Apesar de profético, o estilo de linguagem do Livro de Zacarias é apocalíptico[1]. Zacarias alterna visões e oráculos, como acontece algumas vezes acontece em Ezequiel. O texto está dividido em duas partes bem distintas. Temos então dois Zacarias: o Primeiro Zacarias (1–8) e o Segundo Zacarias (9–14), provavelmente autores diferentes, de épocas diferentes. Daí nossa escolha de ver o livro em dois artigos.

O Primeiro Zacarias trata das expectativas do povo por ocasião do retorno da Babilônia, quando Zorobabel governava a Judeia, em torno dos anos 520-518[2]. Depois de um apelo belíssimo à conversão (cf. 1,2-6), nosso autor elenca um grupo de oito visões, intercaladas com alguns oráculos acerca da reconstrução de Jerusalém, mostrando o amor apaixonado de Deus por seu povo.

Tudo começa com um chamado à conversão: “Voltai para mim que eu voltarei a vós!” (1,3). É preciso deixar os erros lá no passado e recomeçar a vida, agora que eles estão de volta à Terra Natal. Cuidem os deportados de não se fazerem de surdos à voz do Senhor como fizeram seus antepassados, afinal Deus – no seu amor – não vai deixar tal rebeldia passar em brancas nuvens. O Deus amoroso cuida de sua gente e não a quer caída no abismo do pecado.

Logo em seguida, a primeira visão: os cavaleiros (cf. 1,7-17). Uma imagem construída com o objetivo de transmitir a ternura contínua de Deus para com seu povo, independente de seu passado de erros e desacertos (cf. 1,14-15). Mesmo no meio do sofrimento, o povo de Jerusalém pode esperar no Senhor, pois ele conserva carinho por Sião[3] (cf. 1,17).

A segunda visão: os quatro chifres e os quatro ferreiros (cf. 2,1-4). Os chifres na bíblia simbolizam poder[4], por isso se referem às potencias que dispersaram Judá e Israel. Os ferreiros simbolizam a força bélica. Os ferreiros que Deus envia dos quatro cantos da Terra vão dispersar os opressores poderosos.

A terceira visão: a corda de medição (cf. 2,5-9). Um homem aparece para medir Jerusalém, mas Deus adverte que ele vai trabalhar em vão. Jerusalém não tem mais fronteiras, nem muralhas para se defender. O Senhor, tal é seu amor, que ele se fez seu defensor. Esta visão é seguida de um belo oráculo (cf. 2,10-17) convidando o povo a retornar de todos os cantos para Jerusalém. Agora que ela não tem mais muros, todos são por ela abrigados. Deus não vai deixar seu povo disperso, pois este é a pupila de seus olhos (cf. 2,12).

A quarta visão: o sacerdote impuro (cf. 3,1-10). Josué aparece com vestes sujas e Satanás[5] está lá, postado diante do anjo do Senhor[6], pronto para acusar o representante religioso por causa de seus pecados (as vestes sujas). Deus mesmo vai purificar Josué para que ninguém o desautorize na sua missão. Ele vai liderar o Germe de Israel, o povo que ficou na fidelidade (cf. o texto anterior sobre Sofonias). Este germe é também uma pedra onde fica gravado que Deus tirou o pecado de sua gente. Depois desta obra do Senhor, cada um vai poder se sentar debaixo de sua figueira com seu companheiro para estudar a Torá[7] e ouvir a voz do Senhor.

A quinta visão: o candelabro de ouro e as duas oliveiras (cf. 4,1-14). Certamente, o candelabro de ouro simboliza o Templo, ou seja, a presença gloriosa e luminosa de Deus no meio de Judá, enquanto as duas oliveiras simbolizam os dois representantes do povo: Zorobabel, o governador, e Josué, o sacerdote. Zorobabel e Josué vão manter a glória de Deus brilhando como lâmpada, pois vão se dedicar a restaurar a fé, o culto e o Templo. Em contrapartida, toda vitória alcançada por Zorobabel não será por sua força, mas porque o Senhor toma seu partido e defende sua gente dos maus.

A sexta visão: o papiro voador (cf. 5,1-4). O papiro ou livro representa a palavra performativa[8] do Senhor. Por meio de sua palavra, Deus espalha o terror, a maldição, para aqueles que não o acolhem e perseguem sua gente.

A sétima visão: a mulher dentro da caixa (cf. 5,5-11). Dentro de uma caixa de medir cereais, está uma mulher. É a injustiça que peleja para sair dos guardados e campear pela cidade. Mas o anjo do Senhor a enquadrou, botou-a de novo na caixa e, em seguida, fechou o tampo de chumbo para ela nunca mais escapar. A mulher vai ser levada para a terra de Senaar, ou seja, a Babilônia. È lá que a injustiça é adorada, não na terra de Judá, onde Deus reina e sua justiça prevalece.

A oitava visão: as carruagens e as montanhas de bronze (cf. 6,1-8). De duas montanhas de bronze, saem quatro carruagens com cavalos ora vermelhos, ora pretos, ora brancos, ora muito fortes. As carruagens são os ventos que saem dos quatro cantos da Terra, símbolos da força divina que vai castigar os povos que oprimem os pequenos. Ao assolar a Terra, o vento se acalma no Norte, ou seja, na Babilônia, pois lá ainda tem exilados que não podem ser castigados como os gentios.

Depois de breve anúncio da coroação de Josué e convocação do povo para se empenhar na reconstrução de Jerusalém (cf. 6,9-15), Zacarias fala sobre o verdadeiro jejum: ser bom para com todos, especialmente com os menos favorecidos: o órfão, a viúva e o estrangeiro (cf. 7,1-14). Afinal, o Deus de Judá não é a injustiça que estava na caixa doida pra campear em Jerusalém. O Deus de Jerusalém é o Senhor dos Exércitos. Tal é a pertença deste povo ao Senhor que ele lhe declara todo seu amor: “Sou muito apaixonado por Sião; estou fervendo de amor por ela” (8,2). Mesmo em meio a tanta confusão por ocasião do exílio, não desanime o povo: uma era messiânica virá só porque deus o ama (cf. 8,3-23).

E aí? O Primeiro Zacarias vale a pena? Se vale! Apesar do estilo apocalíptico que assusta um pouco, o texto é valioso, como precioso é o amor apaixonado de Deus por sua gente.


[1] O gênero apocalíptico tem como marca uma linguagem cifrada, acessível somente aos iniciados. O autor fala por meio de visões; carrega em fortes cores; usa e abusa dos simbolismos; impressiona pela força do texto. Nenhuma das visões deve ser levada ao pé da letra, como nenhum texto bíblico. Mas ainda mais no caso de textos apocalípticos, que são como sonhos, imagens meio surrealistas que não possuem sentido imediato nem explicação plausível, mas que trazem uma mensagem ao leitor.

[2] Para maiores informações, leia o texto anterior, Livro de Ageu.

[3] Expressão usada para falar de Jerusalém; o monte sobre o qual o Templo fora construído.

[4] Daí o dragão com sete cabeças e dez chifres de Ap 12. Em algumas passagens, para falar do poder de Deus, diz-se do “chifre de sua salvação”; as traduções eliminaram a expressão, por causa da dificuldade de sua compreensão.

[5] É preciso lembrar – não há espaço aqui para mais do que isto, infelizmente – que o satanás que Zacarias vê aqui não é o mesmo que o “capeta” do imaginário católico. Satanás é uma figura bíblica para representar o que se opõe ao reino de Deus. Ele não é um ser concreto, mas uma figura de linguagem. Ela não é o “deus do mal”, como a Santíssima Trindade é o “Deus do bem”. Essa personalização do diabo ou satanás é posterior e não aparece aqui em Zacarias. Não estamos dizendo que satanás não exista, que o demônio é imaginação. Estamos afirmando o que significa a figura bíblica de Satanás. Se satanás ou o demônio existe, este é outro problema.

[6] O leitor observará que as visões estão sempre povoadas de anjos que trazem recados de Deus, traduzem sua mensagem, agem em seu nome. O anjo, na literatura bíblica, não é um ser de cabelos encaracolados e asas, como vemos no barroco de Ouro preto. Anjo é aquele é o mensageiro de Deus. Como na cultura judaica entendia-se que ninguém podia ver Deus ou morreria, os autores sagrados sempre colocam o anjo como intermediário desta relação. Poderíamos até dizer que o anjo de Deus é Deus mesmo.

[7] Como provavelmente quer indicar João em seu Evangelho acerca de Natanael, o verdadeiro israelita, quando fora visto por Jesus. (cf Jo 1, 43-51).

[8] Palavra performativa quer dizer algo dito com tal força que realiza o que diz. Assim é a palavra de Deus; ela não só dia algo, mas realiza o que diz.


Livro anterior:  15. O Livro de Ageu: A controvertida reconstrução do Templo
Próximo livro:  17. O Livro de Zacarias 2: Deus é fiel
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