nossas cidades andam cheias de gente. É um corre-corre danado; não nos resta tempo para quase nada e temos que dar conta de quase tudo. Vivemos à procura de algo que nos devolva a nós mesmos, amenize a frieza da “falta de tempo” e nos ajude a nos sentir melhor, mais feliz, mais de bem com a vida. Estamos por aí, no corre-corre da vida, pelas calçadas, pelos lares e celulares, à procura de algo que nos ser mais gente.

Aos poucos tenho descoberto que o amor tem esse poder de nos devolver a nós mesmos, de nos tornar mais gente, de curar as feridas, arrancar risos em dias tristes e nos devolver o desejo pela vida. Parece, pois, que não há uma fórmula mágica para ser feliz, mas sim o caminho espinhoso do amor.

Amar é tarefa exigente e exercício para a vida toda. Não se consegue esse feito do dia para a noite. É arte laboriosa que exige dedicação; é exercício diário que nasce da decisão e ganha existência no cotidiano da vida por meio do perdão oferecido, da palavra de alento proferida, da mão estendida, da vida partilhada, da presença amiga, do esquecimento das faltas do amado.

Certa vez, ouvi de uma amiga que “amar é para os fortes”. A decisão de amar traz consigo implicações muito sérias. Quando cedemos ao poder do amor, corremos o risco de sermos feridos e machucados por ele, pois, como escreveu Gibran: “da mesma forma que o amor vos coroa, ele também vos crucifica”. Não há um manual pronto para nos ensinar como amar; aprendemos a amar, amando. Por isso é tão difícil e até arriscado. Não raras vezes, ferindo o outro e somos feridos por ele, quando, na verdade, só queríamos amar e ser amados.

Os Evangelhos trazem como marca a insistente ordem de sempre amar, até os inimigos, disse Jesus no Evangelho de Mateus (Mt 5,43). “Amar o próximo como a si mesmo” é lugar comum que os evangelistas repetiram à exaustão. No Evangelho de João, porém, esse mandamento do amor aparece com outro formato: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,12).

Para João, é tão importante esse mandamento que ele se tornou o “legado de Jesus”. Ou seja, foi o que de mais precioso ele nos deixou; sua herança, sua marca. Na prática do amor, seremos reconhecidos como discípulos de Jesus. E não há outra forma de ser reconhecido como tal: “Nisso reconhecereis que sois meus discípulos; se vos amardes uns aos outros como eu vos amei” (Jo13,35). Nenhuma piedade religiosa, nenhuma prescrição cumprida, nenhum mandamento guardado ao pé da letra, nenhuma veste especial, nenhuma liturgia celebrada com o rigor das rubricas, nenhuma defesa da fé professada… Nada… Só o amor é o selo do discipulado do Nazareno. Só o amor é o distintivo do seguidor de Jesus. E tem mais. Não é um amor qualquer. Tem de ser o amor da vida doada, pois a medida é “como ele nos amou”.

O amor nos compromete e até nos põe em risco. O amor tem implicações, e muitas. Jesus sabia muito bem disso e arcou com as consequências de sua opção. Foi até os limites do amor; entregou sua vida por aqueles que amava. Assim, nós, seus seguidores, somos também chamados a fazer o mesmo itinerário. E não é preciso temer. Estamos capacitados para esse exercício, pois, como afirma a Primeira Carta de João, podemos amar, porque ele nos amou primeiro (lJo 4,19).


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