Era um, depois dois, em seguida três homens
saídos das sombras de um saguão vazio, todo pintado de cinza.

Vieram mais: agora eram doze, vinte e quatro,
quarenta e oito homens e mulheres saindo dos cantos,
dos recônditos, vindo para mais perto.

Todos circulando, circundando,
circunscrevendo
uma circunferência de corpos.

Entreolhavam-se, olhos famintos.
Dentes cerrados, punhos fechados,
amontoavam-se em torno de um objeto
iluminado, miraculoso, divinal.
Admiravam-no, sobressaltados, como diante de um totem.
Queriam agarrar o tal objeto,
mas havia suspense,
havia suspeita,
havia sobreaviso.
Uma espera, um recuo;
quem ia primeiro?

Era guerra!

Era guerra!

Alguém saltou sobre o objeto divinal.
A fúria abjeta de todos os outros saltou sobre ele.
Montanha de corpos.
Dente no pescoço, soco no peito, gente voando…
mas o primeiro era o dono…
o dono… do rolo de papel higiênico.


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