“O Senhor disse a Abraão: Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai,
e vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12,1)

 

 “Prefiro um Igreja acidentada, ferida e enlameada
por ter saído pelas estradas,
a uma Igreja enferma pelo fechamento
e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”
(Papa Francisco)

Desde que assumiu o pontificado, o Papa Francisco tem insistido que devemos ser uma Igreja em Saída, uma Igreja que não se acomoda, que não tem medo de se colocar em movimento. O Papa mostra com gestos, mais até do que com palavras, que devemos estar dispostos a assumir a radicalidade da proposta do evangelho de Jesus.

Pensar numa Igreja em Saída nos faz lembrar de uma característica marcante do povo de Deus: a peregrinação. A nossa vida de fé pode sempre ser comparada a uma caminhada e, na bíblia, há vários relatos de peregrinos que podem nos iluminar em nossa caminhada. Um desses exemplos é Abraão.

No livro do Gênesis, Deus fez um convite inusitado a Abraão: “O Senhor disse a Abraão: Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu vou te mostrar” (Gn 12,1). Unida a esta ordem encontra-se uma importante promessa: “Farei de ti um grande povo e te abençoarei; engrandecerei o teu nome, de modo que ele se torne uma bênção’. (Gn 12,2). Ao ouvir o apelo de Deus, apesar dos riscos, Abraão decidiu deixar a segurança de sua casa e de sua terra e iniciou sua jornada rumo ao desconhecido. Abraão empreendeu uma jornada repleta de incertezas, possuindo uma única certeza: Deus caminhava com ele. A Abraão bastava uma só coisa: confiar, acreditar na promessa de Deus. Para arriscar-se nesse novo projeto, Abraão teve de fazer várias saídas:  sair de si mesmo; sair da sua casa; sair da sua terra.

Sair de si mesmo é algo bem difícil e doloroso. É duro libertar-se do egoísmo, da arrogância. É penoso descobrir que não somos o centro do universo, que o mundo não gira ao redor de nosso umbigo. Para estar disposto a acolher as surpresas de Deus e manter-se aberto para amar as pessoas como elas são, é preciso fazer esta saída: saída de si mesmo.

Sair de casa também não é fácil. Chega a hora em que é preciso desinstalar-se, sair da zona de conforto, do aconchego do ambiente cotidiano! É sempre mais fácil optar pelo comodismo e ficar no sofá, no conforto de nosso quarto. Mas o apelo de Deus soa no coração de quem crê para que deixar para trás as seguranças. Chega o tempo de ouvir a voz do outro que nos interpela fora de nosso espaço seguro. Para dar esse importante passo, às vezes, um empurrão ajuda. Basta uma palavra de incentivo, de encorajamento e aquele que já estava com o pé na porta se põe a caminho. Como canta a dupla sertaneja Zezé de Camargo e Luciano, “no dia em que saí de casa, minha mãe me disse: ‘filho vem cá’; passou a mão em meus cabelos, começou a chorar…e ela me disse assim ‘meu filho, vá com Deus que esse mundo inteiro é seu…’”. Sair de casa rumo a outras casas: foi o que fez o pai da fé, Abraão com a bênção de Deus.

Por fim, é preciso sair da terra, deixar para trás a pátria e viver como nômade, à procura de um sonho que se tornou grande no coração. Sabem disso todos aqueles que deixaram suas cidades para tentar a vida em outras terras, mas sabem-no ainda mais os refugiados de guerras que, já sem esperanças de vida digna em sua pátria, arriscam-se em aventuras perigosas de êxodo. Sujeitos à novidade estrangeira, os migrantes aprendem a se comunicar, a fazer trocas… Foi o que fez Abraão: em outras terras foi aprender outro modo de viver.

Abraão viveu todos esses dramas. Nosso pai da fé nos precedeu nessas saídas. Não inauguramos os portões que se abrem para outros mundos de possibilidades. Olhando o exemplo de Abraão, aprendemos a persistir e a não desanimar em meio às dificuldades e obstáculos do caminho. Ainda que nossa tentação seja a acomodação, lembremo-nos do Papa Francisco que nos convida a sair da sacristia e a ir ao encontro das pessoas, a ir às “periferias físicas e existenciais”. Como disse Dom Hélder Câmara: “Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso eu. É parar de dar volta ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo e da vida. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: a humanidade é maior…”. Saída é a melhor opção para ir ao encontro do novo que nos faz novos também.


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