“Nossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,1)

 

“Mesmo quando me descuido,
me desloco, me deslumbro
Perco o foco, perco o chão, e perco o ar
Me reconheço em teu olhar
que é o fio pra me guiar de volta”
(Tiago Iork, Sandy e Lucas Lima)

 

Outro dia, por um descuido, perdi minha carteira de identidade. Fiquei angustiado e procurei-a como um louco. Carteira de identidade não é coisa de se perder; é um documento importante demais para nós, pois nos identifica civilmente… E tudo se complica quando se perde a identidade. Se isso já é grave no campo civil, quanto mais no campo existencial. Perder a identidade é um risco constante e um perigo enorme.

A identidade é a interioridade da pessoa. É o que ela é lá nas entranhas; é o modo como ela se mostra desde dentro. Parece estranho, mas é possível perder a identidade; não a do documento, mas a da interioridade que nos singulariza. Essa perda é muito mais grave e perigosa: a perda de nós mesmos. No caso dessa perda, não adianta procurar a identidade na seção de “achados e perdidos”. Ninguém vai achá-la por nós. Só nós mesmos, numa busca laboriosa e dura, como alguém que segue os sinais de um mapa em busca de um tesouro perdido.

Apesar de ninguém poder resgatar nossa identidade perdida, diluída no meio da massa, uniformizada pela mídia e seus padrões, a não ser nós mesmos, as pessoas que nos amam podem ajudar muito. Um olhar de ternura, um gesto de amor ou uma gota de cuidado são sinais inequívocos de que o tesouro da identidade está por perto. Esses gestos podem nos resgatar e nos trazer de volta, pois o amor é devolvedor de vida, é reconstrutor de identidade; é aquele que plasma em nós a consciência de quem somos.

Daí a importância primeira da fé cristã: a religião do amor. O Deus de Jesus Cristo é exclusivamente amor, nada mais: nem justiça, nem severidade, nem coerção, nem retribuição. Ele é amor. E seu amor transforma a vida, resgata a dignidade, dá bases para estruturar nossa personalidade e enfrentar a vida com seus desafios. Basta um olhar atento para ver nos Evangelhos a presença de Jesus, sempre devolvendo as pessoas a si mesmas. Jesus está sempre fitando as pessoas nos olhos, amando-as, acolhendo-as, resgatando-as do não-sentido e devolvendo-as a si próprias. Na hora da negação ao amigo, o olhar de Jesus recolheu Pedro em si mostrando a ele o quanto era amado.

Nesse mesmo olhar e nesse mesmo amor, também nós reconhecemos nossa verdadeira identidade; nele somos integrados, reintegrados, restaurados, ressuscitados de mortes cruéis. O olhar de Jesus nos resgata do pavor em meio aos temporais da existência. Quando vêm as tempestades da vida, as tribulações, perdemos o foco, desesperamos, já nem sequer sabemos quem somos, que rumos tomamos, perdemos o chão… Ficamos descentrados, nos perdemos de nós próprios. Não é à toa que, quando isso acontece, usamos a seguinte expressão: “fulano está fora de si” ou “eu estava fora de mim, não sabia o que fazia”. Estar fora de si significa perder-se, perder a referência de si mesmo, de quem se é. Triste quando isso acontece! Esse não é, porém, um caminho sem volta. Nada como um olhar de amor, um olhar que sirva de bússola para nos tirar da deriva de nossa própria vida. Como diz a canção, “quando perco o foco, perco o chão e perco o ar, me reconheço no teu olhar”. Um olhar de amor, um abraço de acolhida, é capaz de muito… Ou como canta Anavitória, “me desconstrói os muros, me faz enxergar por outro ângulo tudo que eu já pensava conhecer e dominar. E me muda sem saber, me refaz sem perceber e desfaz todo nó e bagunça”. O amor tem essa capacidade de desfazer os nós, ou de pelo menos nos ajudar a viver harmoniosamente com eles.

Relato de perdiduras e procuras de si, aparece na parábola do pai amoroso e seus dois filhos perdidos. O filho mais novo e o filho mais velho perderam a si próprios, esqueceram de si mesmos, fecharam-se em seus mundos, perderam o sentido da vida, sua essência; perderam a própria identidade. O mais novo se perdeu fora de casa. Caiu na ilusão de acreditar que a felicidade estava no dinheiro, na vida fácil… O mais velho se perdeu dentro da própria casa. Legalista, egoísta, cabeça dura, perdeu-se em um emaranhado de exigências que não o deixavam ser. Estava obrigado à lei, ao ritualismo, à legalidade que mata. O Filho mais novo, porém, foi reencontrado no abraço do pai. Quando caiu em si, procurou com labor o caminho de volta. Mas o jovem moço retorna à casa paterna ainda sem a identidade de filho: queria ser tratado como um dos empregados. Foi, no abraço do pai, que morreu a não-identidade e veio a luz sua filiação. Sua interioridade perdida foi de novo encontrada. De anel no dedo, sandália nos pés e vestes novas, o filho celebra a vida ressuscitada no amor que o pai o dispensou. O mais velho, pensando-se achado, rejeitou o convite do pai e continuou sua saga de perdidura… Recusou-se a entrar para a festa. Pena! Mas pode acontecer.

Então, se temos alguém que nos ajuda a nos reencontrar, devemos aproveitar a chance que a vida nos dá. Como escreveu Hyldon, na canção imortalizada na voz de Tim Maia, “jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você”. Acolhamos o olhar de ternura que nos devolve a interioridade perdida!


Crônica anterior:      147. A coragem da fé
Próxima crônica:   149. Rosto
Print Friendly, PDF & Email