Hoje, colocamos nomes nas pessoas arbitrariamente. Qualquer nome serve em qualquer pessoa. O nome, para nós, tornou-se mais uma atribuição para facilitar a identificação de cada pessoa. E a escolha depende do som, da fonética, se o som agrada aos ouvidos ou não.

Para o judeu, não era assim. O nome, na cultura judaica, devia sempre expressar a característica marcante da pessoa, o que a pessoa era no mais íntimo do seu ser.Por isso, o modo de usar os “nomes próprios” de pessoas e de coisas na Bíblia merece nossa atenção. O nome é como uma extensão da pessoa. Às vezes, o nome fica envolto num clima misterioso, comunicando um dado teológico importante. O nome tem o poder de comunicar uma mensagem, ele possui força própria, comunica interioridade, a essência de uma pessoa. De certo modo, há certa semelhança com o costume popular de se colocar apelidos nas pessoas.

Por essa razão, nos relatos bíblicos não é incomum a mudança de nome. Quando alguém muda seu jeito de ser ou sua função, o velho nome já não indica sua essência. Então ganha novo nome. Novo nome significa vida nova, nova missão, nova vocação.

Eis alguns exemplos de trocas de nomes:

  • Gn 17,5: Abrão, que significa “pai elevado, importante”, torna-se Abraão, que é “pai de multidão”;
  • Gn 35,10: Jacó (espertalhão) torna-se Israel (forte como Deus);
  • Gn 35,18: Benoni (filho de minha dor) torna-se Benjamim (filho da direita ou filho preferido);
  • Jo 1,42: Simão torna-se Cephas (Pedro) que quer dizer “Pedra”.

Não é raro também, nos relatos bíblicos, os personagens ganharem nomes significativos, exatamente para comunicar uma mensagem. Caso paradigmático encontramos no Livro de Rute, no qual os nomes dos personagens são cuidadosamente escolhidos para comunicar a teologia desejada. Vejamos:

  • Rute quer dizer amizade fiel ou fidelidade; e é exatamente isso que ela é, amiga fiel de sua sogra Noemi.
  • Noemi quer dizer doçura, aquela que era casada com Elimelec (que quer dizer Deusérei); ela tinha vida doce e feliz pois era bem casada e com dois filhos. Depois Noemi passou a se chamar Mara, que quer dizer amarga.
  • Orfa quer dizer costas; e foi isso que ela fez: deu as costas para a sogra e voltou para sua terra natal.
  • Booz quer dizer forte; ele enfrentou todo preconceito para ficar com Rute, a estrangeira.
  • Os filhos de Elimelec e Noemi são Quelion e Maalon, que quer dizer respectivamente fraqueza (algo que quebra à toa) e moléstia (ou doença), por isso morreram cedo e deixaram a mãe desprotegida e as esposas viúvas.

Observemos que toda a história de Rute pode ser contada através dos nomes. E o mesmo se dá com outros livros bíblicos, tanto no que diz respeito a nomes próprios quanto a nomes de lugares. Curioso, não?


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