“Mulheres, não choreis por mim, mas por vós mesmas e por vossos filhos” (Lc 23,28)

“Mirem-se no exemplo
daquelas mulheres de Atenas…
(Chico Buarque)

No horário em que faço atividades físicas, geralmente, me encontro mais com mulheres do que com homens. Ouço, com frequência, as queixas contra o período pré-menstrual, sobre as agruras de ser mãe, sobre as incompreensibilidades dos maridos, as exigências e pressões familiares, as pressões internas. Nada é pesado demais, porque os desabafos são acompanhados de boas risadas e muita endorfina. No fim, a conclusão é quase sempre a mesma: ser mulher é muito mais difícil que ser homem. Eu, que não sou nenhum imbecil, fico calado e por vezes dou meu assentimento. Não sou doido nem nada, afinal, ali, sou minoria.

Jamais terei condições de medir as tristezas e alegrias de ser mulher, mas acho justo respeitar tais dores. O corpo feminino é diferente do corpo masculino e muito mais complexo. Sei que TPM não é frescura; entendo também que carregar um outro ser no ventre, pari-lo e criá-lo é algo tão dadivoso, mas igualmente custoso, sofrível.  Mas não se pode esquecer também que a maior parte das diferenças entre os sexos, que a nossa cultura faz prevalecer, não passam justamente disso: de invenções culturais, de tipificações de gênero históricas. “Mulher é mais sensível, homem mais rude”. “Mulher é mais delicada”. “Mulher repara mais”. “Mulher é mais emotiva”. E vêm com aquelas inúmeras justificativas de base biológica, sobre lóbulos e funcionamento cerebral. Essas diferenças não são marcas que separam homens e mulheres em dois grupos distintos. Mas é difícil convencer sobre isso, porque aprendemos que mulher é assim, homem assado. E depois de termos instituído esse padrão, se um pai vê um filho mais delicado que prefere ficar debaixo de uma árvore e ler um livro, ao invés de pescar com o resto da macharada, logo pensa que algo não vai bem na sexualidade do filho. Ou quando uma mulher diz que não quer casar nem ter filhos: quanto preconceito ela enfrenta! Biologia e Cultura estão muito entrelaçadas não só para falar de homens e mulheres, mas para falar de indivíduos, em particular.

Não acho que precisamos fazer um “campeonato de perrengue” para disputar o pódio das desgraças na vida. No fundo, reconheço que há alegrias e tristezas para cada sujeito; algumas nascem do próprio fato de ser quem são (inclusive do fato de serem um corpo), outras nascem da cultura e suas exigências. E nós jamais poderemos medir com certeza quem sofre mais ou menos, pois a vivência interna do outro é sempre do outro e, no seu conteúdo mais ímpar, é sempre incomunicável. Não obstante essa dificuldade de comunicação originária das vivências mais particulares, é insensibilidade renunciar à verdade de uma lágrima, ao realismo de uma angústia que engasga, ao desespero que faz tremer as mãos e a voz. Não podemos escamotear o sofrimento de centenas de milhares de mulheres.

Embora a palavra empoderamento tenha caído nas graças do senso comum, nas conversas mais cotidianas, ainda falta muito para vermos essa realidade. Quantas mulheres se encontram em situação de vítima de violência sexual, moral, psicológica e física? Os estudos de vitimologia revelam que há recompensas para que muitas permaneçam nessas situações, mas quantas delas aprenderam que deviam resistir e suportar? Aprenderam que homem é assim mesmo…  Que eles são meio animais mesmo, um tanto selvagens e elas, pobres presas, indefesas, deveriam aguentar tudo. São muitas as que tentam salvar relações falidas, sozinhas… São inúmeras as que suportam ser traídas não só uma, mas várias vezes e disfarçam entre lágrimas um discurso de perdão. Não são poucas as que toleram agressões porque viram suas mães e suas avós aguentarem. Nesse sentido, parem para perceber a tolice da palavra “abuso”. Com ela supomos um limite para as violências, como se disséssemos que até certo ponto é possível ir e que, passando desse limiar, aí sim tivesse ocorrido o abuso. A palavra dá ideia de exceder. A palavra certa, ao contrário, é esta mesma: violência (!), como já se deu conta o Direito. E essa não é apenas uma mudança semântica, mas uma mudança de consciência.

Por outro lado, há finalmente muitas mulheres dando voz a outras. Denunciando o que muitos defendem ser apenas brincadeiras. Além disso, ainda hoje há quem ridicularize os ganhos tão sacrificantes dos Direitos Humanos, se referindo a eles como banalidades e trivialidades. Supõem haver muito exagero nisso tudo… Quantos homens dizem que agora não é possível sequer uma cantada, um affair, um joguete amoroso, pois tudo pode ser visto como assédio? Ora, as conquistas podem se dar sem o desrespeito de invadir espaços, sem insistências de quem não sabe reconhecer um não, com honestidade e coragem, ao invés dessa covardia de se esconder por trás dos clichês de “macho alfa e pegador”… As relações, para acontecerem, exigem respeito. Não é feminismo; é reconhecer que não há prevalência de um sexo sobre o outro, que não há um sexo forte e um sexo frágil, que todas essas imbecilidades não são mais do que o resultado de uma história de opressões e de violências e que o encontro entre homem e mulher pode ser um encontro de ternura e desejo, e não um abate de uma fera sobre sua presa.

Mulheres sofrem mesmo. Sofrem, porque há homens que não as respeitam. Sofrem, porque se encontram com o machismo, com o humor acrítico, com a opressão silenciosa de uma cultura só falsamente aberta. Os homens não são mais que as mulheres, nem vice-versa. Se quiserem, uns podem aprender muito com os outros, especialmente, ao perceberem que nossas alegrias e tristezas podem ser partilhadas.


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