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1 “Cuidado! Não pratiqueis vossa justiça na frente dos outros, só para serdes notados. De outra forma, não recebereis recompensa do vosso Pai que está nos céus.
2 Por isso, quando deres esmola, não mandes tocar a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos outros. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa.
3 Tu, porém, quando deres esmola, não saiba tua mão esquerda o que faz a direita,
4 de modo que tua esmola fique escondida. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa.
5Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de orar nas sinagogas e nas esquinas das praças, em posição de serem vistos pelos outros. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa.
6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa.
7 Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por força das muitas palavras.
8 Não sejais como eles, pois o vosso Pai sabe do que precisais, antes de vós o pedirdes.
9 Vós, portanto, orai assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, como no céu, assim também na terra.
11 O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.
12 Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem.
13 E não nos introduzas em tentação, mas livra-nos do Maligno.
14 De fato, se vós perdoardes aos outros as suas faltas, vosso Pai que está nos céus também vos perdoará.
15 Mas, se vós não perdoardes aos outros, vosso Pai também não perdoará as vossas faltas.
16 Quando jejuardes, não fiqueis de rosto triste como os hipócritas. Eles desfiguram o rosto, para figurar aos outros que estão jejuando. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa.
17 Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto,
18 para que os outros não vejam que estás jejuando, mas somente teu Pai, que está no escondido. E o teu Pai, que vê no escondido, te dará a recompensa.

Situando

O Mestre Jesus, o novo Moisés, continua ensinando, no alto do monte, à comunidade messiânica reunida em torno dele (o novo Israel de Deus). Seu ensinamento, desta vez, versa sobre a intencionalidade subjacente à prática da esmola, da oração e do jejum, que eram os três pilares da piedade judaica (cf. Dt 15,11) e, por extensão, da comunidade mateana (cf. estudo 2). É nesse contexto que Jesus ensina seus discípulos a orar confiantemente ao Pai.

A verdadeira justiça

Uma advertência inicial – “Cuidado!” – nos coloca perante um risco concreto e atual, que é o de praticar a justiça, ou melhor, o de simularmos ser justos, para obtermos reconhecimento (v. 1a). Conforme vimos nos estudos anteriores, a justiça consiste na obediência à vontade do Pai ou, dito de outro modo, em ajustar-se ao coração benevolente de Deus (cf. estudo 5). No presente contexto, o termo “justiça” designa a genuína piedade, querida pelo Pai, que ama o homem desinteressadamente e espera dele uma gratuidade semelhante. Por isso, quem instrumentalizar a piedade, em quaisquer das suas formas, para passar por justo, não terá a recompensa do Pai. Que recompensa é essa? Nada mais e nada menos que a comunhão com Deus, isto é, a relação íntima e filial com o Pai, que não é fruto do mérito humano, mas puro dom celestial (v. 1b). Mais uma vez, a expressão “céus” é um semitismo, característico de Mt, cuja finalidade é preservar a transcendência do Criador (cf. estudo 8).

Partilhar no segredo

A primeira aplicação do princípio geral enunciado tem por objeto a prática da esmola, à qual a Torah reserva um lugar de destaque: “Uma vez que nunca deixará de haver pobres na terra, eu te dou este mandamento: abre tua mão para teu irmão, teu necessitado, teu pobre em tua terra” (Dt 15,11; cf. Mt 26,11). A expressão inicial – “Uma vez que nunca deixará de haver pobres…” –, longe de legitimar a pobreza, que não é querida por Deus, prescreve a prática perene da solidariedade, que visa salvaguardar a vida do necessitado. Esta, de resto, é tão preciosa aos olhos de Deus, que o próprio Jesus, no Sermão Escatológico, se identifica expressamente com o irmão pobre, estrangeiro ou indigente (cf. Mt 25,31-46). Daí que, ao cumprir tão sagrado mandamento, qualquer discrição é pouca. O discípulo, portanto, quando der esmola, deverá abster-se de fazê-lo ao fragor das trombetas, isto é, de instrumentalizar a esmola para ganhar fama de piedoso, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas (v. 2a). Os hipócritas, na linguagem mateana, são particularmente os escribas e os fariseus (cf. 23,13-36). Mas não só eles. A advertência de Jesus, de fato, também quer falar ao coração da comunidade eclesial mateana, que não está isenta, certamente, de agir com fingimento. A “recompensa” – já sabemos – não é outra senão a comunhão, sempre gratuita, com o Senhor (v. 2b).

Uma conhecida metáfora encerra a instrução comentada: “…não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita…” (v. 3). Ilustra-se, assim, até que ponto é grave a reserva que o Mestre espera, do discípulo, na hora de dar esmola. Esta deve ficar “oculta”, de certo modo, até para quem faz a doação… Não aconteça que o doador se vanglorie nem mesmo interiormente (v.4a). Ao contrário, se fizer sua obra com discrição, Deus, que vê no segredo, visitará seu coração (v. 4b – cf. Mt 5,8).

Orar no segredo

O princípio geral apontado vale também para a oração (cf. Mt 6,1). Por isso, o discípulo, quando orar, evitará reduzir a oração a uma triste paródia. De novo, mediante o termo “hipócritas”, que vem do grego e que significa literalmente “atores”, Jesus alude implicitamente aos fariseus (v. 5). Para ganharem prestígio, de fato, os fariseus gostavam de representar, “nas esquinas das praças”, quer dizer, à vista de todo mundo, o papel de “homem piedoso”. E, por assim orarem, ou melhor, por “fazerem de conta” que oravam, obtinham o reconhecimento do povo, mas privavam-se do fruto da verdadeira oração, que não tem preço, que é o encontro gratuito com o Senhor, que não entra no jogo de representações ou dissimulações mas que é ama a clareza e a transparência.

Em contraposição ao modo de orar dos hipócritas, Jesus convida o discípulo a entrar no próprio quarto, a fechar a porta e, assim, dirigir-se ao Pai, que se faz presente no coração de quem lhe busca sinceramente (v. 6a). Com isso, o Mestre não se opõe à oração comunitária (cf. Mt 18,20); nem incentiva uma oração de tipo intimista, que é aquela de quem, isolado, ou seja, como se de uma “ilha” se tratasse e completamente desvinculado da comunidade de fé, pretende segurar a Deus para si. O que interessa, em definitivo, não é o lugar geográfico onde a oração tem lugar, mas o lugar teológico que a faz acontecer, ou seja, o coração humano sincero e livre à procura de seu Senhor. Se a oração se der no mais íntimo de nós, na mais pura sinceridade, o encontro com Deus acontecerá, seja na solidão do quarto, seja no barulho do ônibus, seja em meio à assembleia. O discípulo, então, não precisará de nenhuma outra recompensa, além da graça desse encontro maravilhoso que faz crescer sua relação filial com Deus (v. 6b).

A seguir, o Mestre rejeita a oração entendida como mero repetir mecânico de fórmulas e palavras. Desta vez, o contraexemplo não são os fariseus, senão os pagãos, que procuravam subjugar a Deus, por força de repetir um palavrório inútil, vazio e pretensamente mágico (v. 7). O Mestre não reprova, de resto, o uso de toda e qualquer fórmula preestabelecida – como é, para dar um exemplo, o caso dos Salmos, dos Hinos ou do próprio Pai-Nosso –, nem a oração insistente; senão o uso supersticioso de fórmulas – quaisquer que estas sejam –, para dominar a Deus. O Pai, por outro lado, bem sabe o que precisamos, que é, fundamentalmente, a força para enfrentarmos os desafios da vida e para nos conformarmos à sua vontade (v. 8).

Chamar a Deus de Pai

Entre a instrução sobre a oração e a referente ao jejum (cf. Mt 6,16-18), o Evangelista insere o Pai-Nosso, que constitui o paradigma da oração dos discípulos. A fórmula de Mt é mais extensa que a de Lc (cf. Lc 11,1-4) e constitui, aliás, a base da versão atualmente recitada pelos cristãos. Em poucas passagens de Mt, o enraizamento judaico do Primeiro Evangelista adquire tanta visibilidade, a tal ponto de poder-se dizer que o Pai-Nosso, particularmente na variante mateana, é a mais judaica de todas as orações cristãs. Nele se condensa, de fato, boa parte da literatura rabínica e veterotestamentária, assim como também da liturgia sinagogal.

Sete petições, das quais as três primeiras se referem a Deus e quatro aos homens, estruturam a oração do Senhor. Convém lembrar, nesse ponto, o valor simbólico dos números no judaísmo (cf. estudo 4). Assim, sete – o número total das petições – simboliza a plenitude; três – o número das preces relativas a Deus –, simboliza o completo e acabado; e quatro – a quantidade de preces referidas ao homem – é o número da Terra (quatro cantos do mundo – pois se pensava que o mundo era um tabuleiro retangular; quatro pontos cardinais; quatro estações do ano), que é a morada do ser humano.

A expressão “Pai no céu”, que inspira a abertura da prece, era utilizada, nos círculos rabínicos, para expressar a tensão existente entre a proximidade e a transcendência do Criador (v. 9a). A paternidade de Deus também foi proclamada pelos autores do AT, que apresentaram a Deus como “pai” do povo da Aliança (cf. Is 64,7; Jr 3,4.19; Dt 32,6) e a este como “filho” de Deus (cf. Os 11,1; Sl 2,7). Contudo, a comunidade dos discípulos percebeu na expressão “Pai”ares de novidade, quando pronunciada por Jesus. De fato, no AT, “pai” era uma metáfora para falar de Deus, que escolheu a Israel como seu povo e dele cuidou, desde então, como um pai cuida de um filho. Mas, para a comunidade eclesial, a palavra “Pai”, na boca de Jesus, revela a realidade mais profunda de Deus e, consequentemente, o nome por excelência do Criador. Trata-se, aliás, de um nome que compromete a quem o pronuncia, uma vez que chamar a Deus de “Pai” supõe ajustar-se à sua vontade e, assim, configurar-se como filho seu (cf. Mt 5,9). Na expressão parece ecoar, de resto, a intimidade e a ternura do “Abba! Pai!” – em aramaico, literalmente, “paizinho” –, com que Jesus se refere a seu Pai no Evangelho de Marcos(cf. Mc 14,36); ou como Paulo na Carta aos Romanos (cf. Rm 8,15) e na Carta aos Gálatas (cf. Gl 4,6).

Os três primeiros pedidos coincidem, no essencial, com um antigo discurso de louvor, conhecido como kaddish e rezado, até hoje, pela comunidade judaica. Mais um sinal das raízes judaicas do Evangelho de Mateus. O Evangelista se vale – como veremos – de três fórmulas distintas para realizar um pedido idêntico. Na primeira, pede-se a santificação do “nome de Deus”, expressão que remete, no fundo, ao próprio Deus (v. 9b). Santificar, por sua vez, significa, neste contexto, reconhecer a santidade do Altíssimo, isto é, a sua soberania e a sua infinita bondade. Pede-se, pois, que a soberania do Pai seja acolhida pelos homens e que Deus, concomitantemente, manifeste seu poder benevolente na História da Salvação. Na segunda fórmula, que esclarece a primeira, pede-se a vinda do Reino, ou melhor, que o Reino – já próximo, presente e operante em Jesus – alcance, como o trigo que amadurece, a sua plenitude (v. 10a). A terceira prece, por fim, sintetiza os dois pedidos precedentes, pedindo que a vontade do Pai se realize, “como no céu, assim também na terra”, isto é, de modo integral e cabal (v. 10b). Note-se a seriedade do pedido, uma vez que, para pronunciá-lo até as últimas consequências, o discípulo deve estar disposto, como Jesus, a referir a própria existência, sem ressalvas, à vontade do Pai. Uma prece assim – é verdade – pode amedrontar… É bom lembrar, por isso, que Deus é um Pai amoroso e, aliás, o manancial da autêntica bem-aventurança. Podemos nos jogar, pois, nos braços desse Pai, na certeza de que ele nos segurará!

As outras petições – conforme foi dito acima – referem-se ao homem que, na sua condição de filho, se reconhece dependente de Deus. A quarta prece tem por objeto “o pão nosso de cada dia”, isto é, o alimento ou sustento cotidiano, que o Pai oferece, todos os dias, através da Criação. Mas, sobretudo, pede-se a Deus o Pão da Palavra, pois, como já fomos advertidos: “Não se vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4 – cf. Dt 8,3; Sb 16,26; estudo 9). A seguir, pede-se o perdão das “nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem” (v. 12). Mediante esta imagem, que voltará a aparecer na parábola do servo cruel (cf. Mt 18,21-35), o discípulo solicita o perdão dos pecados e reconhece, ao mesmo tempo, a estreita vinculação entre o perdão recebido de Deus e o perdão concedido ao irmão. Pois, conforme vimos no discurso das bem-aventuranças, a misericórdia é um caminho de mão dupla, que é preciso percorrer, em ambos os sentidos, para receber o perdão (cf. Mt 5, 7 – estudo 11). Não porque Deus se negue a perdoar a quem não perdoa, mas porque a pessoa incapaz de perdoar o irmão, no fundo, não acredita na misericórdia que Deus lhe oferece, de pura graça, todos os dias. Por fim, pede-se para não ceder às tentações do Maligno, ou seja, do anti-Reino, que não tenta apenas para que tombemos no pecado, mas, sobretudo, para que desanimemos, percamos a fé e recusemos a vontade do Pai. Mas nada de medo! O próprio Jesus, que padeceu, em carne própria, a tentação, caminha conosco e nos dá sua força, isto é, o Espírito de Deus (cf. Mt 4,1-11 –estudo 9).

Uma segunda exortação ao perdão encerra a perícope. De novo, o perdão é apresentado como uma estrada de mão dupla (v. 14-15). Sinal da importância suprema que possui a reconciliação, no coração da Igreja mateana e no seio de cada comunidade eclesial, pois como anunciar a proximidade do Reino quando imperam as magoas e se está dividido por causa do rancor?

Jejuar no segredo

O AT testemunha vastamente a prática do jejum, que aparece associada a diversas motivações e circunstâncias, a saber: ritos fúnebres (cf. 2Sm 12,16), pedido de uma graça (cf. Esd 8,21), celebração penitencial (cf. Ne 9,1) ou perigo iminente (cf. Jt 4,9). A Lei mosaica, no entanto, apenas impunha o jejum uma vez ao ano, na solene festa da Expiação (cf. Lv 16,29). Por vezes, a prática ia acompanhada de sinais visíveis, tais como vestir de saco ou cobrir a cabeça de cinzas, que visavam exteriorizar, perante o Senhor, o desejo sincero de conversão (cf. Jt 4,1-15; Jn 3,5-9). Já no NT, o Lucas nos informa que os fariseus jejuavam, por própria vontade, duas vezes na semana (cf. Lc 18,12). Também os discípulos de João Batista jejuavam, como constatam os três Sinópticos (cf. Mt 9,14; Mc 2,18; Lc 5,33-39). E os discípulos de Jesus? A pergunta formulada pelos seguidores de João resulta esclarecedora:“Por que jejuamos nós e os fariseus, ao passo que os teus discípulos não jejuam?” (Mt 9,14).

Mateus, entretanto, sensível aos costumes da sua comunidade, conserva a prática do jejum, pois, como já vimos, constitui a terceira coluna da piedade judaica. Mesmo assim, os discípulos devem evitar todo sinal externo, para não agir como os hipócritas, isto é, “os fariseus”, que andavam com o rosto triste e desfigurado, não como sinal de conversão, como outrora os ninivitas (cf. Jn 3,5-9), senão para ganharem fama de piedosos. Eles – sentencia o Mestre – já receberam sua recompensa, quer dizer, seu fingimento lhes incapacita para acolher o dom de Deus (v. 16), mas capacita-os a acolher a glória que buscam, os aplausos dos espectadores para quem representam. O seguidor de Jesus, ao contrário, deve perfumar a cabeça e lavar o rosto, ou, em outras palavras, deve fazer o impossível para que a sua piedade permaneça escondida (v. 17). Assim, o Pai, que vê no segredo, achará espaço no coração do discípulo e morará nele (v. 18).

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Partilhar, orar e jejuar no segredo, discretamente, sem ostentar nem instrumentalizar a religião… Eis a orientação fundamental do Senhor quanto à nossa piedade. Assim, poderemos chamar de “Pai” a Deus, que vê no escondido do coração…


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