“Será um sinal de contradição…” (Lc 2,34)

“A contradição faz parte de nós” (Lya Luft)

No interior das Minas Gerais, na semana que antecede a Semana Santa, é costume celebrar o Setenário das Dores de Maria. Durante sete dias, o povo medita sobre as dores pelas quais a Mãe de Jesus passou ao longo de sua vida. Nossa gente se vê em Maria de Nazaré… Uma das dores de Maria remonta ao Evangelho de Lucas, no relato da apresentação do menino Jesus no Templo de Jerusalém. Tomando o menino nos braços, o velho Simeão profere umas palavras cercadas de mistério: “Este menino será causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel. Ele será um sinal de contradição” (Lc 2,34).

Celebrando com minha gente essas dores de Maria, fiquei me indagando o que significariam essas palavras enigmáticas. Por que Jesus seria um sinal de contradição? E fiquei pensando que, de certa forma, o ser humano também é contradição. Mas será que a contradição do ser humano é a mesma que Simeão falou a respeito de Jesus ou não?

O ser humano é paradoxal. Lya Luft escreveu: “A contradição faz parte de nós. Desejamos permanência, e destruímos a natureza. Nos consideramos modernos, e sufocamos debaixo dos preconceitos”. Esse é o grande drama da humanidade, já experimentado e tematizado em forma de teologia pelo apóstolo Paulo: “De fato, não entendo o que faço, pois não faço o que quero, mas o que detesto” (Rm 7,15).

Caetano Veloso fez uma espécie de brincadeira com esse paradoxo humano: “Quando você me ouvir cantar, venha, não creia, eu não corro perigo. Digo, não digo, não ligo, deixo no ar…”. Quem nunca fez esse jogo de gato e rato com alguém ou consigo mesmo? Quem nunca se contradisse ou nunca desmentiu o dito com a própria vida? Quem nunca se viu partido diante do espelho, um ser dividido, ambíguo? “Metade de mim é o que eu grito; a outra metade silêncio”, diria Osvaldo Montenegro. Somos um ser em construção, feito de muitas contradições ou possibilidades, sempre buscando a unidade.

Mas e a contradição de Jesus? Evidentemente que ele foi chamado de “sinal de contradição” não por viver uma vida contraditória ou medíocre. Muito pelo contrário! Foi sinal de contradição justamente por assumir o risco de viver autenticamente, dando a cara a tapa – “Falei às claras a esse mundo…” (Jo 18,20). Exatamente por isso, o Homem de Nazaré causou incomodo entre os poderosos de sua época e, ainda hoje, suas palavras permanecem nos desinstalando, nos questionando. Jesus é sinal de contradição, por não ter contradição alguma; sua vida coerência revela nossas contradições.

A coerência de vida com o projeto do Pai levou Jesus ao tribunal de Anás e Caifás, à corte de Herodes e ao pretório de Pilatos, pois o amor de Deus apresentado por Jesus causa desconforto às estruturas deste mundo. No Evangelho, podemos perceber através dos gestos de Cristo – muito mais do que por suas palavras – que o apelo ao amor é, sem dúvida, o maior de seus ensinamentos. Mas o amor de Jesus nos questiona e nos desinstala – na linguagem paulina, “o amor nos constrange” (2Cor 5,14) –, por isso, nem sempre esse amor é acolhido com bons olhos, chegando ao ponto de ser desprezado. Porque Jesus quebra todos os protocolos, rompe com esquemas já viciados, ele enxerga além da margem, muito além da superficialidade dos fatos… Ele lê os corações; conhece o ser humano desde dentro!

Jesus foi julgado e condenado por sua justiça. Por ter pregado que bem-aventurados são os que passam fome e os que tem sede; bem-aventurados são os que não tem vergonha de chorar nem de rir; bem-aventurados são aqueles que têm a coragem de permanecer com o coração puro como o das crianças; bem-aventurados são os simples e humildes; bem-aventurados são todos aqueles que se reconhecem humanos e não super-heróis, infalíveis e poderosos; bem-aventurados são aqueles que assumem o risco de romper com o comodismo e lutam por um mundo mais justo e fraterno; bem-aventurados são todos os que nunca estão contentes com o lugar onde estão e ousam “avançar para as águas mais profundas” (Lc 5,4); bem-aventurados são todos aqueles que têm as mãos vazias e que têm a humildade de reconhecer que não estão prontos, que não sabem tudo…

Os grandes do tempo de Jesus se revoltaram com os seus ensinamentos. Escandalizaram-se com seu jeito simples de viver. Nas palavras e gestos do Mestre de Nazaré viram suas próprias contradições; suas incoerências vieram à tona quando se depararam com ele. Escandalizaram-se com a coerência que havia entre sua pregação e sua vida. A dubiedade por eles cultivada – antes tão familiar – passou a incomodar, pois conheceram uma coerência antes impensada. Acostumados a pregar uma coisa e a viver outra, a impor pesados fardos da Lei às pessoas, mas não a eles próprios, quiseram acabar com Jesus para eliminar o sinal de suas contradições. Não é à toa que o autor do Livro da Sabedoria colocou na boca dos maus estas frases: “Armemos cilada ao justo, pois nos estorva; ele se opõe ao nosso modo de agir; repreende em nós as transgressões da Lei e nos difama por pecarmos contra nossa tradição…Tornou-se uma censura para os nossos pensamentos e simplesmente vê-lo já é insuportável; sua vida é muito diferente da dos outros e seus caminhos vão em outra direção” (Sb 2,12-15). É bem mais fácil acabar com o justo – sinal de contradição – que eliminar nossas contradições, pois já se tornaram objeto de nossa estimação. Se Lya Luft disse “a contradição faz parte de nós”, certamente foi como espanto e não como incentivo à acomodação. A unidade e a coerência continuam sendo afirmadoras da interioridade, garantias de uma vida não fútil e plena de sentido!


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