“Tudo o que fizestes a um dos meus irmãos, a mim fizestes” (Mt 25,40)

 

“Vocês já viram lá na mata a cantoria da passarada quando vai anoitecer?
E já ouviram o canto triste da araponga, anunciando que na terra vai chover?
Já experimentaram gabiroba bem madura?
Já viram as tardes quando vai anoitecer?
E já sentiram das planícies orvalhadas, o cheiro doce das frutinhas muçambê?
Pois meu amor tem um pouquinho disso tudo e tem na boca a cor das penas do Tiê
(Raimundo Fagner)


Depois de uma viagem prazerosa, fica sempre a sensação de que as fotos – apesar de belas – não retratam fielmente as experiências vividas. Aquele prazer do banho de cachoeira depois de horas de trilha, aquele susto diante da beleza dos canyons dos rios, aquela sensação de imensidão lá no alto do pico, aquela dor da unha partida na pedra da cachoeira ou aquele desejo de abraçar o mundo que subitamente nos invadiu quando vimos os campos repletos de sempre-vivas e de canelas de emas em flor, isso não fica gravado na foto. Registra-se o sorriso ou a careta; são no máximo semblantes da emoção, mas não a emoção.

Apesar de as fotografias não dizerem todas as experiências, não desistimos de registrá-las. Elas servem de sinal; remetem a algo mais; obrigam a lembrança a se esforçar para não deixar perder o vivido, o experimentado… São sacramentos da alegria e da emoção que sentimos; símbolos que nos remetem para além do que imediatamente fazem ver e que só quem viveu é capaz de recordar e de reviver. Quem olha as fotos, por mais que as contemple,

não imagina, não sabe do gozo ou da dor que as acompanharam; não é capaz de se recordar de detalhes, de dizer: “Lembra-se? Foi nesse dia que…”. Mas, sem elas (as fotos), nossa memória começaria a se enfraquecer. As imagens captadas – apesar de seus limites – são importantes, pois podem alimentar a memória; elas se tornam sacramentos da viagem.

Quando ouvimos Fagner cantar Penas do Tiê, entendemos um pouco mais essa experiência. Cada beleza da natureza lembra seu amor; o canto dos pássaros, o entardecer, as frutinhas maduras dando água na boca…  Seu amor tem um pouquinho de tudo isso, mas o seu amor é também muito mais que tudo isso. Ainda que todas as belezas da vida fossem ajuntadas, seu amor ainda não estaria ali. O amor é mistério que ultrapassa os símbolos que dele falam. Mas sem as maravilhas do sertão, o amor que Fagner canta não poderia ser dito. Logo, elas são sacramento do amor.

A vida é feita de sacramentos, de símbolos, de sinais que nos transportam, nos arrebatam para algo mais. Leonardo Boff contou-nos que uma velha caneca da família virou sacramento da vida partilhada, dos sofrimentos divididos juntos, das esperanças alimentadas no aconchego do lar. Assim também uma flor seca emoldurada num quadro no corredor de minha casa se tornou para mim um sacramento de meu amigo que já partiu. E ele sempre volta quando meu olhar alcança esse quadro… Meu cajado escorado no canto de meu escritório me diz que a vida é caminho surpreendente e que há pessoas que a gente vê uma vez só, mas elas nunca vão ser esquecidas. O poema composto a muitas mãos me revela que a amizade é dádiva bendita, mas precisa ser transparente pois se quebra como um cristal. E aquele livro velho com seu marcador de página me ensina que há marcadores que marcam páginas enquanto há pessoas que marcam a vida da gente. É assim, sacramentos da existência, sinais de algo bem maior que o aparentemente revelado: um mundo de significado e de presença que habita a alma da gente nos dizendo que a vida é mais…

Tudo aquilo que nos remete a algo para além de si mesmo é um sacramento, um símbolo do que não pode ser visibilizado. Sacramento é coisa da vida e sem ele não ressignificamos nossa existência. Jesus sabia da força dos sacramentos e, por isso, nos deixou muitos sinais de sua presença. Muitos, mas de todos eles, nenhum é tão real como a vida humana. As pessoas são sacramento de Jesus. O batismo, a eucaristia e todo sacramento da fé cristã revelam a presença do Cristo, de seu mistério. Mas é no ser humano que ele se mostra com mais intensidade, a ponto de dizer que há identificação entre ele e os humanos. Nas fragilidades, nas feridas, nos limites expostos, o ser humano visibiliza as dores do Crucificado. Nas alegrias, nas esperanças, na solidariedade, na partilha, visibiliza a experiência da transfiguração. Em qualquer estado, saudável ou doente, enfraquecido ou vitorioso, amparado ou só, o ser humano revela o Filho de Deus, que assumiu nossa humanidade. Desde que a “palavra se fez carne”, nossa humanidade tornou-se sacramento de Deus.  Certamente, ela não diz tudo de Deus, que permanece sempre mistério, algo bem mais do que podemos captar. Mas, sem esse sacramento, a relação com Deus se torna mais pobre, seu rosto fica desfigurado, sua imagem cai no esquecimento… Não foi à toa que Mateus escreveu acerca de Jesus no seu Evangelho: “tudo que fizestes a um dos meus irmãos, a mim fizeste” (Mt 25,40). Ainda que todos os sacramentos sejam vividos com intensidade, se Deus não for contemplado em cada rosto, a fé cristã não será genuína. Fica sempre um mistério de Deus a ser revelado, mas uma coisa é certa: Deus se revela no humano e tudo que é verdadeiramente humano tem a algo a dizer do Deus de Jesus Cristo.


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