“Trazemos um tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7)

“Deus, que será de ti quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu
(Rainer Maria Rilke)

Tenho pensado muito na nossa responsabilidade de transmitir o evangelho de Jesus. A tarefa de comunicar a boa-nova de Deus é maravilhosa, mas não deixa de ter seu peso. É muita responsabilidade ser o “cântaro de Deus”, como poetizou Rainer Maria Rilke. Carregamos Deus para todo lugar; somos portadores de sua presença, portadores de sua água viva. Em nós, que cremos, as pessoas vêm beber esperança; vêm buscar a água da fé que faz renascer a vida. E se nos calamos? E se deixamos o vaso se romper? O que será de Deus? Como sua palavra vai chegar aos corações sedentos? E se essa água se corromper? O que pensarão de Deus? Por quem o tomarão? Como vão as pessoas experimentar a misericórdia e a bondade do Pai se nós não as comunicamos com nossa vida? Contaminada a água da fé, ela pode ser tóxica e até letal. Em vez de bem, pode provocar danos muito sérios.

Adélia Prado escreveu um versinho que confirma essa intuição: “Sei que Deus mora em mim como sua melhor casa. Sou sua paisagem, sua retorta alquímica e, para sua alegria, seus dois olhos”. Ser a casa de Deus não é coisa fácil. A casa pode acolher e abrigar, como pode prender e reter! Ser a paisagem de Deus também tem seus riscos. A paisagem pode deslumbrar por sua beleza ou causar repulsa por seu horror. Ser a retorta de Deus é paradoxal. A retorta é um vasilhame de gargalho estreito e curvo onde acontece a destilação de produtos químicos. Por causa dessa estreiteza, ela favorece o processo químico, mas também dificulta a passagem do líquido. Dizer então que somos a retorta alquímica de Deus é afirmar que Deus é destilado em nós. Em nossa vida, ele é purificado para ser oferecido ao mundo. Não que haja alguma impureza nele. Não é isso! Mas ele, na sua grandeza, não pode ser experimentado senão em nossos gestos, nossas palavras, nosso olhar, nossas mãos estendidas. Somos a destilaria de Deus, onde as pessoas vêm degustar a doçura embriagadora de seu amor.

É bem verdade que, na nossa fraqueza, somos sempre vaso rachado ou vasilhame de gargalho torto; nunca vasos perfeitos. Mas,é com nossas rachaduras e tortezas, que podemos e devemos carregar a água de Deus. Como escreveu João Júnior, até as “assimetrias do cristal do coração são pelo Mistério aproveitadas” para transparecer mil tons do reflexo da sua graça. As rachaduras do vaso fazem escorrer água pelo caminho onde nascerão flores. Toda rachadura de nossa humanidade pode ser transformada em fecundidade! E o estrangulamento da retorta faz dela o vasilhame indicado para a destilação. Ainda bem! Assim ficamos mais tranquilos, sem nos exigir uma perfeição da qual não somos capazes.

Isso não nos isenta, porém, da responsabilidade de “carregar Deus”, de levar conosco o seu significado. Ao contrário, saber de nossas imperfeições e limites só aumenta a nossa gratidão para com ele, que nos aceita como somos e não se subtrai a nós por causa de nossas rachaduras ou estrangulamentos. No seu imenso amor, quando o levamos conosco, na verdade, é ele mesmo que nos leva. E, quando o oferecemos a alguém,é ele mesmo que se oferece a nós. De forma que se cumpre o que diz a oração de São Francisco: “É dando que se recebe”. Quanto mais o vaso entrega seu conteúdo, mais se plenifica do que é oferendado.

Ser cântaro de Deus nos obriga a um constante trabalho de reelaboração do que somos. Como é precioso demais o tesouro que carregamos em vasos de argila, não podemos nos arriscar a deixar se perder o bem precioso que portamos. O profeta Jeremias, sabendo dos riscos aos quais esses vasos imperfeitos estão expostos, nos tranquilizou dizendo que Deus nos refaz sempre, e de novo. Como o barro nas mãos do oleiro, o Senhor toma nossa vida, nos molda, nos remodela, porque vê não só o que somos, mas o que podemos ser quando tocados por seu amor. Nesta certeza, seguimos em frente sem desanimar: Aquele que levamos dentro de nós nos carrega em seu coração de forma que já não sabemos mais se somos o cântaro de Deus, que o carrega como água para saciar o mundo,ou se somos a água que ele oferece para matar a sede do mundo.


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