A liturgia deste trigésimo domingo do tempo comum propõe a leitura da conhecida parábola do fariseu e o publicano – Lc 18,9-14 – um texto exclusivo do Evangelho segundo Lucas, inserido no contexto do longo caminho de Jesus em direção à cidade de Jerusalém (Lc 9,51 – 19,27). Como temos repetido, esta seção narrativa do caminho reúne os principais ensinamentos de Jesus ao seu discipulado, dentro da dinâmica do evangelista Lucas. E dentre os principais ensinamentos de Jesus está, obviamente, a oração, tema central do capítulo dezoito de Lucas, tratado em duas parábolas: a primeira, do juiz injusto e a viúva insistente (vv. 1-8), foi lida no domingo passado, e a segunda, do fariseu e o publicano (vv. 9-14), corresponde ao evangelho de hoje. Embora esse tema receba um destaque especial no capítulo dezoito, é importante recordar que a oração é um dos temais principais de todo o Evangelho de Lucas.

Convém recordar que Lucas apresenta, entre o batismo e a paixão, sete momentos de Jesus rezando/orando (cf. 3,21; 5,16; 6,12; 9,28-29; 11,1; 22,41). Considerando a simbologia do número sete como perfeição e totalidade, e o batismo e a paixão como início e conclusão do ministério, Lucas quer mostrar que toda a vida de Jesus foi marcada e conduzida pela oração, pela intimidade com o Pai. Ora, se toda a vida de Jesus foi marcada pela oração, obviamente, também a vida dos seus discípulos e discípulas deve ser. Por isso, a insistência com o tema. É importante, no entanto, não considerar a oração como algo isolado na vida de uma pessoa, mas relacionada com as concepções e atitudes de cada um/a, sobretudo a maneira de relacionar-se com Deus e o próximo. Uma imagem distorcida de Deus leva o ser humano a atitudes reprováveis, como o orgulho, a prepotência e o desprezo pelo próximo, como denuncia a parábola de hoje.

Olhemos, então, para o texto que possui dois versículos introdutórios, ambos muito importantes. Sem compreendê-los bem, logo, a compreensão de toda a parábola estará comprometida. Eis o primeiro: “Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros:” (v. 9). Esse versículo é extremamente importante, sobretudo no que diz respeito aos destinatários da parábola. Ora, é muito comum lermos nos evangelhos, incluindo o de Lucas, fórmulas introdutórias aos ensinamentos de Jesus como “Jesus contou aos discípulos”, “Jesus disse às multidões”, “Jesus contou aos fariseus”, etc. A maneira como Lucas introduz a parábola de hoje chega a ser surpreendente pela abrangência, sobretudo; não é dirigida a um grupo específico, mas a todas as pessoas que se comportam da maneira descrita, ou seja, “a quem confia na própria justiça e despreza os outros”, independentemente do grupo religioso e da condição social de pertença.

Pelo conteúdo da parábola, muitos leitores, precipitadamente, imaginam logo que os destinatários sejam os fariseus. Porém, como a parábola anterior (lida no domingo passado) dizia claramente que os destinatários eram os discípulos, e essa de hoje é praticamente a continuação daquela, podemos concluir que também essa tem como destinatários principais e primeiros os próprios discípulos que insistiam em não assimilar o que Jesus ensinava. Ora, julgar o próximo e considerar-se justo é uma tendência comum nos seres humanos e que, no entanto, deve ser combatida com veemência, sobretudo entre os seguidores de Jesus. O evangelista se preocupa com o presente das suas comunidades e o futuro de todo o cristianismo. Mais do que o desânimo, consequência das perseguições externas, tendência combatida pelo evangelista com a parábola do juiz injusto e a viúva insistente (evangelho do domingo passado), o que mais ameaçava a vida interna das comunidades era a arrogância de alguns membros que se consideravam justos e irrepreensíveis, pessoas que se achavam perfeitas e santas. E a primeira tendência de quem se considera perfeito é desprezar quem não se comporta da mesma maneira. O desprezo pelos outros, portanto, é consequência do sentir-se justo e, obviamente, de uma imagem errada de Deus. Com certeza, ainda hoje, há muitas pessoas nas comunidades e movimentos cristãos com essa tendência, e é exatamente isso que faz desta parábola uma das mais atuais de todo o Novo Testamento.

O segundo versículo introdutório também é muito importante, pois já nos insere no conteúdo mesmo da parábola, com a apresentação dos personagens e do cenário: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos” (v. 10). Considerando a primeira parte do versículo, não vemos nada de surpreendente: sendo o templo a casa de oração, por excelência, é muito comum o fato de dois homens subirem até lá para rezar. Aqui, o verbo subir (em grego: άναβαίνω – anabaíno) tem o mesmo sentido que dirigir-se ou entrar; é o verbo que os judeus empregavam com orgulho para expressar a ida ou a entrada, tanto no Templo quanto na cidade de Jerusalém. Ora, estando Deus nos céus, ou seja, nas alturas, como imaginavam os judeus, o encontro com Ele exigia do ser humano um movimento para cima, e a localização elevada da cidade de Jerusalém e do templo, especialmente, favoreciam esse movimento. A surpresa surge na apresentação dos personagens. É típico de Lucas apresentar dois personagens juntos, mas com características opostas; aplicando a técnica retórica chamada de paralelismo antitético. Um fariseu e um publicano constituíam os pólos opostos da sociedade palestinense da época de Jesus, principalmente no âmbito religioso.

O fariseu era símbolo de religiosidade e vida impecável. Embora os evangelhos apresentem os fariseus com traços bastante negativos, a ponto de os associarem de imediato à hipocrisia, na verdade eles constituíam a classe das pessoas mais respeitadas na época. Pela observância minuciosa da Lei e pelas boas obras que cumpriam, eles gozavam da simpatia popular, principalmente pela vida exemplar que levavam. Já o cobrador de impostos, pelo contrário, gozava de uma péssima reputação. Conhecidos também como publicanos, os cobradores de impostos eram colaboradores diretos do poder opressor, o império romano. Além das altas taxas exigidas pelo império, eles ainda cobravam grandes proporções a mais, enriquecendo ilicitamente às custas do povo mais pobre, principalmente; além do salário, ainda retinham para si o que cobravam em excesso. Por isso, eram odiados pelo povo e totalmente excluídos da religião, pois a condição de servidores do poder dominante não permitia que observassem a Lei. A oração do fariseu, no versículo seguinte, deixa bastante clara a má reputação do cobrador de impostos: é o último dos últimos, em termos de prestígio social e religioso, considerado pior que “os ladrões, desonestos e adúlteros” (v. 11). Portanto, Jesus escolheu, aqui, um personagem símbolo de perfeição (o fariseu) e outro símbolo de degradação moral (o cobrador de impostos) para contrapô-los e alertar os cristãos sobre o perigo de sentir-se superior aos demais.

A parábola não se limita a dizer que os dois subiram para orar, mas mostra também o conteúdo da oração de cada um; e é esse conteúdo o que vai determinar o desfecho da história. Primeiro, é descrita a oração do fariseu: “O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos” (v. 11). Como se vê, a oração do fariseu é toda voltada a si mesmo; ele não agradece pelo que Deus faz em sua vida, mas pelo que ele mesmo faz, considerando-se superior e demonstrando total desprezo pelas demais pessoas. Sua oração é um louvor a si próprio. Ao invés de confrontar sua vida com o projeto de Deus, ele a compara à vida dos outros. Na verdade, ele considera Deus um mero contador, a quem apresenta as boas obras e recebe créditos em troca. Para provar que era um homem “acima da média”, ele elenca suas vantagens: “Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dizimo de toda a minha renda” (v. 12). Ora, a Lei exigia o jejum apenas uma vez ao ano, no chamado “dia da expiação” (cf. Lv 16,29); os judeus mais devotos, no entanto, como este fariseu, jejuavam duas vezes por semana, nas segundas e quintas-feiras, em alusão à subida e à descida de Moisés ao monte para receber a Lei, imaginando que com esta prática acumulariam créditos diante de Deus. Quanto ao dízimo, a Lei exigia apenas dos produtos principais: do trigo, do vinho, do azeite e das primeiras crias do rebanho (cf. Dt 14,22-27), enquanto este fariseu dava o dízimo de tudo. Em sua oração, portanto, o fariseu não fez mais que uma prestação de contas a Deus.

Já a descrição da oração do cobrador de impostos revela a postura de uma pessoa sincera, que tem consciência da sua condição de pecador: “O cobrador de impostos, porém, ficou à distância e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ (v. 13). Antes de tudo, vale ressaltar a coragem deste cobrador de impostos; ora, como pecador público, ele foi ousado ao entrar no templo, pois sabia que seria observado pelas pessoas e até julgado e escarnecido, como foi pelo fariseu em sua oração: “não sou como este cobrador de impostos” (v. 11). O reconhecimento da condição de pecador é evidenciado pela postura e as palavras do cobrador de impostos. Sobre a postura: ficou à distância e sem coragem de levantar os olhos para o céu, e batia no peito, em sinal de penitência e arrependimento; sobre as palavras: expressam a oração dos humildes de Deus – ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ – uma fórmula bastante repetida nos salmos penitenciais (cf. Sl 25,11; 51,13; etc). Somente quem é humilde reconhece a necessidade de Deus em sua vida.

A parábola é concluída com uma declaração s0lene e surpreendente de Jesus: “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e que se humilha será elevado” (v. 14). A fórmula solene “eu vos digo” (em grego: λέγω ύμιν – lêgô himin) antecede sempre um ensinamento importante e definitivo, algo irrevogável, como é o desfecho desta parábola. Isso significa que se trata de algo muito importante para a comunidade cristã. A surpresa é que o cobrador de impostos foi justificado e o fariseu não. Ser justificado significa ser reconciliado com e por Deus e admitido à salvação; e isso não se dá por méritos pessoais, mas pela gratuidade do amor de Deus. Voltado para si e para os seus méritos, o fariseu não se abriu à misericórdia de Deus. O cobrador de impostos, pelo contrário, reconhecendo sua condição de pecador, suplicou o perdão de Deus e recebeu justiça. E a justiça de Deus, que não é retributiva, está à disposição de quem necessita e a busca de coração sincero. A frase final é um provérbio, usado por Lucas em outras duas ocasiões (cf. Lc 14,11; 18,14), que expressa a lógica contraditória do Reino, um tema tratado por Lucas desde o início do seu evangelho, no Magnificat: “dispersou os orgulhosos, aos humildes exaltou” (Lc 1,51b.52b).

À guisa de conclusão, convém recordar alguns elementos: Jesus não declarou que o fariseu é uma má pessoa, muito menos reprovou a sua fidelidade à Lei; porém, condenou a sua postura egoísta, a sua autossuficiência e o seu desprezo pelos demais como consequência de uma visão distorcida de Deus. Sendo o fariseu a imagem mais expressiva de uma pessoa religiosa na época, Jesus quis alertar os seus seguidores, de outrora e de sempre, que as pessoas religiosas demais são as que mais tendem a distorcer a imagem de Deus. Por outro lado, Jesus não apresentou o cobrador de impostos como um exemplo de comportamento para os seus discípulos imitarem; não resta dúvidas, inclusive, de que Jesus condenava a exploração dos cobradores de impostos e a contribuição que davam ao sistema opressor, o império romano; Jesus apenas mostrou que a sua atitude humilde, reconhecendo seus limites e sua condição de pecador, foram determinantes para receber a justiça de Deus. O ensinamento geral da parábola é uma denúncia clara a qualquer pessoa que se sente justa e despreza os demais. Há pessoas prepotentes em todos os lugares; porém, o lugar mais inapropriado para estas pessoas estarem é a comunidade cristã.


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