“Vossos olhos se abrirão, e sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5)

” Lugar onde todos têm razão,
Melhor não ter nenhuma”
(Paulo Leminsk)

 

A sabedoria sempre foi alvo dos desejos humanos. A promessa de conhecer todas as coisas seduziu o ser humano nas origens, conta o livro do Gênesis. E foi motivo de queda! Na tentativa de encontrar a sabedoria prometida pela serpente, a mulher perdeu sua dignidade: comprometeu sua relação com Deus, mentiu, seduziu…

Se o desejo de conhecer é legítimo e bom, genuinamente humano, por que Deus teria lançado um interdito sobre o conhecimento, tornando-o um fruto proibido? Por que impedir os homens e as mulheres de terem seus olhos abertos e de conhecer o bem e o mal? Conhecer o bem e o mal certamente não é saber o que presta e o que não presta. É bem mais do que isso. Bem e mal é uma expressão para falar do todo; é um paralelismo antitético, uma expressão de sentido amplo composta pela união de dois contrários. Conhecer o bem e mal (Gn 3,5), poder entrar e sair do pátio das ovelhas (Jo 10,9), criar o céu e a terra (Gn 2,4): paralelismos presentes na Escritura Sagrada para falar da totalidade das coisas.

Certamente, quando a bíblia fala do conhecimento do bem e do mal como queda não se refere ao conhecimento científico, como se Deus e a religião fossem contrários à razão, à ciência e ao desenvolvimento humano; como se a relação com Deus fosse resultado de uma obediência cega e absurda a ele, limitando-nos de pensar a fé. Também quando o livro do Gênesis diz do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal como um interdito não se refere à sexualidade humana, dom de Deus, fonte de prazer e de vida. Equivocadamente interpretado assim, uma maçã mordida tornou-se símbolo da libido e dos desejos sexuais. Não convém ler a Escritura a partir de nossos tabus e de nossa imaginação equivocada graças à cultura midiática.

A árvore do conhecimento do bem e do mal deve ser entendida em paralelo com a árvore da vida. Se esta é, para o judeu, o símbolo da Torah, a Palavra que Deus deu a seu povo para iluminar seus caminhos; aquela é o símbolo da nossa cabeça maluca que se imagina capaz de encontrar o caminho da vida sem precisar dele. “Sereis como deuses”, disse a serpente – aliás também um símbolo, é claro, pois a não ser nas fábulas os animais falam. A serpente, que não é o diabo mas um símbolo das religiões politeístas, especialmente do baalismo – religião dos povos de Canaã –, tenta convencer a mulher que ela não precisa de Deus e pode confiar em si mesma. Ela pode viver de sua própria sabedoria; pode fiar-se em suas próprias intuições; pode ser juiz de todas as coisas e pessoas; ela está acima do bem e do mal; tornou-se conhecedora do bem e do mal, ou seja, apropriou-se da verdade. Nada mais inverdadeiro e perigoso! Nada mais astuto e ardiloso poderia oferecer a serpente à mulher. E a mulher, que buscava ser dona da verdade, tornou-se prisioneira de uma mentira. Depois ainda difundiu sua experiência para seu companheiro que “caiu no conto do vigário’.

Antes que alguma feminista me mate por causa da afirmação acerca da mulher que comeu o fruto, achando-me totalmente machista e arcaica, como se eu compartilhasse da exegese absurda de que a mulher é a culpada pelo pecado, peço licença para mais uma explicação. A mulher não é Eva, uma mulher de carne e osso, mas o símbolo do feminino que – no tempo do escritor sagrado – era entendida como aquela que seduzia os varões israelitas para o mundo do politeísmo (como as mulheres estrangeiras haviam feito com Salomão). Simples assim: nada de Eva, nem de Adão. A mulher das origens significa a força feminina capaz de estragar os planos varonis do mundo judaico.

E não foi só a mulher do relato das origens que “trocou os pés pelas mãos” em busca do conhecimento. Ainda hoje, muitos têm vendido a alma por causa dele ou comprado brigas sem seu nome. As redes sociais têm nos mostrado como, em tempo de pluralidade, ainda há quem se ache – até mesmo em nome da fé cristã – sabedor de tudo, capaz de discernir todos os eventos e emitir juízo de valores sobre todos os pobres mortais: homossexuais vão para o inferno, casais de nova união estão em pecado, o papa é um herege, todo mundo que defende os pobres é marxista… São os super-cristãos! Basta ter lido um ou dois documentos de Igreja, um ou outro filósofo, ou saber de cor meia dúzia de versículos da bíblia para ser doutor em teologia e sabedor das coisas de Deus. Preocupante isso! O fruto do conhecimento do bem e do mal continua nos seduzindo e nos prometendo o mesmo que prometera à mulher: “Sereis deuses!”.

Ando evitando algumas discussões na internet; detesto discussão especialmente teológica, não por falta de conhecimento do assunto, mas porque sei que amar é mais importante que bater boca. Mas, vez ou outra, caio na esparrela de responder algum comentário maldoso ou uma postagem que me parece muito equivocada nas redes sociais. Pra que, meu Deus? Se eu ouvisse o conselho de Paulo Leminsk, “lugar onde todos têm razão, melhor não ter nenhuma”, evitaria desgastes.

As redes sociais, como dizia Humberto Eco, deram voz à imbecilidade, antes reservada às conversas de botequins e a grupos restritos. Se por um lado a oportunidade de falar foi popularizada e democratizada, por outro dá até aflição ler tanta besteira. As imbecilidades se multiplicam com estatuto de ciência e conhecimento. Nem bem a pessoa chegou perto do fruto, já se sente dona da árvore inteira. Não entendeu que a posse do conhecimento é mera ilusão. Na metáfora do Gênesis, é exatamente na hora que se come do fruto do conhecimento do bem e do mal que a mulher e o homem experimentam sua nudez e precisam de folhas de figueira par se proteger. O conhecimento protetor não veio como prometido pela serpente; e os primeiros pais vão ter de se contentar com frágeis folhinhas de figueira, que em um momento estão viçosas, mas logo depois estarão secas e não cumprirão mais sua função. Em outras palavras, o autor sagrado teria dito: “Não se iluda, coração. O conhecimento não é posse de ninguém; é exercício de procura e escuta para a vida toda!”. Não quero dizer como alguns, “a bíblia tinha razão”, mas uma boa leitura da Escritura poderia evitar posturas bem equivocadas e discussões inúteis, eliminando – pelo menos no meio cristão – a famosa fogueira das vaidades.


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