O reino dos Céus é deveras semelhante a uma semente… de samaúma.

Pequena e delicada como uma pluma. Se esconde até na mão da gente. E, ao vê-la, a gente mal acredita que ali cabe uma samaumeira inteira – como o mistério do sonho que esconde mares abertos e céus estrelados nas frestas estreitas do olhar e da memória da gente.

Deve ser assim o reino. Não cultivado pelas mãos experientes e determinadoras do agricultor ou do jardineiro, mas levado pela incerteza do vento quente dessa imensa planície. E espalhada sobre as copas, ao sabor do acaso, do alto e de dentro dos ouriços cascudos, essa semente cavalga na brisa até encontrar uma várzea fértil ou um charco esquecido, lá onde ninguém ainda fincou cerca e se iludiu com a convicção de que o chão lhe pertence.

E ali, no aparente abandono do chão de ninguém, a semente de samaúma deita suas delgadas raízes, como fios de cabelo. E faz nascer, com a paciência demorosa das esperanças forjadas no escuro, o edifício cuidoso de sua beleza. E ninguém a vê, até o dia em que sua copa se abre majestosa sobre a mata, como num abraço do céu infinito. É quando, de longe, subindo ou descendo o rio, levando mercanças fartas ou solidões seculares, as gentes da floresta a avistam e se encantam com seu milagre.

_ Até quando, Senhor, será preciso esperar que a copa desse Reino se abra sobre as matas das demoras de nossa história? Até quando, na única e urgente brevidade que temos, nos dilatares fugazes deste pequeno coração, poderemos ainda esperar?

Espere… que é isso enquanto escrevo?

Tomo na mão. Eis, pousada suave sobre meu cabelo, cocegando-me a orelha, sob o sol oblíquo e a brisa da tarde amazônica, a pluma de uma semente de samaúma…

Tiro-a e devolvo-a ao vento, seu cuidador. E compreendo que minhas esperas têm sentido.


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