“Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? (Jó 7,1).

 

“O que a vida quer da gente é coragem”
(Guimarães Rosa)

 

De vez em quando, diante dos inúmeros desafios que temos de enfrentar, dizemos que a nossa existência é uma peleja. Sobretudo nestes tempos tão tumultuados, lamentamos como Jó: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? (Jó 7,1).

A lamentação e o desânimo não são particularidade de uns poucos. Na bíblia não falta gente desanimada. Jeremias desanimou, até quis morrer (Jr 20,14-18). Elias pediu a morte, tão esgotado estava da peleja (1Rs 19,4). Jonas chorou e se desesperou (Jn 4,3).

Também o comodismo e a indiferença marcam a Escritura. Pedro quis fazer umas tendas na montanha e ficar por lá (Mc 9,5). Os discípulos de Jesus aconselharam-no a voltar para a Galileia pois Herodes estava a persegui-lo (Lc 13,31). os discípulos não conseguiram ficar fiéis na hora mais importante da vida de Jesus; desanimaram… (Mt 26,40).

De fato, nossa vida é uma luta. Não é fácil manter o ânimo. Como manter a chama da coragem acesa em tempos de ventanias do desalento?  Como sustentar nossas decisões se os abismos das incertezas nos engolem?

Para o cristão, a coragem e a força são atributos da fé. Ao fazer a experiência de encontro com Jesus Cristo, nossa existência adquire um novo sentido e percebemos que o mundo não é apenas um “vale de lágrimas”, mas também um jardim de encantamentos. Jesus nos faz encontrar de novo o encanto com a vida e, nos momentos em que nos sentimos desanimados, ele nos pega pela mão e nos faz redescobrir o sentido da nossa existência.

Isso não significa afirmar que, diante das inúmeras pelejas que a vida nos impõe, a covardia ou o desânimo não venham nos visitar. Com certeza, elas nos rondam. Mas, apesar de tudo, não podemos perder a esperança e a coragem. É preciso, como diz o nosso povo, arregaçar as mangas e ir à luta. Ou como canta o poeta popular, “mas é preciso ter força, é preciso ter raça…”. Por mais confortável que seja “cruzar os braços” e deixar a vida nos levar, como canta Zeca Pagodinho, essa não é a atitude mais sábia. Para o cristão, não é a vida que nos leva; nós é que levamos a vida; somos construtores da nossa história. Vale lembrar o que disse Santo Inácio de Loyola: “trabalha como se tudo dependesse de ti e confia como se tudo dependesse de Deus”. Com fé, a gente segue em frente.

O que a vida quer da gente é coragem, disse Guimarães Rosa. “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Coragem para não desanimar diante dos desafios impostos: isso é o que se espera de quem crê no evangelho. Coragem de não perder a esperança; coragem de não ficar indiferente diante das necessidades dos irmãos e das irmãs; coragem para anunciar o evangelho com nossas palavras e, principalmente, com nossa vida. Como Jesus precisamos prosseguir decididamente, cheios de coragem.


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