“E outras sementes caíram em terra boa”(Mc 4,8a)

Silêncio de gestação, talvez…
De noite alta, de erma madrugada…
De amanhecer ainda a caminho…
(Solange do Carmo e João Júnior)

Dizem os primeiros padres do deserto que a palavra vem do silêncio e a ele se dirige. Isso parece dissonar com a beleza e a bondade de uma boa conversa, que, às vezes, nos faz tanto bem. Mas não discorda, porque, se a conversa é boa – não, divertida, mas boa para a alma –, isso nos traz paz. E a paz pode ser experimentada como um silêncio amigo e fecundo, como uma calma aconchegante, como uma quietude sem pressa.

É maravilhoso chegar ao fim do dia e deixar repousar o peito no silêncio, após uma jornada plena de sentido. Começam, assim, a serem valiosíssimos alguns acontecimentos, tais como o cheiro do café feito na hora, a cantiga dos pardais, os últimos raios de sol entrando pela janela, o olhar dos seres queridos, enfim, dezenas de momentos enormes, que a alma cheia de barulhos não consegue perceber.

Quando o nosso espírito está em silêncio, também somos capazes de perceber as coisas dolorosas: a falta de paz, a injustiça, as carências humanas de homens e mulheres, perdidos no egoísmo, a pobreza, tão vizinha, tão próxima de nós. No silêncio, temos a também suficiente clareza para pensar como podemos ajudar os mais empobrecidos e,  desde nosso humilde lugar, podemos tomar uma decisão a favor do reino de Deus.

Um coração em calma é, com certeza, terra boa; terreno capaz de produzir muitos frutos de amor e bondade. No meio de um mundo tão barulhento, nem sempre é fácil salvar a consciência dos ruídos e da confusão. Mas, nesses corações aquietados, a palavra de Deus tem espaço, e um espaço receptivo, fértil, limpo. A esses ouvidos atentos, desentupidos do egoísmo e da autossuficiência, a palavra de Deus tem algo a dizer; em seus corações tem um fruto a produzir.

Não é fácil conseguir terra boa onde a semente possa germinar e dar boa colheita.A boa terra de um coração deve estar limpa do pecado, livre dos pássaros da distração que roubam a boa semente; deve não ser sufocada pelas pedras da superficialidade nem pelos espinhos das preocupações a respeito de dinheiro, prestígio, prazeres passageiros etc. Ser terra boa não é coisa simples, nem mesmo se consegue em pouco tempo. É trabalho para a vida toda.Um coração assim é fruto da acolhida do dom de Deus e depende de uma firme decisão de deixar Deus arar o nosso espírito, sem lhe impor barreiras.

No sermão da montanha, Jesus nos indica as bem-aventuranças como caminho da felicidade (Mt 5,1-11). A humildade ali proposta é caminho certo para alcançarmos a paz que nos faz ser terra boa. Jesus nos convida a assumir a nossa pobreza, as nossas aflições sem fugir; a ter paciência e mansidão diante do que ainda não conseguimos mudar ou que nunca mudará; a buscar a justiça, o bem, sem fraquejar; a perdoar, compreendendo os tempos e a história do nosso próximo; a enxergar Deus na nossa realidade, para responder generosamente a ele; a buscar a paz, mesmo quando somos rejeitados, criticados, recebemos zombarias e descaso dos outros. Só Deus,com a sua pedagogia, transformar-nos-á em terra boa, humilde e fértil. E a humildade nos trará paz ao coração.

O semeador semeia com generosidade, sobre qualquer terreno. Ele conhece a qualidade da semente que oferece. Mas só algumas, “as outras”, são capazes de dar fruto. Depende, então, de nós e da nossa disposição, do nosso silêncio receptivo, da nossa capacidade – e firme decisão! – de sermos morada de encontro com o Senhor, que é sempre novidade transformadora. Descobriremos que,em nosso cantinho de terra, outras sementes estavam brotando. Essas “outras”, que o mundo do consumo geralmente deprecia, são palavras de verdade e amor, sussurradas por Deus. As outras, acolhidas na terra boa da humildade e do carinho, darão frutos muito bons. E esses frutos têm o singelo poder de alimentar o mundo.


Crônica anterior:    126. Os tons do sofrimento
Próxima crônica:   128. Encantos do outono
Print Friendly, PDF & Email