“Vejam, estou fazendo uma coisa nova!
Ela já está surgindo! Vocês não a reconhecem?
Até no deserto vou abrir um caminho e riachos no ermo.” (Is 43,19)

 

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio,
pois quando nele se entra novamente,
não se encontra as mesmas águas
e o próprio ser já se modificou.”
(Heráclito de Éfeso)

Sabemos que tudo está em permanente mudança. Basta olhar uma foto antiga e tomaremos aquele susto, benfazejo ou não, ao notarmos que não só o estilo da roupa, não só o corte de cabelo, mas também as feições se transformaram. Ou basta ler os seus próprios escritos antigos. Como é fácil observar que algumas ideias, reflexões e mesmo alguns sofrimentos que pareciam tão absolutos, tão imutáveis, se transformaram!

Que tudo muda, a todo instante, é tema de música e poesia. E essa mutação a que todos nós estamos submetidos pode ser fruto de um projeto, mas pode ser também resultado de uma série de experiências que nos atravessam e vão provocando em nós novos jeitos de pensar e agir. Por causa dessas experiências, podemos nos tornar mais confiantes ou mais inseguros, mais amorosos, ou mais fechados, mais corajosos ou mais temerosos. E não é raro que a gente se perca nessa transformação permanente à qual estamos sujeitos, pois é difícil manter uma atenção constante em nós mesmos e acompanhar o fluxo da vida. A falta de reavaliação da vida ou a incapacidade de ler dentro de si podem nos impedir de notar a transfiguração de tudo: das realidades e até de nós mesmos. Podemos nos tornar insuportavelmente irreconhecíveis, como escreveu Cecília Meireles em seu poema Retrato: “eu não tinha esse rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo… eu não tinha este coração que nem se mostra…em que espelho ficou perdida a minha face?”.  Ou a música não menos doída de Adriana Calcanhoto: “há algo que jamais se esclareceu, onde foi exatamente que deixei naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?”. Há mudanças que passam despercebidas e que, mais tarde, serão agradecidas ou ressentidas.

Desde Darwin, nós nos deparamos com essa verdade que é certamente fundamental: quem sobrevive não é o mais forte ou o mais esperto, mas aquele que melhor se adapta. Na era da internet, quando assistimos às novas gerações conectadas em rede, transformando e transtornando o modo de se relacionar, o modo de trabalhar, o modo de se divertir, é impossível simplesmente ficar lamentando o presente com saudades de um passado não menos cheio de dificuldades. Sociedade de mercado diferente, modos de subjetivação cada vez mais diversificados, pluralismo religioso, diversidade afetivo-sexual, distâncias encurtadas, acento no corpo como única morada humana possível, novos modos de pensar a educação, a espiritualidade….

Ora, em tudo isso há prós e contras. Somos convidados a recolher o que as transformações têm a nos dar de positivo e enriquecedor. Afinal, não estamos simplesmente numa sociedade em mudanças; somos seres mutantes, por natureza, nessa sociedade. E somos nós quem a transformamos, de modo que as transformações provocadas passam a agir sobre nós e a provocar mudanças também em nós. Humano e mundo não estão separados, mas totalmente conectados.

Mas, para nós, é tão simples assim, mudar?

Mudar um traço psicológico que nos incomoda, um hábito que nos traz infortúnios e decepções, um comportamento que já se estagnou no sistema nervoso central, não é coisa fácil. Quanto mais avança o tempo, mais difícil mudar as realidades internas, os sítios comuns aos quais nos acomodamos. Criamos a mal afamada zona de conforto e deixamos de fazer novas experiências, novos contatos e novas interações, pois pensamos que não convém “mexer em time que está ganhando”. Ou dito de outra forma, acomodamo-nos, pois aprendemos desde a mais tenra idade que “é de pequenino que se torce o pepino”. Entendemos que, com o passar dos anos, não dá para mudar muito.  

Então, contra todas as evidências, somos tentados a nos afirmar sobre sentença inversa: “há coisas que não mudam nunca”, inclusive em nós mesmos. Há padrões em nós muito bem desenhados, programados desde muito cedo e de difícil reprogramação; são oriundos da interação entre experiências infantis com o ambiente em que crescemos e a genética que herdamos. Repetimo-nos para permanecer os mesmos, apesar da aparente mudança. Como escreveu Belchior, “nossa dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

Além de nossa mesmice, o mundo, como uma construção humana, ou seja, a história, também parece não mudar muito, apesar do ritmo frenético de suas transformações. Reparemos na nossa tendência ao preconceito, tão antiga e com roupagem tão nova! Vejamos nossa tendência a fazer guerras, ao derramamento de sangue! O que dizer daqueles problemas que não são de hoje e que não foram dissolvidos pelo progresso científico e tecnológico, mas apenas se acentuaram, tais como a miséria, a fome, a exclusão? Se mudaram as circunstâncias, os problemas parecem ter apenas mudado de contorno, de forma, enquanto o conteúdo permanece o mesmo. Parece que a mudança da sociedade não passa de uma mera ilusão.

Conciliar essas duas verdades, a da mudança e a da repetição, é processo muito complexo. Corremos o risco de “mudamos muito para continuarmos sendo os mesmos”. Nossa vida, apesar de seu ritmo frenético, pode se tornar um “eterno retorno do mesmo”. Giramos e caímos sempre no mesmo ponto. Melhor seria se nosso processo, em vez de um círculo vicioso, fosse uma espiral. A espiral não é só feita de círculos; em algum momento, esses círculos se torcem para cima, permitindo chegar a um nível superior. Repetimos muito, até que não sejamos os mesmos. Até que sejamos capazes de “passar para um nível acima”.

Há pouco tempo, mudei de uma casa para um apartamento. Para quem morou a vida inteira em casa, o apartamento é uma experiência completamente nova. Desinstalar-me está sendo um processo positivo e negativo ao mesmoo tempo. Positivo, porque é possível reaver lembranças, livrar-se de muita coisa que não serve mais, redescobrir coisas que eu nem sabia que tinha, reorganizar prateleiras, gavetas, armários e ideias. Abandonar pesos desnecessários e dar de cara com a irrevogável verdade de que viver mais simples e sem tantos pesos é caminho de felicidade. Mas mudar também tem significado sair de um lugar confortável, de um padrão e de uma rotina estabelecidos e reajustar-me às novas exigências. Se mudar de lugar já não é fácil, o que dizer de uma mudança interna, de uma mudança do coração e da mentalidade? Mudar dá muito medo. O psicanalista Flávio Gikovate nomeou esse medo como “medo da felicidade”. No fundo, será que queremos mesmo ser felizes? Queremos mesmo encontrar o que procuramos?

Se é verdade que as mudanças que granjeamos podem nos fazer mais felizes e mais livres, talvez esteja aí o motivo pelo qual nos repetimos tanto: porque temos medo de encontrar essa tal felicidade. Por isso, temos de sabotar tantas vezes os nossos próprios desejos, para permanecermos na busca por eles. É muito mais fácil lidar com desejos antigos do que com os novos que podem surgir. Nós somos engenhosos mesmo. Entre repetições, podemos impedir que nossa vida dê grandes saltos. Podemos impedir que se dê em nós aquele giro para cima, próprio das espirais e preferir a mesmice do círculo. No fundo, queremos mesmo mudar?


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