“Que adianta ao homem  ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida?” (Mc 8,36)

 

“Dona, repare, a bondade tem rosto,
ela olha pra gente,
esboça até sorriso.

Espia, Dona, ela se senta com a gente à mesa,
esvazia uma, duas garrafas de vinho seco,
enche de doçura o coração da gente.

Repare, Dona, a mão dela é quente,
o abraço revira as entranhas,

Causa abrigo.
Rouba sorrisos.
Ufa! Posso dormir em paz.
Não estou só!”.

(Bondade – Abdias Júnior)

Antes que o dia findasse de verdade, lá pelas tantas da noite, com a cabeça sobre o travesseiro, corpo já rebuçado, quando a única claridade que afugentava o breu era a luminosidade da lua que, cheia de sutileza, invadia o aconchego do meu quarto, dei-me conta da loucura que virou o nosso dia-a-dia: uma correria medonha, um turbilhão de atividades a cumprir sem nem mesmo saber onde desejamos chegar. Parece-me que não sou o único a refletir sobre isso. A pressa que engole a gente tem sido temas de muitas conversas. Tiago Iorc canta: “Por que se apressar? Se nem sabe aonde chegar, correr em vão se o caminho é longo”. E o cantor deixa a dica para viver em meio ao frenesi: “Quem se soltar, da vida vai gostar; e a vida vai gostar de volta em dobro. E, se tropeçar, do chão não vai passar; quem sete vezes cai, levanta oito”.

Vivemos tempos difíceis, cujos caminhos têm provocado sensações desanimadoras. Alguma coisa parece invertida; carecem de lógica mínima certas posturas. Não poucas pessoas dão rostos e sentimentos às coisas, aos animais, às plantas – todas dignas de carinho e zelo, é claro – mas ignoram os humanos e suas dores, suas mazelas, suas penúrias… É o processo de despersonificação; o outro é só uma composição da paisagem e não um rosto que nos interpela. O rosto não é somente (é também, mas não somente) um conjunto bonito de traços: dois olhos; um par de sobrancelhas; um nariz, às vezes afunilado, ora achatado; uma boca cheia de dentes; um sorriso largo. O rosto é um espaço hermenêutico do outro; por ele podemos interpretar uma vida que se nos mostra. É na relação com o outro que acontece o crescimento, a humanização. Como afirmava Paulo Freire, a gente não nasce humano; a gente se humaniza. O mundo das relações funciona como uma lente que permite ver o mundo com outras tonalidades, outros adornos. As relações nos humanizam, nos fazem gente.  

Não precisamos olhar muito longe para constatar que as relações andam adoecidas. O mundo gira com tamanha velocidade que não temos tempo para o outro, para nos dedicarmos às relações. Já não temos tempo nem para nós mesmos; já não sabemos há muito tempo o que é dormir um pouco mais no domingo; gastar tempo com a família, com os amigos.

“Vaidade das vaidades”: quem ajunta seu tesouro aqui, aqui mesmo já tem sua recompensa. De que vale trabalhar desesperadamente, correr pra cá, correr pra lá e, no fim do dia, não ter sequer com quem dividir as pelejas da vida, as conquistas?

Lembro-me da alegria de minha avó quando reunia toda a família em casa, em torno da mesa – irmãos, filhos, netos e até bisnetos. Tem algo melhor do que, depois de toda peleja da semana, encontrarmo-nos com aqueles que nós amamos e nos querem bem? Tem algo melhor do que estar com aqueles que nos aceitam como somos sem nos cobrar nada em troca? Tem algo mais precioso e caro que a gratuidade do bem-querer? Não é preciso muita coisa; uma presença fraterna e um coração largo são suficientes para derramar bálsamo nas feridas abertas e nos salvar.

Bem disse o apóstolo Paulo que, no final da vida, só vai sobrar o amor. Nada além dos olhares de ternura, das palavras de encorajamento, das gargalhadas liberadas com liberdade, das lágrimas choradas junto de quem nos quer bem, do amor dispensado ao outro. A vida é curta para desperdiçá-la; é breve demais para que a condenemos à escravização do capitalismo; é frágil demais para que a quebremos com a pressa da vida. É cristal que precisa ser tratado com delicadeza: a delicadeza dos gestos fraternos e da acolhida do outro que nos convida ao amor.


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