Dona Mariana é uma mulher piedosa. Frequentadora assídua da comunidade. Não perde Missa, nem outro evento religioso. Todo dia, lá vai dona Mariana fazer suas orações. Toda a comunidade admira sua piedade e devoção.

Dona Mariana aprendeu desde cedo que faz parte da religião dar esmolas e ajudar os pobres. Por isso, não nega ajuda a quem bate à porta, sempre dizendo: “Quem dá aos pobres, empresta a Deus.” Além disso, Dona Mariana ajuda a creche de sua comunidade e sempre diz que é preciso ajudar os pequeninos de Deus. E assim ela segue sua vida toda confiante, sempre dizendo a todos que é preciso fazer caridade.

Dona Mariana se orgulha muito de sua fé. E acha até que sua fé é bem maior do que a de muitas das suas companheiras de caminhada. Ela não mede esforços para ajudar o pobre. O que não parece ser o mesmo caso de suas amigas.

Dona Mariana acha que é fundamental dar esmolas e auxílio aos pobres. “Afinal, religião é isso!”, sempre diz ela, cheia de orgulho. Sua fé se baseia nisso. Aprendeu isso no catecismo.

Na casa de dona Mariana, além dos 4 filhos, todos já crescidos e formados, mora a Lucineide. Uma moça pobre, lá da roça. Sua mãe e Dona Mariana são comadres e, em nome da fé e da caridade, Dona Mariana recebeu Lucineide em sua casa para estudar. Ela diz a todo mundo que a menina é como se fosse sua filha. Afinal, a caridade cristã ensina isso.

Lucineide lava, passa, cozinha, arranja a casa. Mas, não é uma empregada: não tem carteira assinada, não recebe salário. É um membro da família, mas estuda em escola pública, coisa que os filhos de Dona Mariana nunca fizeram. Ela só tem 13 anos, mas estuda à noite, coisa que as duas filhas de Dona Mariana nunca fizeram, mesmo depois de moças. Dona Mariana achava perigoso. Agora, quanto à Lucineide, diz que não tem perigos e que a vida é mesmo assim. Dona Mariana se gaba de estar fazendo mais essa caridade, afinal ela é muito religiosa.

Cinco anos se passaram e Lucineide se tornou uma moça bonita. Agora completou o segundo grau e passou no vestibular. Saiu da casa de Dona Mariana sem nenhum dinheiro ou indenização. Arranjou um emprego na faculdade, e vai custear seus estudos. Está contente com seus progressos. Mas, Dona Mariana parece não estar muito feliz. Ninguém sabe o porquê. Mas ela fez a uma amiga a seguinte confidência: “Lucineide é uma moça ingrata. Não fosse por causa da minha religião diria que não vale a pena fazer caridade. Veja só! Depois de tudo que fiz por ela, ela me abandona. Não reconhece que sempre fui para ela como uma mãe. Esse povo é mesmo mal agradecido.”


Testemunho anterior:   12. Fazer por fazer
Próximo testemunho:    14. O eterno clamor do coração
Print Friendly
Print this pageShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0Email this to someoneShare on Tumblr0