“E está é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4)

 

Fé na vida, fé no homem, fé no que virá.
Nós podemos tudo, nós podemos mais.
Vamos lá fazer o que virá
(Gonzaguinha)

 

Por mais que a Escritura Sagrada nos faça ver o lado sombrio do ser humano, dizendo “nada mais ardiloso e mau que o coração humano” (Jr 17,9) ou que ela desdenhe quem coloca sua esperança no semelhante, dizendo “maldito o homem que confia em outro homem” (Jr 17,5), seus livros estão povoados de relatos que mostram a fé de Deus na humanidade. Desde o Livro do Gênesis até o Apocalipse, não faltam registros que nos levam a pensar que o ser humano é bom e que tem o condão de dignificar e embelezar todas as coisas, até as maiores misérias da vida.

O Livro do Gênesis insiste que, quando Deus criou o mundo, achou sua obra boa (Gn 1,4; 1,10), mas, ao criar o ser humano, diz dele que é muito bom (Gn 2,31). Depois de relatar diversas corrupções em meio à bondade, persiste o olhar otimista sobre a humanidade: Noé é um bom homem e a vida recomeça a partir de sua fidelidade; em Sodoma e Gomorra, há o justo Lot que faz a diferença. E assim vai até o Apocalipse, livro que relata a esperança e a fidelidade dos que persistiram na fé, mesmo em meio ao caos da vida.

Acreditar na humanidade não é coisa fácil, pois uma série de horrores se descortinam diante de nossos olhos. Refugiados de guerra formam filas gigantes pelos desertos ou disputam um pedaço de madeira para sobreviver no mar. Quando conseguem chegar em terra firme, são exilados de volta para o meio do horror de onde fugiram ou são obrigados a viver na marginalidade nas novas terras onde se estabeleceram. As ruas estão povoadas de famílias que não tem para onde ir. Crianças, jovens, adultos, velhos, verdadeiras colônias de sofredores que não têm um teto, a não ser o sol causticante ou a chuva fria sobre sua cabeça. E não faltam governantes desalmados para lhes subtrair seus pertences e lhes enxotar das calçadas, sob a desculpa do direito de ir-e-vir da população. E o que dizer da crueldade das guerras e da disputa insana ente os poderosos para ver quem pode mais? Um louco da Coreia afirma que tem um botão que, basta apertar, para acabar com o mundo. Um outro louco, um milionário americano cor de abóbora, responde orgulhosamente que tem um botão maior. Dois narcísicos para os quais o globo da Terra é pequeno. Não respeitam nada nem ninguém; não querem saber de acordos para preservar o planeta, não identificam outra vida diante de si a não ser aquelas que respondem aos seus interesses mesquinhos. Mas não é preciso ir longe. No Brasil, o presidente golpista também disputa o pódio das arbitrariedades, retirando o direito dos trabalhadores e dos aposentados, aumentando a fila dos desempregados e fortalecendo a casta dos poderosos.

Fica difícil acreditar na vida humana diante desse quadro. Não é à toa que minha sobrinha, cujas pernas sem celulite demonstram sua pouca idade, falou-me em alto e bom som: “falimos como humanidade, tia”. A idade é pouca: uma jovem deveria ser pura esperança e fé na vida. Mas a vida já se mostrou perversa e lhe furtou as esperanças. Não tiro a razão da menina. “A maré não tá pra peixe”, diriam os antigos. São tantos os desalentos, que nos sentimos à deriva da vida. Vemos os dias passarem sem sinalizar que a tormenta terá fim. A descrença cresce; a confiança diminui… Até a hora em que a gente encontra alguém que nos faz crer na humanidade outra vez.

Foi o que me aconteceu dias atrás. Eu havia mandado fazer meus óculos, mas a ótica não conseguiu entregá-los antes das festas de fim de ano. Viajei para o interior de Minas com meu velho e fiel companheiro sobre o nariz, dependendo dele para tudo, até para o mínimo trabalho cotidiano. Três dias depois, fui com duas sobrinhas fazer uma trilha (Pico do Boné – Serra do Brigadeiro) e, já no começo do trajeto, senti falta dos óculos. Voltamos, procuramos, reviramos o caminho, o restaurante, o carro… Nada. Lá estava eu sem meu guia. O jeito era fazer outro. Mandei fazer outros óculos, destes de urgência, e voltei a ficar feliz de novo. Em seguida, viajei para o litoral. E, para meu desencanto, no primeiro dia de praia, eu os perdi novamente.  

A saga foi assim. Saí para caminhar… No trajeto, um banho de mar. Tirei a roupa e os óculos e deixei-os perto de um casal a quem cumprimentei cordialmente. Mergulhei, curti a água e voltei; peguei minha roupa, meus chinelos e retornei para outro canto da praia. Quando reencontrei meus amigos numa barraca, não demorou para que eu percebesse que estava sem os óculos. Que desilusão! Passei o dia pesarosa, tentando fazer memória para saber onde estariam “meus olhos”. Já cansada de pensar nisso, dei-me por consolada: eram só os óculos, não a vida que havia se perdido.

Eu já estava em paz com a perda, quando um desconhecido me abordou e me perguntou se fora eu que mergulhara no mar perto dele e de sua esposa e se eu esquecera lá os óculos. Ele os havia guardado e percorrera toda a praia à minha procura. Os óculos estavam com sua esposa no apartamento onde se hospedavam. Deu o endereço, me deixou boquiaberta com seu cuidado e se foi. Meus amigos insistiram que eu esperasse por eles para ir até o paradeiro dos óculos. Meio resignada, cedi. Ainda comentávamos sobre a gentileza do desconhecido, quando ele retornou trazendo meus óculos nas mãos. Meus olhos se iluminaram. Não aguentei. Num gesto espontâneo, agradecida, abracei o anjo da boa vista. Não sei se ele entendeu direitinho a grandeza de seu gesto. Era bem mais que a devolução de uns óculos o que ele fizera. Era a devolução da esperança, da fé no ser humano. A humanidade ainda pode ter outro destino, pensei. Aquele homem foi, como disse Gonzaguinha, o menino que me falou para não ter medo do amanhã. Desde sua bondade, foi-me possível ver a vida humana com outros olhos.


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