“És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”
(Mt 11,3)

“Cure o mundo! Faça dele um lugar melhor!”
(Michael Jackson, tradução de Heal the World)

Como se faz para reconhecer Jesus como o messias? Isso não é uma coisa fácil hoje e também não o era na época em que Jesus caminhava por aqui. Jesus não corresponde aos padrões humanos de desejo e poder! Nestes tempos litúrgicos, em plena Semana Santa, quando caminhamos com um condenado rumo ao Calvário, fica ainda mais difícil encontrar algo de humanamente grandioso em Jesus para reconhecê-lo como aquele que nos liberta.

João Batista, que – em Mateus – havia indicado Jesus como o messias esperado (Mt 3,14), alguns capítulos depois desse reconhecimento, manda seus discípulos perguntar a Jesus se de fato ele era o Messias (Mt 11,2-15). Será que João Batista tinha idealizado um messias a seu modo, que usasse roupa de pelos de camelo e um cinturão de couro ao redor dos rins, que comesse gafanhotos e mel silvestre (Mt 3,4), como ele próprio fazia? Jesus não é assim: ele não usa esse estilo de roupas e vive comendo na casa dos amigos, alguns deles de conduta questionável inclusive. João Batista pedia conversão através da confissão dos pecados, enquanto Jesus o faz através do encontro que realiza com cada pessoa. Quem conhece Jesus não consegue mais ser o mesmo. Enfim, se João Batista idealizou seu messias em Jesus, esse foi um banho de água fria! E agora? O que fazer quando não conseguimos reconhecer Jesus como messias? O que fazer quando o messias real não corresponde ao messias idealizado? Criamos um leito de Procusto?[1]

Jesus poderia ter dito diretamente e com muita segurança: “Sim. Sou eu o messias”. Mas não. Ele prefere apontar para o que todos tinham sob os olhos: “Ide contar a João o que ouvis e vedes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados!” (Mt 11,4-5). Jesus responde a João não falando de si, mas falando do bem realizado à humanidade. Ele não nega as realidades que as pessoas vivem, mas enxerga cada um com todo o potencial que tem. Seu olhar sobre a humanidade é pura esperança.

A esperança é uma virtude exaltada para além das fronteiras do cristianismo. Seu valor é universal. Quem não conhece a música Heal the World (Cure o mundo), de Michael Jackson, que nos convida a enxergar com olhos plenos de esperança? Quando a esperança invade nosso coração, nós paramos de sobreviver e começamos a viver. Eis como podemos reconhecer a presença de Jesus-messias em nós: quando pudermos ver a nossa sofrida realidade, mas sem perder a esperança; quando conseguirmos olhar as pessoas em suas necessidades e acreditarmos que elas podem ser diferentes; quando a nossa realidade, por mais desanimadora que seja, não nos comunicar desespero, mas a esperança que vem da fé. Em tempos de tanta decepção, de tanta violência e de tantos absurdos, é preciso acreditar que a esperança cura o mundo, faz dele um lugar melhor para toda a humanidade. “As armas se transformarão em arados” (Is 2,4), disse o profeta Isaías. “Amanhã vai ser outro dia!”, cantou Chico Buarque cheio de esperança em tempos de ditadura. Sempre a esperança, essa amiga fiel e poderosa que não nos deixa sozinhas.

[1]Segundo a mitologia, Procusto era um bandido que tinha em sua casa uma cama de ferro, que seguia exatamente suas medidas. Quando o bandido convidava os viajantes a se deitarem em seu leito, se fossem demasiados altos, tinham as pernas amputadas para se ajustarem à cama; se fossem de pequena estatura, eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. O problema é que uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama, pois Procusto tinha duas camas de tamanhos diferentes, justamente para maltratar as vítimas.


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