“A tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (Sl 119,105)

Já não quero dicionários 
consultados em vão. 
Quero só a palavra 
que nunca estará neles 
nem se pode inventar. 
Que resumiria o mundo 
e o substituiria. 
Mais sol do que o sol, 
dentro da qual vivêssemos 
todos em comunhão, 
mudos, 
saboreando-a.
(Carlos Drummond de Andrade)

Há um ditado que diz que existem três coisas que nunca voltam: “a flecha lançada, a oportunidade perdida e a palavra pronunciada”. Realmente, a palavra possui uma força sem igual. Algumas palavras mexem muito conosco, nos fazem ficar inquietos, nos provocam ódio ou raiva, ou nos tranquilizam. Em alguns momentos, as palavras ditas podem magoar as pessoas. Na hora da raiva, agimos por impulso e, às vezes, nos tornamos até estúpidos. Roberto Carlos, na canção Um jeito estúpido de amar, diz: “Palavras são palavras e a gente nem percebe o que disse sem querer e o que deixou pra depois…”.

Palavras são palavras e é impossível ficar sem reação diante delas. Porém, há algumas que são ditas em tom misterioso e, ao ouvi-las, estremecemo-nos por dentro e só conseguimos tomar uma atitude: permanecer em silêncio. Na hora, não compreendemos o significado do que nos foi dito. Pode ser que levemos anos para compreendê-la, mas aquela palavra fica ali, dentro de nós, remoendo, provocando-nos.

No Evangelho de Lucas, coisa semelhante parece ter vivido Maria quando escutou do velho Simeão as seguintes palavras: “uma espada transpassará tua alma” (Lc 2,35). palavras tão provocadoras devem ter causado um turbilhão de sentimentos no coração da jovem de Nazaré! Que espada é essa que divide o coração de Maria? Será a espada do sofrimento que a mãe de Jesus experimentará diante da Paixão de seu filho? Ou será a própria Palavra de Deus que a interpela e a leva a fazer opções, escolhas difíceis? Afinal, maria deve ter experimentado como nós que a Palavra de Deus desinstala, divide e dilacera nosso coração empedernido, nos obrigando a escolher caminhos…

O autor da Carta aos Hebreus escreveu: “A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que qualquer espada de dois gumes. Penetra até dividir alma e espírito, articulações e medulas. Julga os pensamentos e as intenções do coração” (Hb 4,12). A Palavra entra no mais íntimo de nós e nos divide, mas, ao mesmo tempo, faz com que sejamos inteiros. Ela revela o que de mais luminoso há em cada um de nós. É impossível ficar indiferente à ação da Palavra; ela sempre produz algum movimento em nós, seja interior ou exterior.

São Bernardo de Claraval escreveu de modo poético uma prece que foi recentemente transformada em canção por Irmã Miria Kolling: “Guarda a Palavra, guarda-a no coração, que ela entre em sua alma e penetre os sentimentos. Busca, noite e dia, a paz e o amor de Deus. Se guardares a Palavra, ela te guardará”. Ao guardamos a Palavra, ela se transforma em vida; tornamo-nos seus guardiões, devido à intimidade que passa a existir entre ela e nós. Ela se torna carne em nós. Curioso é notarmos que, quando guardamos a Palavra, na verdade nós é que somos por ela guardados. A Palavra nos ampara, guia e ilumina. É preciso deixar que ela nos transforme, nos modele, faça de nós pessoas inteiras.


Crônica anterior:   155. Entre a leveza e a dureza da vida
Próxima crônica:   157. Vestígios de luz
Print Friendly
Print this pageShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Email this to someoneShare on Tumblr0