“Esperando contra toda esperança, ele firmou-se na fé e,
assim, tornou-se pai de muitos povos” (Rm 4, 18)

 

A Esperança
Tece a linha do horizonte
Traz tanta paz
Em reluzente e doce olhar
Que nos conforta
Quando o mar não é tão manso
Quando o que resta
É só o frio sem luar
(
Flávia Wenceslau)

 

Numa uma dessas noites em que, apesar do cansaço, o sono se vai e as memórias aparentemente esquecidas vêm nos visitar, recordei-me de uma das muitas peraltices da minha infância. Quando crriança, um dos meus passatempos favoritos era sair à procura de pequenos animais para povoar minhas fazendas imaginárias e, como vivia na roça, tinha campo abundante para montá-las. Pobres e indefesos animais, pois Formigas, Centopéias, Lagartas, Minhocas e Borboletas eram transformados por minha fértil imaginação de criança, em Bois, Cavalos alados, Búfalos e até mesmo Unicórnios. Tudo era uma festa, exceto uma coisa que me incomodava bastante: havia um animal com o qual eu, advertido severamente por minha mãe, não podia brincar para não correr o risco de machucá-lo, pois era sagrado. Tratava-se da Esperança, também conhecido como Louva-Deus!

Animalzinho verde, miúdo e saltador, a Esperança me fascinava. Eu era capaz de abrir mão de todos os animais das minhas fazendas imaginárias para possuir uma única Esperança que fosse. Não raro, eu, desobediente, saía às escondidas a caçar Esperanças. Eu, menino sonhador, caçava esperanças ainda que isso representasse uma subversão. Buscava minuciosamente entre as árvores, nos troncos velhos esquecidos no chão, nos brejos e não sossegava até obter êxito em minha tarefa. E, quando a encontrava, que alegria!  Às vezes, passava longo tempo a admirá-la, até que ela começasse a saltar e, mais esperta do que eu, me escapava. Como eu queria possuir uma Esperança! Assim, vez ou outra vez, eu saía a busca-las sempre de novo. E, por toda minha infância, mantive-me fiel caçador de Esperanças.

O tempo se foi e eu cresci, mas não mudei muito; continuo sendo um caçador de ESPERANÇA. Agora não mais do animalzinho, apesar de eu continuar fascinado por ele. Hoje, cansado da peleja da vida, tenho medo do desalento e persigo aquela esperança que não nos deixa perecer. Quando tudo parece perdido, é ela que nos impulsiona a recomeçar com o coração confiante de que se farão novas todas as coisas.

A história do povo de Deus, assim como a minha, está marcada por buscadores e propagadores da esperança; gente que não se deixou abater pelas tribulações e nem se desanimou diante das dificuldades. O povo de Israel, após largo tempo de exílio e escravidão no Egito, se manteve esperançoso. Por quarenta anos de tortuosos caminhos do deserto até a chegada a Terra Prometida, em meio às infidelidades, o povo conservou sua esperança, como nos relata a Escritura. Tempos mais tarde, o mesmo povo aguardava esperançoso a chegada do Messias que iria devolver a dignidade perdida e restaurar o reino de Israel. A esperança animou o povo de Israel em toda a sua história.

Essa mesma esperança moveu e animou os discípulos de Jesus a prosseguirem depois de sua morte. Caminhando desiludidos para Emaús, dois discípulos tinham o coração triste e restava apenas um tênue fio de esperança. Já não tinham mais uma causa, um motivo para prosseguir, pois aquele em que haviam depositado toda sua esperança, aparentemente, havia fracassado. Mas, em meio ao caminho, o Ressuscitado se revela por meio de sua palavra e, depois, lhes oferece o pão partilhado. Bastou esse sinal para que a chama quase apagada da esperança fosse devolvida ao coração dos desesperançados discípulos.

É fácil ter esperança quando as coisas andam bem. Mas e quando os tempos são difíceis como estes que estamos vivendo? Ligamos a TV e recebemos uma enxurrada de notícias ruins. O nosso sistema politico exala podridão e todos os dias roubam nossos direitos. Não raro vemos a religião ser instrumentalizada em favor do medo e da captação de recursos; o terror e a falta de segurança batem todos os dias em nossas portas nos roubando a paz e a tranquilidade. Inúmeros são os motivos que temos para abaixar a cabeça e, como meninos amedrontados, perder o ânimo. Querem matar nossa esperança; querem roubá-la; aprisioná-la. Querem que nos cansemos, que desistamos, que nossa memória se esqueça do que amou e do que nos moveu até aqui. Mas somos o povo da esperança. Sairemos sempre como meninos teimosos a buscar esperança, ainda que proibida, subversiva, mas sempre sagrada esperança. E como canta Flávia Wenceslau, vamos “oferecer nossa casa para que ela faça morada”. Não tenhamos medo de ser buscadores e anunciadores da esperança, gritando com amor, que ainda resta a esperança da fé, semeada em nossos corações pela ressurreição daquele que é a nossa esperança.


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