“Onde moras?” (Jo 1,38)

“A nossa casa é onde a gente está
a nossa casa é o melhor lugar”
(Arnaldo Antunes)

A morada é um elemento bastante simbólico, pois é algo que nos remete à nossa verdadeira identidade, aos nossos afetos, aos nossos amores. Nela podemos ser quem somos sem máscaras, sem precisar de disfarces. Quando nela chegamos, relaxamos, nos entregamos, nos despojamos dos cansaços e podemos simplesmente ser. Ela é o lugar onde nos reconhecemos, onde temos segurança, onde nos vemos em cada detalhe. Não é à toa que a casa própria lidera o sonho da maioria dos humanos. Não é certamente só porque é um bem precioso em termos de valores monetários. É muito mais; é porque ela diz quem somos.

Porque a morada nos diz quem somos, estamos sempre retornando à casa paterna, ao lar que nos gerou, àquele aconchego que formou nossa identidade. A experiência do retorno ao lar é descrita com beleza na música O portão, de Roberto e Erasmo Carlos: “Eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo, minhas malas coloquei no chão, eu voltei… Eu voltei, agora pra ficar, eu voltei porque aqui, aqui é meu lugar, eu voltei pras coisas que deixei, eu voltei…”. Voltar ao lar é bom, mas causa medo, cantam eles. Como estará sua antiga morada?, pergunta-se aquele que retorna ao lar Caberá sua vida lá dentro ainda?  Após passar tanto tempo, que coisas encontrará ali? Será que ele ainda se reconhecerá no antigo ambiente? Seu retrato ainda estará na parede? Aqueles que ele deixou vão acolhê-lo com o mesmo abraço fraterno de antes? O que dizer a quem foi deixado para trás quando partiu? Haverá palavras que expressem tudo que se ele quer dizer? Mas, apesar de ter passado tanto tempo, tudo permanecia como antes: aquele era o seu lugar… Só uma coisa havia mudado: ele próprio que um dia havia partido.

Também nos Evangelhos a temática do lugar possui um destaque significativo. Em vários discursos, Jesus exorta os seus discípulos a pensarem sobre qual é lugar deles. Certamente Jesus não está preocupado com o lugar geográfico, o ambiente, a casa de paredes, apesar da importância dos mesmos. Ele quer saber bem mais que isso. Quer saber onde seus discípulos encontram sua identidade, arrancam suas máscaras e vivem a plenitude do evangelho, aquela morada na qual eles podem ser quem de fato são.

No Evangelho de João, os discípulos do Batista, na tentativa de conhecer o Mestre de Nazaré, perguntam a ele: “Rabi, onde moras?” (Jo 1,38). E ele responde: “Vinde e vede. E eles foram e ficaram com ele aquele dia (Jo 1,39), diz o evangelista. Certamente Jesus e os discípulos não foram a um lugar geográfico, mas ao coração dos pobres, dos necessitados, dos desprezados; é lá que Jesus fazia morada, é com eles que fazia comunhão.

Ir à morada de Jesus significa entrar na sua intimidade; permanecer com ele significa entrar em comunhão, dividir a vida, partilhar as dores e as alegrias da existência. E, desde então, conta o Quarto Evangelho, aqueles discípulos abandonaram o seguimento do Batista e passaram a seguir Jesus. A experiência de entrar na morada de alguém, no seu mundo, no seu universo, no íntimo do seu coração, torna-os companheiros de jornada, de sonhos, de vida… Amigos que partilham sonhos e segredos. Foi assim com Jesus e os discípulos, chamados – segundo Marcos – não a fazer coisas em primeiro lugar, mas estar com ele; a serem um “com Jesus” (cf. Mc 3,14).

À pergunta onde mora Jesus, em outra passagem, o Evangelista João dá uma boa resposta: “Eu estou no Pai e o Pai está em mim” (Jo 14,10). O lugar de Jesus é o coração do Pai. Daí poder dizer “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).  Mas, apesar de estar no Pai, ele está também em nós. Ele prometeu que ficaria conosco, em nós. Em nossas celebrações, exclamamos: “Ele está no meio de nós!”. Essa expressão significa que Cristo está presente entre nós, mas também que ele está em nós, no coração de cada humano, pois ele assumiu a nossa vida, a nossa carne.

Tendo acolhido sua presença, somos morada de Deus! Da mesma forma que o Pai está em Jesus e Jesus está no Pai, nós estamos em Jesus e Jesus está em nós. Mas, às vezes, temos dificuldade de encontrar o Cristo vivo em nós e o procuramos tão longe… Santo Agostinho fez uma curiosa experiência a esse respeito e escreveu em suas Confissões: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Estavas comigo e não eu contigo. Chamaste por mim e afugentaste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste sobre mim, lançando para longe minha escuridão. Exalaste perfume e respirei. Tocaste-me e ardi por tua paz”. Depois de tantos desencontros, finalmente a volta para casa e o encontro!

Se o lugar de Jesus é no coração de cada ser humano, qual será o lugar do discípulo de Jesus? É em todo coração também! Nosso lugar não é só nossa casa, nossa residência, nosso lar. Nosso lar é o mundo, lá onde estão os irmãos e as irmãs à procura de vida. Como dizia Santa Teresa de Calcutá: “O melhor lugar para as pessoas é onde seus irmãos precisarem delas”. Ou como canta Arnaldo Antunes: “A nossa casa é onde a gente está…”. Tem sempre um coração aberto esperando a gente para o visitar; tem sempre um espaço no nosso coração para o outro fazer morada! Eis um grande e duplo desafio dos cristãos: ter coragem de morar no coração do outro e ter coragem de fazer do nosso coração a morada dele também! Tem sempre uma pessoa querendo ser amada; tem sempre alguém disposto a amar. Basta querer pagar o preço como fez Jesus: dar a vida por aqueles que ama, ou seja por aqueles em cujo coração encontrou morada!


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