“Não deveis ficar lembrando as coisas de outrora,
nem é preciso ter saudade das coisas do passado” (Is43,18)

“A minha mocidade outrora eu pus
No tranquilo convento da Tristeza:
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz…”
(Florbela Espanca)

 

Saudosismo não é coisa estranha à maioria dos humanos. Quando uma crise vem, logo a gente começa a desdenhar o tempo presente e a ficar com saudades de um passado glorioso que só existe nos nossos sonhos. Nem o passado foi tão maravilhoso, nem o presente é tão tenebroso. Todo tempo tem seu peso; todo dia tem seu mal. Mas, certamente, qualquer época tem também suas alegrias e nos reserva possibilidades únicas. É preciso saber explorá-las. Ficar preso ao passado, “chorando o leite derramado”, como diz o dito popular, não resolve coisa alguma. Ao contrário, a atitude pessimista e saudosista gera um enfado insuportável, tornando nossos dias piores que os dias de Jó.

A Escritura Sagrada nos aconselha a olhar para frente, a confiar, a arregaçar as mangas e seguir nossa jornada; Não deveis ficar lembrando as coisas de outrora, nem é preciso ter saudade das coisas do passado” (Is43,18). Ficar olhando para trás, apegados ao que um dia fomos ou ao que um dia vivemos, pode não ser uma atitude muito inteligente. Quem não conhece o célebre caso da mulher de Lot, que, tendo recebido a ordem de Deus de desocupar a cidade e seguir em frente, olhou para trás e tornou-se uma estátua de sal? (cf.Gn 19,24-26). Certamente essa lenda era contada não para amedrontar os hebreus mas para mostrar que a vida segue seu curso e que ficar apegado ao passado significa paralisar a nossa vida. É preciso coragem para seguir em frente, para mudar, para tomar novos rumos. Há sempre um novo caminho aberto à nossa frente.

Tenho escutado muita gente boa – pessoas piedosas e de fé – lamentando o tempo presente e idealizando o tempo passado. “No meu tempo, era tão bom; hoje, a vida está um caos”. “Antes a família vivia unida; hoje, ela está destruída”. “Antigamente, as pessoas se comprometiam com a Igreja; hoje, ninguém quer saber de compromisso”. E por aí vai. Que tempo é esse sem revezes e sem intempéries? Desculpem-me a franqueza, mas desconheço-o. Que família é essa sem intrigas, sem traições e sem desentendimentos? Também desconheço essa família. A família sempre foi palco de disputas, de incompreensões e de divisões. É só abrir o livro do Gênesis e lá está, bem no começo da Escritura Sagrada, o relato conflituoso dos dois irmãos, Caim e Abel. E, na família de Abraão? Sara e Agar se digladiavam disputando o amor do Patriarca. E quem nunca ouviu falar de Esaú e Jacó brigando desde o ventre da mãe? São narrativas teológicas, muito realistas. Mostram que a família nunca foi perfeita. E a Igreja? Sempre foi um mar de rosas? Acho que temos memória curta. Até pouco tempo atrás nossa Igreja vivia inchada de cristãos que não estão nem aí para ela. São os chamados católicos não-praticantes. Pergunto: Temos saudade de uma igreja inflada, mas cuja interioridade não passa de vento? “Vaidade das vaidades”, diz o Eclesiastes.

Tenho a impressão que criamos um passado perfeito para justificar nossos fracassos presentes. No campo religioso, isso é ainda mais frequente. Idealizamos a fé de outrora e desdenhamos as experiências de fé que são possíveis hoje. Dizemos: “A profecia morreu! Lá se foram os profetas!”. Esta frase tem sido repetida insistentemente em alguns setores da Igreja. Por ocasião da morte do padre João Batista Libanio, ela foi dita à exaustão. E agora voltou a ser repetida muitas vezes com o fechar dos olhos do cardeal D. Evaristo Arns, chamado também de bispo dos pobres. Que eles foram grandes profetas, disso não tenho dúvidas! Que deixaram um legado invejável de vida em defesa dos pequenos, disso também estou segura. Mas nem por isso morreu a esperança ou acabou a profecia.

Estou convicta que quanto maior o saudosismo, menor a possibilidade de diálogo com o tempo presente. Será que vamos fazer como disse Florbela Espanca? Vamos enterrar sua vida no “convento da Tristeza” porque não conseguimos nos desvencilhar do tempo passado? Vamos deixar nossa esperança definhar até ficar raquítica e perder seu elã? Vamos deixar o saudosismo nos cegar até nos tirar a possibilidade de ver novos horizontes que se abrem? Essa não parece ser uma atitude inteligente! É hora de rechaçar o saudosismo, como disseram os bispos franceses. É preciso viver corajosamente no nosso tempo, sabendo acolher o que ele nos oferece de bom e rejeitando o que é contra o evangelho. Saber dialogar com o tempo presente é atitude dos fortes. Viver lamentando o paraíso perdido, preso em saudosismos que nada contribuem para o bem-viver, é atitude dos tíbios. Nós cristãos “não somos um povo de perder o ânimo e parar; de olhar pra trás, de voltar, de desanimar”… Somos, antes, “um povo de manter a fé e o amor, de olhar pra frente e lutar pela salvação…” .


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