“Não pagueis o mal com o mal, antes vence o mal com o bem” (Rm 12,17)

“Se Deus vier, que venha armado”
(Guimarães Rosa)

 

 Tenho ficado escandalizada com o crescimento do moralismo hipócrita de nossa sociedade. Por todo lado nas redes sociais, jovens, adolescentes e tantos outros defendem a barbárie, a famosa lei do “dente por dente, olho por olho” em nome do bem. Símbolo dessa corrente integrista que deseja banir o mal da terra é a imagem que circula a internet de um adolescente infrator, tatuado na testa por um torturador implacável e cruel que teria sido sua vítima. Em vez de educação, cultura, esporte, lazer, direitos humanos em geral, oferecemos àqueles que a vida já puniu com pobreza, discriminação, exclusão e sofrimentos mil, uma tatuagem na testa: “Eu sou ladrão e vacilão”. Uma imagem degradante, reflexo da maldade humana e da síndrome que acomete muita falsa gente boa hoje: um puritanismo farisaico e ridículo que lhes permite estar acima do bem e do mal, fazendo “justiça” com as próprias mãos.

Para completar nosso escândalo – meu e de qualquer pessoa de bom senso –, as redes sociais multiplicaram as justificativas para a atitude do pretenso tatuador. Não faltou quem concordasse e desse seu apoio a esse criminoso em nome da honestidade, da moralidade e da boa ordem social. Um horror! Para quem professa a genuína fé cristã, o escândalo ganha salto exponencial quando esse apoio vem de pessoas que se dizem cristãs. Alguns frequentam igreja, participam do culto católico e usam camiseta com os dizeres “se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Vi até ex-seminaristas se posicionarem favoravelmente a essa crueldade, instrumentalizando a moral cristã para justificar uma faxina social de extermínio dos delinquentes, coisa que daria inveja a Hitler.

A lei de Talião – famosa por permitir vingança – tornou-se “fichinha” para essa gente. O famoso “dente por dente; olho por olho” (Ex 21,23) ficou humilhado diante da crueldade do tal tatuador que, de tatuador, não tem nada, mas, de marginal, tem muito mais que o adolescente assaltante. Convém explicar que a lei de Talião existia exatamente para evitar a barbárie e a vingança desproporcional a um mal recebido. Se uma pessoa furasse o olho da outra, só era permitido ao agredido furar o olho do agressor. Nada mais! Não valia espancá-lo, torturá-lo ou matá-lo. Se alguém quebrasse o dente da outra, não era permitido outra punição a não ser quebrar o dente daquele que o atacou. Nada de violência desproporcional àquela que o feriu. Com a lei de Talião, os povos antigos conseguiram uma ordem mínima para garantir a convivência. Ao olhar, porém, para o adolescente tatuado, salta aos olhos a desproporcionalidade doa desforra. A crueldade humana está estampada em cada letra que foi registrada naquela testa juvenil.

A respeito de pagar o mal com o mal, Jesus, no Evangelho de Mateus, ensina a superação desse princípio de retribuição por meio do perdão e do amor: “Ouvistes o que foi dito ‘dente por dente; olho por olho’. Eu, porém, vos digo: Se alguém te bater numa face, oferece também a outra…” (Mt 5,38). Certamente, o evangelista Mateus não está ensinando sua comunidade a ficar passiva e a sofrer os horrores do opressor sem tentar salvaguardar a própria vida. Não é isso! Ao colocar essas palavras na boca de Jesus no famoso sermão da montanha, Mateus deseja ensinar sua comunidade que o mal só pode ser interrompido com o bem, que a violência só cessará com gestos de paz, que o ódio só terá derrota quando nocauteado pelo amor gratuito e generoso. Assim, quem conhece minimamente o evangelho e se diz cristão não pode apoiar uma crueldade como a citada acima.

Mas não é preciso ser cristão para perceber o absurdo desses grupos integristas, que, em nome da moral, praticam exatamente a imoralidade. Basta ter um coração dentro do peito, em vez de uma pedra, e um pingo de vergonha na cara para admitir as próprias debilidades e infrações. Lamento dizer, mas a tatuagem na testa do adolescente diz mais sobre o pretenso tatuador do que sobre o menor infrator; as postagens de apoio a essa barbárie dizem mais sobre a índole de quem postou que sobre a infância delinquente de nosso país. E confesso: tenho mais medo desse louco justiceiro que do menino delinquente e sinto mais horror dos cristãos que apoiaram essa barbaridade que de muitos menores infratores fazendo arrastão pela cidade. Como disse Guimarães Rosa, a situação não está boa. “Se Deus vier, que venha armado”, não contra os menores infratores certamente (pois desses ele é o advogado), mas contra os maiores não-infratores, aqueles que nunca praticaram uma mínima corrupção, mas são incapazes de amar, a não ser a si mesmos – é claro!


 Crônica anterior:  138. Fogueira das vaidades
Próxima Crônica: 140. Amor iluminado
Print Friendly, PDF & Email