“Pode a mãe esquecer o seu filho?” (Is 40,15)

“Era tarde de maio,
as roseiras estavam brancas em flor,
na cozinha preparava-se chá de sabugueiro,
minha mãe era viva,
e eu, mesmo com tosse, era feliz”
(Diego Lellis)

 

Dizem acerca de quem é bondoso que tem coração de mãe. Sobre o amor dela, afirmam que não há igual… Dom Helder Câmara, sempre sábio, disse que as mães são “sócias de Deus”. De fato, é no colo delas que normalmente fazemos as primeiras experiências de Deus, que é amor. A sua cantiga de ninar fez nosso choro soluçado cessar e a sensação de segurança voltou. No cheiro dela, retornamos ao abrigo do útero e nos sentimos protegidos outra vez. Passamos mais ou menos nove meses lá e fomos amados antes de vir à luz. Não é à toa que o amor de Deus é comparado ao amor maternal. Gerados no seu ventre, não podemos viver sem ele. Como uma mãe não se esquece de um filho, o Senhor não se esquece de seu povo, disse Isaías (cf. 49,15).

Sabendo, porém, dos limites do amor humano, mesmo o amor de mãe, o profeta completou: “Ainda que ela se esquecesse do filho que amamenta, do fruto das suas entranhas, Deus nunca se esquecerá de nós (cf. Is 49,15). É o caso de filhos que foram deixados por suas mães – e certamente não é falta de amor, mas de condições físicas, psíquicas, sociais e econômicas para criá-los – e, longe do aconchego maternal, fizeram a experiência do amor de Deus em outros braços: nos braços da avó, de uma tia, de uma irmã mais velha ou até de uma mãe antes desconhecida que o gerou nas entranhas do coração.

Esse negócio de ser gerado no coração é muito bíblico. Estudando os Atos dos Apóstolos com meus alunos, tenho dito a eles que Lucas – autor de Atos – percebeu claramente que a circuncisão (aquela marca feita na glande do pênis do garoto judeu, significando a pertença ao seu povo e, por sua vez, ao Deus de Israel) não era mais nas partes íntimas do corpo, mas na intimidade do coração. Desde Ezequiel, alimentava-se a promessa que Deus daria um novo espírito à sua gente. Esse inscreveria a sua lei em seus corações. Não mais na pedra; não mais nos papiros e pergaminhos sagrados, mas na intimidade sagrada dos corações reverentes.

Outro dia, tive a alegria de assistir um filme, desses raros que valem mesmo a pena. Recomendo! É Lion, uma jornada para casa. O filme é todo sensibilidade e ternura, apesar da dor que escapa de cada cena. Uma criança de cinco anos se perde de sua família e é adotada por um casal irlandês. Lion não encontra porto seguro na sua trajetória existencial enquanto não refaz o caminho de casa. Mas esse itinerário tem um preço de crises com a família que o gerou nas entranhas do coração. E, conversando com sua mãe adotiva sobre seus dramas, o jovem que se procura diz mais ou menos assim: “Eu sinto muito por você não ter podido gerar filhos e ter adotado”. Ela lhe responde: “Quem disse que eu não posso ter filhos? Eu e seu pai escolhemos ter você e seu irmão (também adotado). Eu poderia ter engravidado, mas escolhi amar você. Eu te gerei no meu ventre pelo desejo de ter-te comigo. Eu sou sua mãe”.

É quase impossível ouvir isso e não se derreter em lágrimas no cinema. Lion prossegui sua jornada de volta para casa, no desejo de se reconhecer, de saber quem era. Ele reencontrou sua mãe biológica e refez sua vida com os cacos que sobraram. Mas, ao sair do cinema, fiquei me perguntando se Lion, um retorno para casa era a casa materna da mãe biológica ou a casa materna da mãe adotiva que o fez ser de fato quem era. Ao procurar suas origens, Lion encontrou bem mais que a peça que faltava na sua história. Encontrou no amor da mãe adotiva o útero sagrado que lhe parecia faltar. Na minha opinião, não há amor mais desinteressado e belo que o amor dos pais adotivos. É um amor desinteressado. A ausência dos laços sanguíneos – que faz a gente proteger os nossos – dá um caráter especial de gratuidade a essa relação.

Se o amor de Deus pode ser comparado ao amor de mãe, atrevo-me a compará-lo ao amor de uma mãe adotiva. Nós – que não somos filhos de Deus por natureza, pois só Jesus é de natureza divina – fomos adotados em Cristo. Somos, como costuma dizer a teologia, filhos no Filho, adotados em Cristo no amor maternal de Deus. Certos que ele não nos esquece, não nos abandona mesmo nas intempéries da vida, podemos dizer “minha mãe era viva, mesmo com tosse eu era feliz”.


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