Ele vos dará uma medida larga, transbordante…” (Lc 6,38)

 

Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
(Gibran)

 

Quando a gente retorna à casa paterna, à cidade natal, retorna também ao vivido e ao experimentado no passado, seja o aconchego da infância ou os tormentos das dores familiares. De volta à casa onde morei com meus pais, apesar de eles já terem se despedido dessa existência histórica, ouço a voz de meu pai a me ensinar os caminhos da vida. “Põe um fueiro”, dizia ele. “Poe um fueiro”, insistia ele repetidamente.

Eu – menina ainda – não sabia o que era um fueiro, coisa lá da roça, mas entendia bem o recado, pois não se fala só com as palavras mas com as expressões, o tom de voz e a vida toda. Além do mais, o contexto era muito claro. Meu pai nos mandava ampliar as medidas, normalmente do prato ou do copo, que, por gulodice, a gente enchia até a borda. Era preciso levantar as bordas para caber mais. Assim o velho sábio criticava nossa pouca elegância ao nos servir dos alimentos e nos dizia que é possível ampliar as medidas, aparentemente já delimitadas. Vim a descobrir, certo dia, com um de meus irmãos mais velhos, o que é fueiro: uma espécie de estaca de madeira que pode ser anexada ao carro-de-boi para suspender suas bordas e possibilitar o transporte de uma carga maior.  

Se tem um conselho de infância que acho válido ainda hoje é esse: “Põe um fueiro”, não no prato ou no copo, mas no coração humano. Largueza de coração é coisa rara e estamos precisando por um fueiro nas nossas entranhas para aprender o amor e possibilitar a arte da convivência. Bom seria se não precisássemos de fueiro, se nosso coração fosse generoso e misericordioso o suficiente para amar a todos, acolher os mais necessitados, enfaixar as feridas dos sofredores, repartir os bens com equidade… Mas, não tendo tal largueza, é preciso reaprender a amar. O evangelho, com sua mensagem de amor e misericórdia, pode colocar um fueiro em nossos corações apequenados pela vida, medíocres, estreitos, fechados para a bondade.

Jesus de Nazaré não cansou de ensinar essa generosidade. Um dos casos mais típicos dos Evangelhos é o relato da mulher adúltera. Tendo sido pega em adultério pelos homens da Lei, a pobre mulher se via cerceada pela legislação, acuada pelos detentores do poder sagrado que podiam decidir seu destino. Levaram a mulher até Jesus, colocando-o contra a parede para que ele desse a sentença prevista pela Lei Judaica: morte por apedrejamento.

Ora, Jesus simplesmente ignorou a arrogância dos fariseus e distraidamente rabiscava na areia. Não se deixou iludir pelo rigorismo daqueles líderes religiosos, nem se intimidou diante da armadilha que lhe prepararam. Apenas disse: “Ponham um fueiro em seus corações e deixem de ser, vocês mesmos, vítimas de sua própria estreiteza interior”. Literalmente na Escritura: “Atire a primeira pedra aquele que não tiver pecado”.

Os homens começaram a sair do local. Sua mesquinhez era tão grande que, quando descoberta, percebeu-se que ela ultrapassava as medidas do ambiente. Não há espaço suficiente no mundo para a maldade, o legalismo e a ignorância religiosa. É preciso diminuir essas tolices ou pôr um fueiro na interioridade. Aquelas boas possibilidades sufocadas pelo sistema desumano no qual vivemos – com quem temos feito escola e aprendido a reduzir as possibilidades de amar – podem ser potencializadas se formos mergulhados em um mundo de significações que nos torna aprendizes do amor. Pequenos gestos, pequenas delicadezas, pequenas coisas, se somadas, ganham significado gigante.

Há algum tempo, uma vizinha que eu conhecia bem pouco – afinal, em prédios, vivemos engaiolados nos apartamentos e mal nos cumprimentamos no elevador – me fez relembrar o valor das pequenas coisas. Chegou em minha casa numa tarde de sábado com duas empadinhas quentinhas, pois sabia que eu estava de castigo em casa, cuidando de minha irmã muito debilitada. Na sexta à tarde, quando nos falamos no hall de entrada, havia perguntado por minha mana e eu dissera que passaria o fim de semana cuidando dela, pois não estava bem. Nunca vou esquecer o cheiro e o sabor daquela iguaria. Tinha cheiro de sensibilidade e gosto de generosidade. Essas humanidades, a gente não esquece. Desde então, reafirmei a decisão de colocar um fueiro em meu coração. É bem verdade que, às vezes, a gente esquece os bons propósitos. Nessa hora, nada como voltar à casa da infância para relembrar os valores que aprendemos com nossos pais. Eles nos ensinaram tanta coisa, mesmo sem saber que era o mais genuíno evangelho de Jesus.  


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