“Deixai as crianças virem a mim e não as impeçais,
pois a pessoas assim é que pertence o Reino de Deus” (Lc 18,16)

 

Ser criança é bom demais
despreocupar com tudo que se faz
dar um pulo, um grito e uma risada
levar a vida bem vivida e bem amada
(Rubinho do Vale)

 

Não raro tenho me deparado com situações que me fazem perceber que crescemos e nos tornamos adultos sérios demais. Tornamo-nos adultos duros, incapazes de sorrir, de olhar a vida com simplicidade; perdemos a capacidade de nos alegrar com as coisas do cotidiano. Preferimos trocar a leveza de ser criança pelo peso de viver repetindo, “sou um homem sério, não tenho tempo para divagações”, como o homem de negócios do livro “O Pequeno Príncipe”.

Na maioria das vezes, somos incentivados desde cedo a entrar no engenhoso mundo dos adultos. Ouvimos dos nossos pais conselhos como “agora vai e porte-se como um adulto” ou ainda reclamações como “Você já está bem grandinho para estar brincando assim”.

De todos os lados, recebemos influências para crescermos e nos esquecermos da criança que existe em cada um de nós. Porém, Deus, sabendo quão belo é ser criança, com sua lógica de nos ensinar por meio dos contrários, desejou que seu Filho experimentasse as alegrias de ser criança.

As brincadeiras de infância, a singeleza dos pequeninos, o sorriso largo, o coração aberto e inocente, a capacidade de surpreender-se com o cotidiano da vida, tudo isso viveu Jesus: Deus vendo o mundo pelos olhos de uma criança.

Não foi por acaso que o Filho de Deus, em seus ensinamentos, nos advertiu que “só entrará no Reino dos Céus, quem for como uma criança”. As crianças, assim como Deus, possuem um modo próprio de ver o mundo e de viver. Nessa lógica, entre a briga e o perdão, não cabe mais tempo que o de um abraço, uma mão estendida ou um de pedido de desculpas. No mundo das crianças, tudo é doação, ajuda, confiança, festa e partilha. Quem não recorda dos segredos contados ao pé do ouvido daquele amigo, do lanche repartido no recreio, das celebrações pela alegria de ganhar um brinquedo novo ou ainda das peraltices inocentes da infância?

Diante de tanto endurecimento de coração e de tanta rigidez insana que toma conta das nossas vidas, convém a gente se perguntar: Por que crescemos e nos esquecemos da importância de tudo isso na nossa formação? Por que endurecemos o nosso coração e o adoecemos com infame adultez? É preciso voltar às nossas raízes. É necessário que a gente se cure da doença de ser grande e, como criança, que a gente se abandone – de novo – nos braços do Pai cuidador. Que ele que nos livre da independência arrogante e da autossufiencia solitária, que estreita o coração e impede de partilhar vida e amor. Assim, com o coração de criança, poderemos caminhar tranquilos e serenos, seguros nas mãos do Pai.

Fotografia de Rafael Hoffmann


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