“Um broto vai surgir do tronco seco, das velhas raízes um ramo brotará” (Is 11,1).

“Há que se cuidar do broto
para que a vida nos dê flor e fruto”
(Milton Nascimento e Wagner Tiso)

Celebrando a Ressurreição de Jesus, somos convidados a fazer a experiência da vida nova que sua presença produz em nossa vida. Aliás, páscoa é passagem. Passagem da morte para a vida, das trevas para a luz. É uma renovação que acontece no intimo de cada pessoa.

Ainda que pareça que tudo está perdido, não podemos permitir que nos roubem a esperança. Precisamos estar abertos às surpresas de Deus, Ele sempre nos surpreende. Mesmo quando parece que não há mais saída, mesmo quando tudo parece estar perdido, ainda assim podemos ser surpreendidos por algo novo e belo. Ainda que pareça tudo escuro, ainda que pareça que a noite não mais terá fim, a esperança cristã nos faz exclamar com o poeta Thiago de Melo: “Faz escuro, mas eu canto!”. Na verdade, quando a noite parece estar mais escura, é sinal de que o romper de um novo dia se aproxima.

No coração do ser humano existe sempre uma centelha de esperança. Gosto muito de um pequeno refrão que diz: “Do tronco da vida, mesmo ferida, surge uma flor, rindo da dor!”.  É maravilhoso imaginar essa cena! Aliás, o profeta Isaías disse algo parecido com isso: “Um broto vai surgir do tronco seco, das velhas raízes um ramo brotará” (Is 11,1). Na realidade, cada um de nós pode se identificar com essa passagem da profecia de Isaías, cada um de nós, em algum momento, pode ter vivido essa experiência de se sentir um tronco seco, sem vida, do qual não se esperava mais nada. No entanto, desse tronco aparentemente morto, algo de novo brotou e aqui estamos prontos para recomeçar. A esperança persiste e mostra que não é vã, quando vemos a vida renascer das cinzas!

“Esperançar” é um neologismo que uma grande amiga partilhou comigo e que achei muito significativo e belo. Esperançar é diferente de esperar. É ir em busca de algo. Esperar remete ao sossego; enquanto, esperançar nos lança para frente, nos impulsiona a sair de nosso comodismo, a ir em busca de nosso “eu maior” para que assim, possamos ver brotar como dom generoso o bem que foi semeado. Esperançar pelo surgimento de um broto novo no tronco seco de nossa existência é atitude que exige de nós cultivo e paciência. Porém, como poetizou Milton Nascimento na canção Coração de estudante: “Há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor e fruto”. Se quisermos ver o surgimento dessa vida nova em nós, precisaremos antes aprender a cultivar a paciência. O broto surge quando menos esperamos e ele nos surpreende.

Além do mais, não realizamos esse processo sozinho. É o próprio Cristo ressuscitado que, qual um jardineiro, cultiva a terra de nosso coração. Ele é a água viva que encharca o chão da nossa vida.“Banhados em Cristo, somos uma nova criatura” – assim costumamos cantar em algumas das celebrações da Páscoa, transformando em poesia a teologia do apóstolo Paulo (2Cor 5,17). O Ressuscitado é a sua luz que ilumina as raízes do tronco seco de nossa existência. O Sol divino traz novas colorações para a nossa existência. A sua Palavra é sopro; é força que nos faz viver, que traz vigor. O encontro com o Ressuscitado nos fecunda; faz de nós pessoas renovadas e plenas de vida.

O filme A cabana, baseado na obra homônima do autor Willian P. Young, apresenta de maneira muito bela o interior do ser humano. Nossa interioridade é comparada com um jardim selvagem; bela mas muitas vezes confusa por causa da quantidade de coisas que vamos permitindo ficar acumuladas em nosso interior: raiva, ódio, traumas mau resolvidos, feridas não cicatrizadas. No filme, o Espírito Santo, que recebeu o nome de Sarayu, ajuda o ser humano nesse processo constante de cultivar o jardim da interioridade.

O encontro com o Ressuscitado nos leva a esperançar pelo irrompimento da vida nova em nós. É impossível que essa experiência não traga novo vigor à nossa vida e nos transforme. Mas para que essa transformação aconteça, é preciso ter a coragem das estrelas… Anoitecer, para inaugurar o dia!


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