Vai passar…
Mas quando o primeiro raio
cortar a escuridão
e devolver cores à vida,
terei ainda olhos
luminosos e coloridos
para ver sua beleza?

Vai passar…
Mas quando os primeiros pássaros
atenderem ao convite da manhã vindoura
e cantarem sua liberdade, estridentes,
terei ainda ouvidos
livres e amanhecidos
para que acolher seu canto?

Vai passar…
Mas quando as máscaras caírem por desuso
ou por abandono do medo
cedendo ao sorriso desarmado,
ou mesmo por urgência de beijos
guardados desde muito,
terei ainda rosto,
desmascarado e limpo,
para oferecer?
Terei ainda sorrisos para exibir
e palavras de coragem para repetir
e cantigas para assobiar?

Vai passar…
Mas quando o isolamento acabar,
e finalmente eu puder sair,
terei alguém a quem ir
e ao lado de quem me achegar
e abraços para acolher
e histórias para entreter?

E, se nessas histórias,
houver dor de quem esteve sozinho,
ou medo da fragilidade,
ou abandono no esquecimento,
ou a penúria da injustiça,
ou a angústia de quem viu partir,
ou a tristeza da morte ou da fome,
ou de ter sido ignorado em seu pranto,
frio e só,
terei ainda lágrimas para chorar
e mãos ágeis para a acudir e sarar,
para repartir e doar,
e coração para aquecer
na insistência de amar?

Vai passar…
É claro que vai passar…
Mas é preciso que eu esteja pronto
a fazer passar
também e sobretudo
dentro de mim.
Pois, para estar longe
e para me trancar na gaiola do medo,
na cegueira surda do ódio
ou na bolha da indiferença,
já tive minha vida inteira.


Para rezar anterior:    156. Abismado
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