Jesus ressuscitou: essa é nossa fé. E, por ela e nela, nos movemos, existimos e somos (cf. At 17,28). A fé nos guia, nos orienta, dá sentido à nossa vida. Porque cremos, seguimos o Ressuscitado e ajustamos nossa vida a ele. Ouvimos seu apelo, atendemos seu chamado, prosseguimos atrás dele como discípulos, sempre desejosos de seguir seus passos. Estas são as condições para ser discípulo de Jesus: renunciar a si mesmo, tomar a cruz e seguir atrás do mestre de Nazaré.

Quando falamos em renunciar a algo para seguir Jesus, muitas vezes dá um aperto no coração. Renunciar parece algo difícil, doloroso, parece perda de algo precioso. Seria esse o sentido da renúncia que os seguidores de Jesus são convidados a fazer? Estaria Jesus a pedir que renunciemos ao que é bom, alegre e prazeroso para abraçar o que é duro, triste e sacrificante? Ora, toda renúncia tem uma dose de perda, afinal para abraçar algo é preciso deixar outra coisa para trás. Mas a renúncia também é lucro, ainda mais a renúncia necessária para se tornar autêntico seguidor de Jesus Cristo. Os Evangelhos nos convidam a renunciar a nós mesmos. Parece estranho a princípio, mas o sentido do texto é bem claro: deixar aquilo que pensamos ser para, de fato, ser o que somos. Eis uma perda que é puro lucro.

A mesma angústia parece habitar em nosso coração, apertando desde dentro nosso peito, quando falamos em tomar a cruz. Na religiosidade popular, a cruz foi identificada com as agruras e tristezas da vida, com as dores absurdas às quais somos submetidos, com as mazelas das quais não podemos abrir mão. De fato, não está de todo errado o nosso povo quando entende a cruz como dor e sofrimento. Mas seria a cruz somente isso? Tomar a cruz é bem mais que carregar o fardo que a vida nos impõe; é assumir a nossa própria vida com tudo que ela traz em si, de bom e de doloroso. Cada traço de nossa personalidade, cada dor de nossa carne frágil e adoecedora, cada limite de nossa história, de nosso tempo, de nosso espaço, de nossa cultura… tudo isso é cruz a ser assumida no caminho da fé. Mas também cada dom que nos é dado, cada possibilidade de nossa história, é cruz que devemos abraçar, sem perder a chance que nos é oferecida, pois é caminho de ressurreição. Não é certamente sem dor que podemos dizer: “este sou eu; esta é minha vida; isto é o que consigo ser, ainda que desejasse ser bem mais”. Nossa cruz não é algo externo a nós, como um marido difícil, um filho complicado, ou uma doença que mais nos parece um castigo de Deus. É nossa vida que deve ser abraçada com tudo o que ela nos oferece, com limites e possibilidades, sem cortes ou rejeições. Eis o desafio: assumir o que somos.

Seguir o mestre é a terceira condição. O Evangelho de Marcos não cansa de insistir: lugar do discípulo é atrás do mestre e não na frente dele. Eis o motivo pelo qual Pedro foi advertido por Jesus e chamado de satanás (aquele que está contra o reino de Deus): deixando o caminho, chamou o mestre de lado e começou a lhe dar lições, esquecendo-se de quem era o mestre e quem era o discípulo. Jesus não se fez de rogado: “Vai para trás de mim, satanás!” (E não “afasta-te de mim”, como comumente é traduzido). O lugar do discípulo, garante Marcos, é atrás do mestre, seguindo seus passos, aprendendo o que ele ensina.

Renunciar ao que pensamos ser (renunciar a si mesmo), assumir o que somos (tomar a cruz) e percorrer o caminho que Jesus aponta (ir atrás do mestre): eis as condições do seguimento.A fé no Ressuscitado nos impele a segui-lo. Resta saber se estamos mesmo dispostos a aceitar as condições que ele coloca. Uma coisa é certa: renunciar a si mesmo é lucro; assumir o que somos é a única opção razoável para uma vida que não seja fútil; ir atrás do mestre aceitando com docilidade os seus ensinamentos é sabedoria pura.

Se, pois, entendemos as condições do discipulado, compreendemos que não são imposições de um Deus chato e intransigente que quer nos maltratar com uma vida penosa no seu serviço. Não! As condições do seguimento não nos são dadas por causa de Jesus, mas por nossa própria causa. É para nosso bem que somos convidados a dar esses passos rumo à vida plena, à libertação. Quanto mais seguimos o Ressuscitado pela fé, mais livres e felizes nos sentimos. É só conhecer um pouquinho da vida de Francisco de Assis para entender essa lógica. O Santo de Assis encantou o mundo com sua liberdade. Descobriu-se plenamente Francisco quando abriu mão do que diziam que ele era para ser o que realmente ele era: livre em Cristo. Eis uma difícil tarefa da catequese: ajudar os catequizandos a descobrir as belezas do seguimento de Jesus, sem falsear ou mascarar as exigências que lhe são próprias.


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