Dezembro de 1994! (Sei lá! Talvez uma outra data parecida com esta.) A grande emissora de televisão brasileira, a rede Globo, preparou-se para um mega evento: um show de nome Amigos, envolvendo as três duplas sertanejas mais populares do momento: Zezé di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo.

O ginásio está lotado! É a primeira apresentação conjunta das duplas. O show segue com aparente normalidade até o momento derradeiro. Depois de um discurso de paz e fraternidade, já comum em clima de final de ano, as três duplas, acompanhadas por uma orquestra e um coral magníficos, cantam juntas a Ave Maria. O público se comove e chega ao delírio quando uma imagem de Nossa Senhora Aparecida é erguida em pleno estádio, entre fogos, luzes, fumaça de gelo seco. É a apoteose! Já não se sabe mais se o povo está num templo ou num ginásio. Já não se sabe mais se o que é presenciado é um culto ou uma apresentação musical. Já não se sabe mais se os personagens em cima do palco são cantores ou sacerdotes. Aliás, não se sabe mais se aquele lugar é um palco ou um altar. A plateia – ou a comunidade reunida? – vibra, canta, chora. E parece arrebatada em êxtase ao céu. Mas não para por aí. Como se não bastasse tal arrebatamento, logo em seguida, o grupo canta Noite Feliz acompanhado por um grupo angelical de vozes afinadas, mais parecendo uma missa em latim a quatro vozes na Catedral de Mariana, em tempos idos de requinte e sofisticação.

O público presente lavou a alma. Os telespectadores tiveram inveja de quem estava lá, mas, ainda assim, também tiveram a alma lavada. Agora o Novo Ano podia despontar! As energias negativas já tinham sido dissipadas. Os males trazidos do ano corrente esvaíram-se em fumaça com o gelo seco que subiu ao céu. As trevas do desespero experimentado a cada dia do ano tinham se tornado luzes com os fogos de artifício. O temor explodiu e deu lugar à esperança de dias melhores.

Mas o que houve? As pessoas que haviam saído de casa para assistir um show musical, e não uma cerimônia religiosa, nem sequer se deram conta do acontecido. Quem ligou a TV naquele horário querendo um momento de lazer, e não de oração, nem sequer percebeu a diferença entre uma coisa e outra. O sagrado estava ali, bem diante dos seus olhos, infiltrado em cada gesto, em cada palavra, em cada roupa, em cada dança. Todo o espetáculo havia sido preparado em torno de motivos religiosos. Para o grande público pós-moderno, a rede Globo acabara de oferecer o culto esperado. Entre danças exóticas e toques de humanismo, palavras doces e música de alto nível, a “celebração da vida” transcorreu. Por uma hora, ninguém mais se lembrou da pobreza que assola o país, da corrupção que galopa pelos campos do Planalto Central, dos postos de saúde lotados, dos ônibus sobrecarregados, do salário máximo dos governantes e do salário mínimo dos trabalhadores, do marido bêbado em casa, do filho drogado nas ruas. Cada qual bebeu sua dose de religiosidade. Cada qual se entorpeceu de ilusões, na certeza mais plena de viver o real. O alento perdido retornou. O Sagrado emergiu do fundo da Terra. Eclodiu como uma pupa que, se tornando borboleta, sai do casulo e voa pelos campos. Estava livre para ocupar os espaços, afinal, a fé cristã, predominante no país, havia deixado muitos espaços vazios. O que a fé católica descuidou-se de oferecer, a mídia ofereceu. E quem viveu tal experiência disse como o poeta português:

Se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

(Fernando Pessoa)


Artigo anterior:   14. A re-significação da solidão e do sofrimento
Próximo artigo:   16. Ecologia e fé cristã
Print Friendly, PDF & Email