Falamos no artigo anterior que a morte de Jesus nos redime, ou seja, ela é redentora. Hoje, assumimos isso com tranquilidade e até carregamos uma cruz no peito, como símbolo dessa salvação que ele nos trouxe. Mas não foi assim desde o começo.

A cruz, no tempo de Jesus, era sinal de maldição e vergonha. Morrer na cruz era ter sua vida declarada como maldita, como esquecida de Deus. Por isso foi tão difícil para os primeiros seguidores de Jesus entender que ele os salvava e redimia. A pergunta que não queria calar era: “Como pode um maldito ter se tornado bendito?”, afinal eles experimentavam em suas vidas a presença benfazeja de Jesus ressuscitado, transformando-os desde dentro. Essa questão era tão pungente que o apóstolo Paulo chegou a dizer que sabia que pregava a loucura da cruz, um escândalo para seu povo (cf. 1Cor 1,21-23). Mas, aos poucos, os primeiros cristãos foram interiorizando a morte de seu Mestre na cruz como a expressão máxima da entrega e da fidelidade. E foram percebendo que essa morte tinha um efeito transformador sobre eles. Ela os empurrava para a entrega da própria vida também, como sinal da adesão e da fidelidade ao Nazareno.

Foi assim que surgiram os Evangelhos. Os Evangelistas escreveram uma bela catequese para dizer que Jesus – morto na cruz e aparentemente vencido – é, na verdade, o vivente, o vencedor. O Evangelho de João trabalha esse tema com maestria. Para João, na elevação na cruz – ao ser suspenso no madeiro – Jesus é glorificado. Sua cruz já é sua glorificação, sua vitória, pois ninguém amou como ele, ninguém viveu tão plenamente a comunhão com o Pai como ele o fez.

Daí a importância da cruz para os cristãos ainda hoje. A cruz não é sinal de dolorismo. Não foi pelo tanto que a morte de Jesus doeu que ele nos salvou. Se não tivesse doído nada, ainda assim ele teria nos salvado. Sua cruz não é também sinal de resignação, entrega passiva e frustrada de quem não quer reagir por pura fraqueza. Não! Jesus, apesar de ter sido vítima de um sistema cruel, entregou-se livremente; ele se entregou, ele doou a vida, não a arrancaram dele. A cruz não é também sinal de sadismo divino, como falamos no artigo anterior, até porque o Deus dos cristãos não é sádico, é puro amor. Deus não vingou em Jesus os pecados humanos, descontando nele sua raiva. Deus acolheu a oferta de Jesus na cruz, sua vida entregue agradou o Pai, mas Deus não o matou para ver sangue escorrer e com isso pagar pecados. A cruz não é também sinal de um Deus mágico, podendo ser entendida como gesto que salva automaticamente, descolado de toda a vida de Jesus de Nazaré. Não! Então, o que é a cruz?

A cruz é a consequência de uma vida coerente, entregue em cada pequeno gesto que Jesus fez e em cada palavra que ele disse. A cruz, exatamente porque coroa uma vida de amor e doação, tornou-se redentora. E o que era maldito virou bendito. O que era sinal de asco e repugnância começou a atrair os olhares de todos que se deixaram amar por ele e se colocaram à disposição para também amar. Daí, “o feitiço virou contra o feiticeiro”. Ao condenar Jesus à morte de cruz, a intenção era desacreditá-lo diante dos seus. Mas os seus entenderam que, ao se deixar fazer maldito, toda maldição foi eliminada por Jesus. No amor que emana da cruz, nenhuma maldição resistiu. O amor abençoa e santifica todas as coisas. A fidelidade e a coerência tornam dignas até as coisas mais indignas. E o sofrimento suportado com ternura em favor do outro torna-se redentor. Por isso, podemos dizer sem medo de errar: “A morte de Jesus é redentora!”. Nele fomos salvos; na cruz somos remidos. Do horror do Calvário, uma nova vida se descortina para nós, que cremos. Do Gólgota, desce uma bênção que atinge a humanidade pecadora. E essa boa-nova precisa ser anunciada. Esta é a tarefa da catequese. Muito mais que explicar como Jesus nos salva – apesar de explicar também ser uma coisa importante – mais fundamental é ajudar cada catequizando a se abrir para essa experiência salvífica. Os catequistas devem oferecer aos seus catequizandos oportunidades para experimentar, degustar, provar esse amor misericordioso de Deus, revelado na cruz de Cristo. Quem experimenta tal amor nunca mais é o mesmo. O amor passa a jorrar também de dentro de si, pois o remido vive a comunhão com Aquele que o remiu.


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